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terça-feira, 13 de julho de 2010

A ordem para os museus é se reinventar

Na última semana de junho, estivemos no estúdio do laboratório de vídeo da Funedi/UEMG, em Divinópolis, para participar do programa Questões, que trata de assuntos ligados ao meio acadêmico e sua relação com a comunidade. O tema do programa em questão era Museus e Patrimônio. O programa foi inspirado na publicação do livro Museu: cidadania, memória e patrimônio, dos professores Flávia Lemos de Azevedo, João Ricardo Ferreira Pires e Leandro Pena Catão.

O livro é resultado de um seminário que aconteceu na universidade em 2009. Trata-se de uma reunião de artigos de especialistas e acadêmicos que relataram experiências e discutiram visões teóricas sobre o universo dos museus. Publicado pela editora Crisálida e com apoio do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) é uma bela coletânea para gestores públicos de museus, principalmente do interior do Estado, região que é tema de praticamente todos os textos.

Mais do que simplesmente falar sobre o dia-a-dia dos museus, acervos, ação educativa e outros temas bem recorrentes, a coletânea trata de assuntos que cercam o universo da gestão pública da cultura: noções de patrimônio material e imaterial, história oral, ICMS Cultural, leis de incentivo à cultura e fundos estatais.

A tecla mais batida em todos os artigos apresentados é a de que é preciso repensar nosso conceito de história para, a partir daí, repensar nossos museus. A história não pode mais ser vista como a historiografia oficial, que traz apenas a voz das elites e dos vencedores. Precisamos compreendê-la como uma coexistência de diversas vozes, como o registro não apenas do extraordinário, mas também do ordinário, do cotidiano, do comum.

Assim, os museus precisam ser pensados para fazer as pessoas perceberem que o patrimônio cultural não é apenas obras de arte raríssimas, igrejas barrocas ou ferramentas de trabalho coloniais. Ele é também o que vivemos no dia-a-dia, nosso bairro, nossa vizinhança, nossa praça, nossas receitas, nossos modos de fazer. É uma visão mais ampla de patrimônio, que exige, por tabela, uma visão também mais ampla de museu e de história.

No livro, exemplos para explicar essa mudança de visão não faltam. O registro do queijo do serro como patrimônio imaterial brasileiro chega a ser citado em mais de um artigo, de tanto que é emblemático. Outros estudos de caso também são apresentados, como o trabalho de Flávia Lemos com o patrimônio imaterial de Itapecerica.

A professora Batistina Corgozinho traz uma precisa descrição do acervo do Museu Histórico de Divinópolis. Paralelamente à diversidade do acervo, que traz desde obras de arte a ferramentas dos oficineiros da rede ferroviária, é certo que a principal instituição de memória da cidade precisa se recriar. O próprio museu reconhece, como foi mostrado na Conferência Municipal de Cultura, que destacou a necessidade de implantação de plano museológico para a cidade.

Museu: cidadania, memória e patrimônio é uma leitura obrigatória para gestores de museus e memoriais do interior de Minas. Muitos desses espaços ainda se encontram naquela configuração de depósito de coisa velha. Para avançarem e se tornarem agentes influentes no modo de vida das pessoas, precisam urgentemente abrir os olhos para o que está sendo dito.

Confesso que o livro pareceu, às vezes, meio repetitivo, tamanhas eram as referências à necessidade de mudança de pensamento por parte de gestores. Mas, diante do que se vê em muitas Casas de Cultura e museus do interior, seja realmente necessário martelar na cabeça das pessoas o que se pensa sobre a real função do museu no século XXI. Fica a indicação.



Museu: cidadania, memória e patrimônio. 
Flávia Lemos Mota de Azevedo, João Ricardo Ferreira Pires e Leandro Pena Catão. Editora Crisálida, 211 páginas.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Divinópolis: Seminário discute patrimônio imaterial

Estivemos mais uma vez em Divinópolis na última semana, desta feita para participar do Seminário Regional de Patrimônio Imaterial, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura em parceria com a Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg) e o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha). Estavam ali reunidos secretários de cultura e servidores de cidades da região, além de pesquisadores, professores e curiosos em geral, para entender um pouco mais sobre a dimensão intangível do patrimônio cultural, tão aclamada pelas políticas públicas nos últimos anos.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

