quarta-feira, 23 de julho de 2008

Expedição do Patrimônio Vivo - Dia 1 - Três Pontas


Andressa Iza Gonçalves, Paulo de Morais, Sandra Maura Coelho. Fotos: Sansão Bogarim.
A terça-feira mal começara e já estávamos com o pé na estrada. Saímos de Três Corações por volta das 7h15 . Lá pelas 8h, saímos de Varginha e entramos no trecho que liga a cidade a Três Pontas. A placa já indicava que íamos chegar na cidade do café e as plantações a perder de vista confirmavam a informação. Foi inevitável, e pode até ser psicológico, mas naquele momento dava pra sentir o cheiro do café no ar. Tudo inspirado pelas belas paisagens que a estrada sinuosa, cercada de cafezais, montanhas e casarões históricos de fazendas, nos proporcionava.
Primeira parada – Fazenda Pedra Negra e Museu do café – 8h50



O que era apenas uma primeira impressão, foi se revelando em sua essência a partir do momento em que desambarcamos na Fazenda Pedra Negra. Fomos recebidos pelos proprietários Izaura Maria de Resende e Gustavo Roberto Casas. Izaura é herdeira da fazenda, que foi inaugurada pelo avô Domingos Monteiro Resende em 1890. Ele é argentino de Buenos Aires e largou a profissão de engenheiro eletricista para trabalhar com a fazenda. Os dois se conheceram em Salvador.
Com uma chave de ferro que por si só parecia guardar toda a história a ser desvendada, Gustavo abriu as portas do Museu do Café. Trata-se de um antigo armazém de beneficiamento que ganhou, em seu interior, uma coleção de objetos e utensílios que, juntos, remetem a toda a linha de produção do café, desde o plantio até a mesa de casa. Painéis explicativos esmiuçavam a memória da fruta que no início do século passado era o principal produto de exportação brasileiro e que até hoje é o motor da economia regional. Segundo Gustavo, o museu foi uma iniciativa do casal, que virou realidade graças a doações de amigos. “Hoje, nossa fazenda é um museu vivo. Este tipo de ambiente encanta os visitantes da cidade grande. Eu recebo aqui principalmente paulistas e muitos estrangeiros também. Tem aqueles que vem não como turistas, mas como negociadores de café”, contou o empresário.



Da saída do museu, ouvimos vozes femininas vindas do cafezal. A curiosidade nos guiou até onde elas estavam. Lá conhecemos Claudinéia Carola Girondelli, 36 anos, catadora de café desde os 17, conhecida como Néia. Ela conta que a época da panha é a única do ano em que ela e a família têm emprego. O que eles ganham com a colheita, em torno de 20 reais por dia, é poupado durante todo o restante do ano. Normalmente, o trabalho começa em maio e termina em agosto. “Este ano, as chuvas começaram atrasadas e por isso a safra vai ser menor”, comentou.

Dali partimos para conversar com a companheira dela, Marizete Ferreira Vasco, de 52 anos. “Hoje a gente nem traz mais menino pra cá. Minha mãe também catava café e trazia os filhos todos no balaio aparador pra acompanhar. Aí ela tinha que cantar o tempo todo pra acalmar os meninos”, lembrou. Neste momento, Néia nos convidou para conhecer o pai dela, seu Antônio Pereira Carlota, de 74 anos, que mora ali mesmo na fazenda. Catador de café desde os onze anos e viúvo há três, ele nos contou muitos causos dos tempos idos, enquanto enrolava um cigarro de palha no sofá de casa. “No baile do meu casamento, meu sogro ofereceu pinga pra todo mundo. Naquele tempo, o forró era só com sanfoneiro e durava até o sol raiar. Quando era de manhã, o pessoal começou a ir embora. Eu lá ia com eles quando me lembraram era eu que tinha acabado de casar”, recordou o ex-catador, arrancando risadas de todo mundo.
Segunda parada – Art Café Design – 11h

Saímos da fazenda de alma lavada e com a bateria carregada para continuar a Expedição. Começamos com o pé direito. Fomos conhecer a empresa Art Café Design. Quem nos recebeu foram os irmãos Gustavo e Marcelo Vilela Boechat e Carolina Garcia Diniz, que estavam em plena produção de artesanato. A técnica que eles usam tem como matéria-prima a palha do café, que é rejeito da produção, e foi criada pelas mães deles. “Nosso artesanato é sustentável, porque a palha ia ser jogada fora de todo jeito. Além disso, o trabalho ainda gera emprego para umas 20 pessoas no bairro”, conta Marcelo, que vende parte da produção em feiras fora do Estado e já chegou até a exportar algumas peças.
Terceira parada – Casa de Cultura – 13h30