'Celeste Brandão, o traço da memória', de Adriano Luiz Reis


No final de maio deste ano aconteceu, em Divinópolis, a Conferência Municipal de Cultura. O propósito do encontro foi debater e tomar decisões a respeito do futuro da política pública de Cultura da cidade onde eu nasci. Principalmente para mim, que estou afastado do convívio com minha terra natal há mais de três anos, foi uma experiência ímpar. Mais do que discutir o tema que é meu ganha-pão (a gestão cultural), a Conferência foi um espaço de socialização de idéias, pensamentos, atitudes e pessoas. Algumas dessas pessoas, inclusive, se apresentaram com aquela vontade de produzir cultura que só quem vive da arte sabe como é.

A conferência era divida em grupos de trabalho (GT's). No primeiro dia, participamos do GT de memória e patrimônio. Estávamos reunidos com a professora Batistina Corgozinho, da Fundação Educacional de Divinópolis (Funedi/Uemg), o presidente do Conselho do Patrimônio Histórico, Ruy Pacheco, representantes do museu histórico da cidade e dois artistas locais. Os assuntos convergiram para a necessidade de um plano museológico no município, que defina o papel do museu da Praça da Catedral e que determine a implantação de outros centros de memória (ferroviária e artística, por exemplo).


Foi neste contexto que ficamos conhecendo o produtor Adriano Luiz Reis. Nós participamos da roda de conversa do GT explicando sobre o movimento de valorização da tradição oral, do qual fazemos parte junto com outras instituições como o Museu da Pessoa e o Grãos de Luz e Griô. Nesse meio tempo, Adriano comenta sobre a dificuldade que encontra em exibir o vídeo que produziu sobre a artista plástica divinopolitana Celeste Brandão. Ele falou sobre os donos das salas de cinema locais, que aderiram à moda multiplex dos shopping centers e não procuram interagir com a produção local.


No penúltimo dia da conferência, Adriano nos entregou o DVD com o documentário, batizado de 'Celeste Brandão - O traço da memória'. O vídeo intercala imagens das telas de Celeste com depoimentos da memória da artista, fotografias e vídeos históricos de Divinópolis e comentários do convidado Osvaldo André de Melo. Todas as sequências nos levam a observar a intrínseca relação entre o traço da pintora e a memória da cidade. As guardas de reinado, o footing, a igreja da Catedral, a estação ferroviária, as quermesses no Santuário, as brincadeiras de rua, o cinema... todas essas lembranças de uma cidade que a modernidade ressignificou estão retratadas na obra de Celeste.



A urbanização da cidade é um tema que o documentário nos faz refletir. Eu me lembro muito bem de quando eu ainda morava onde nasci, no comecinho da Rua Pernambuco, perto do Esplanada e do Porto Velho, quando a igreja Universal ainda era Cine Arte Ideal e todos os pais de alunos do São José eram funcionários da Rede, que já não existe mais. O vídeo de Adriano Reis vai fundo nesta questão. Mostra o que a cidade deixou para trás com a modernidade que provocou, dentre outras coisas, a verticalização do Centro da cidade.


Não que a modernização seja ruim. É evidente que ela tem vários aspectos positivos. O que o vídeo, como toda obra de retratação da memória, provoca é o senso crítico sobre o que aconteceu e acontece. Fica, então, o convite a esta reflexão.

Fotos: Divinópolis antiga e quadro de Celeste Brandão: acervo Lomiranda. Divinópolis atual: daqui.





segunda-feira, 22 de junho de 2009

Mário Teles: "Simplicidade é uma coisa que eu tenho e que meu pai também tinha"



Este fim de semana estivemos em Divinópolis para uma visita ao Museu do GTO. O convite veio de uma das fundadoras do Instituto GTO, Celma Bosque, com objetivo de cooperar na criação de um projeto estruturante para esta associação. Para quem não conhece a obra do escultor, vamos a uma brevíssimo histórico, que nos foi narrado por seu filho e sucessor Mário Teles.

Geraldo Teles de Oliveira
nasceu em Itapecerica, na região Oeste de Minas Gerais, em 1913. Mudou-se para Divinópolis ainda jovem, quando tornou-se funcionário do Hospital São João de Deus, onde trabalhou como vigia noturno. Estabeleceu-se com sua família no bairro Niterói e, com um jeito simples de encarar a vida, seguiu religiosamente no trabalho e só depois dos 50 anos começou a esculpir.

Mário contou que, em 1965, seu pai recebeu aviso prévio do hospital. Ficou desolado com a possibilidade de ficar desempregado e sem saber o que faria da vida. A esposa, solidária à situação de Geraldo, disse que rezaria para Bom Jesus para que ele lhe desse uma nova profissão.

A partir daí, iniciou-se a obra do escultor. GTO, como ficou conhecido, montou uma oficina caseira e começou a esculpir em cedro. Criou uma identidade artística própria, reveladora de uma imensa criativade, traçando dezenas de figuras humanas no que chamou de Roda da Vida. Outras formas foram desenvolvidas, como a Pirâmide da Vida.

Quando estava com 54 anos, ganhou projeção ao expor na galeria Guignard, em Belo Horizonte. Ela fora convidado pelo arquiteto e ex-prefeito Aristides Salgado. Após a ida à capital mineira, GTO ficou conhecido nacionalmente e teve obras expostas e vendidas em galerias brasileiras e europeias. Vendo as encomendas crescerem, o escultor foi aos poucos encaminhando parte do serviço ao filho Mário, que foi se apropriando da arte e da genialidade do artista popular.


Atualmente, no porão da antiga casa onde GTO morou, funciona a oficina em que Mário esculpe suas obras. Ali também há obras do pai, Geraldo, e do sobrinho, Geraldo Fernando de Oliveira, o GFO, que também segue a arte do mestre (foto acima). Os trabalhos de Mário Teles mostram que ele não apenas se apropriou da linguagem de GTO, como também a recriou.


Nós percebemos que GTO não é apenas um artista, mas inaugurou um movimento artístico de intensa expressão popular. A música divinopolitana de raiz, por exemplo, é retratada nas diversas rodas da vida expostas no museu. As esculturas parecem ter movimento e lembram, em cada detalhe, as guardas de reinado da região. Na peça chamada "Festa do Bom Jesus", Mário retrata a Procissão de Ramos e outros temas católicos. Os índios, a capoeira e a Folia de Reis também são retratadas em suas obras.


Mário Teles criou, também, a Engrenagem da Vida (acima), em uma impressionante releitura da obra do pai. Ela nos contou que a inspiração veio das rodas gigantes dos parques que frequentava quando era criança. À medida em que vai contando os detalhes das outras esculturas, Mário nos embarca numa viagem pela memória da cidade do Divino, tangenciando a poesia de Adélia Prado e as telas de Celeste Brandão, e nos prestigiando com a sensação de participarmos de um museu vivo.


Para mostrar um pouco do ofício, Mário nos levou à sua bancada de trabalho. A primeira coisa que ele aprendeu com o pai foi a riscar e vazar a madeira. Essa parte do ofício é, às vezes, exercido pelo seu filho. Mário contou ainda que, com ferramentas simples (formão, serrote e macete), vai dando forma às esculturas.

As madeiras que o artista mais usa são o cedro-rosa e o cedro-vermelho. Depois que faz todo o entalhe, vem o acabamento de mãos e olhos das figuras humanas. Para dar o acabamento, ou "imunizar a peça", como diz Mário, é passada uma camada de óleo diesel.

O artesão revelou ainda parte de sua simplicidade contando que dá palestras em escolas da cidade.

- Eu não sou professor, porque eu não estudei para dar aula. Tudo o que eu faço é da minha cabeça, é a minha arte.

Hoje, Mário conta que já esculpiu mais de 3.500 peças, "sem repetir uma!"


Algo que nos impressionou foi a semelhança simbólica entre a Roda da Vida de GTO e a Roda da Vida e das Idades do Grãos de Luz e Griô, projeto do interior da Bahia que, para dizer de forma bem rápida, trabalha a reapropriação e recriação da tradição oral por meio da visita de mestres e aprendizes em escolas. Tradição oral, inclusive, que foi fundamental na formação da obra de GTO.