Depois de um almoço revigorante e uma rápida parada no hotel, chegamos na Casa de Cultura da cidade. A turismóloga Keiry Mariano nos apresentou o diretor do Conservatório Municipal de Música Heitor Villa Lobos, Clayton Prosperi de Paula. A entidade completou este anos duas décadas de fundação e conta com cerca de 400 alunos em cursos de flauta doce, flauta transversal, piano, teclado, saxofone, canto, bateria, violino e violão, além de manter uma orquestra experimental com 60 integrantes.
À medida em que Clayton nos contava sobre o panorama musical, pudemos perceber o quanto se trata de uma tradição riquíssima da cidade. E não dá para falar desse assunto em Três Pontas sem falar do filho mais ilustre da terra, Milton Nascimento, que veio para o município ainda criança e encontrou uma forte tradição familiar ligada à música. Clayton apontou as famílias Tiso, Schiavon e Prosperi como exemplo de pessoas que formaram o ambiente musical efervescente. “A família Tiso, por exemplo, sempre homenageia seus familiares mortos fazendo uma serenata, uma vez por ano, em frente ao cemitério”, contou o professor. Sim, este Tiso a que Clayton se refere é mesmo do compositor e arranjador Wagner Tiso, companheiro do Milton Nascimento no saudoso Clube da Esquina.
Keyre nos apresentou também o senhor Paulo Costa Campos, ex-bancário e professor de matemática e contabilidade, que se apaixonou pela história de Três Pontas quando começou a investigar as origens de sua família. Aos 83 anos e com uma memória invejável, tornou-se historiador pela paixão e conta histórias da cidade com uma precisão matemática. “O povo comemora o aniversário da cidade como se fosse em 1857, mas na verdade ela começou quando foi publicada a provisão do bispado de Mariana para a construção da capela de Nossa Senhora D’Ajuda de Três Pontas, em 5 de outubro de 1768”, explicou o professor, que se $revelou uma enciclopédia viva.
Quarta parada – Memorial do Padre Victor - 16h20



“Três Pontas é cidade da música, do café e da fé”, comentou Keyre enquanto nos acompanhava até o Memorial Padre Victor. Quem nos apresentou o local foi a professora de história Maria Rogéria de Mesquita, de 74 anos, que cresceu ouvindo histórias de admiração da família pelo pároco que ficou conhecido como milagroso. “O meu avô foi sacristão na época do Padre Victor e por isso a devoção veio de família”, contou. O memorial, criado e mantido pela associação da qual Maria Rogéria é voluntária, é a principal referência dos romeiros que visitam a cidade especialmente no dia 23 de setembro, data da morte do padre. Ela foi peça fundamental para o processo de beatificação do religioso, ao participar das pesquisas que foram feitas na cidade para registro de graças e milagres, tratados hoje como sigilosos.
Quinta parada – Casa do senhor José Dias dos Reis – 18h30

Seu José tem Reis até no nome. Figura típica do folclore local, Seu Dias, como é conhecido, é embaixador da mais tradicional companhia de Folia de Reis da cidade, a Folia da Família Dias. Ele nos contou que quem fundou a companhia foi seu bisavô Joaquim Dias, que a passou para seu avô, Antônio Dias, que, por sua vez, a passou para seu pai e tios. Seu dias estampa um sorriso de admiração e orgulho a cada frase que conta sobre a tradição. “É muito bonito! É bonito!”, repetia a cada verso que recitava. “Louvado seja meus Deus, menino de Deus nascido, no ventre da virgem pura, nove meses andou escondido. Maria mãe de Deus, moça pura e de fé, vivia entre as montanhas, na vila de Nazaré. Ela é a mãe de Deus, de São José é adotivo, no dia 25 de março, o rei encarnou vivo”.
Depois de muita prosa, nos despedimos às 19h10. Saímos dali com a sensação de dever cumprido e certos de que há muito patrimônio vivo a ser descoberto em Três Pontas. Viemos para o hotel, onde ficamos até 0h47 redigindo esta primeira anotação do diário de bordo. Não perca amanhã neste mesmo blog o relatório da expedição em Carmo da Cachoeira.

1 comentários:

Anônimo disse...

Bom dia. Lendo o blog quero dizer que é muito interessante esse projeto que vocês estão desenvolvendo, "Expedição do patrimônio vivo". Temos projetos nessa mesma linha aqui no Estado do Pará, onde moro. Parabéns pela estrutura do trabalho, em forma de diário de campo. Fica bem dinâmico. Obrigado. Éden Costa. Departamento de Patrimônio Histórico do Pará. Secretaria de Cultura.