No fim da visita, Mário comentou o motivo pelo qual expõe religiosamente, suas peças na feira dominical de artesanato:

- O pai gostava de participar e mostrar a arte na feira. A Feira do Artesanato do Santuário é uma fortuna pra nós.

Participaram Andressa Gonçalves e Mônica Furtado. Fotos Paulo Morais.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Missa Conga - Divinópolis (MG) - 24 de maio de 2009












A cidade do Divino, no Oeste de Minas, sediou no último domingo (24 de maio) a 32ª edição da Missa Conga. Trata-se de uma celebração em que a Igreja reconhece o papel do Reinado enquanto manifestação da fé católica e pede perdão pelo tratamento dados aos escravos no Brasil. Realizada a céu aberto por causa do grande número de presentes, a missa foi uma profusão de cores, ritmos e cantorias, que emanaram das 27 guardas de congo presentes, segundo os dados da Secretaria de Cultura da cidade.

A celebração é comandada pelo Frei Leonardo Lucas, entusiasta da tradição e considerado um rei Congo por alguns dos reinadeiros do município. O pároco foi um dos idealizadores da missa. Até a década de 1970, o Reinado não era aceito pela Igreja Católica. Porém, a tradição bicentenária, que prega o louvor a Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, passou a ser aceita pelos religiosos e entrou para o calendário oficial da diocese divinopolitana.

Marcada para as 15h30, o encontro das guardas de reinado começam com cerca de uma hora de antecedência. Vários ônibus trazem as comitivas dos bairros e da zona rural, que desembarcam na esquina da rua São Paulo com a avenida Sete de Setembro, próximo ao terreno dos Franciscanos. Tocando caixa, sanfona, reco-reco, patagunda, pandeiro e outros instrumentos, as guardas vão chegando e, em seguida, sobem para a porta da igreja de Santo Antônio.

Elas atravessam a fachada da Igreja e se concentram na Avenida 21 de Abril, em frente ao Santuário, que foi fechada especialmente para a celebração. Ali ficam pessoas de todas as idades, desde crianças devidamente uniformizada até os mais experientes. Juntam-se a eles centenas de fiéis e curiosos.

Sem dúvida alguma, um dos momentos de maior emoção é a encenação da leitura da Lei Áurea pela Princesa Isabel. Uma leva de escravos sobe as escadarias da igreja, sendo açoitada por um capataz. Em seguida, a princesa chega carregada em uma liteira e faz a leitura da carta de libertação dos escravos. As correntes e algemas são retiradas dos negros e expostas ao público, simbolizando a libertação dos escravos. Em seguida, alguns presentes são coroados pelas irmandades, como homenagem às ações pela causa dos reinadeiros.

Outra tradição local é o Café de São Benedito, que tradicionalmente acompanha as festividades de Reinado nos bairros e na zona rural. A Secretaria de Cultura do Município e a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do bairro Vila Romana prepararam 250 litros de café para servir aos reinadeiros que participaram da festa.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Terreno dos Franciscanos poderá servir a interesses privados

Durante as discussões da Conferência Municipal de Cultura, em Divinópolis (MG), um tema em especial causou intensa preocupação na comunidade cultural: a possibilidade de alteração do lote conhecido na cidade como Terreno dos Franciscanos de Zona Especial para Zona Comercial. Trata-se de um terreno doado na primeira metade do século passado pelo então prefeito Pedro X Gontijo, que incluiu em lei a obrigação de que o mesmo servisse obrigatoriamente a fins públicos. A descaracterização, entretanto, permitiria que um grupo privado de investidores criasse qualquer estabelecimento comercial no local, o que vai contra o pensamentos dos agentes, uma vez que já existe o projeto de construção de um Centro Cultural no local. A proposta já foi aprovada na Câmara dos Vereadores, mas o prefeito Vladimir Azevedo a vetou, alegando que a alteração fere a memória da cidade e vai contra o interesse coletivo. No entanto, os vereadores tem o poder de derrubar o veto e permitir que um estabelecimento privado seja construído no lote.

Para evitar que o veto seja derrubado na Câmara, os agentes decidiram em assembléia encaminhar um abaixo-assinado aos vereadores do município manifestando repúdio à possibilidade de derrubada do veto. No intuito de colaborar para a defesa do interesse público, a Viraminas publica neste blog a íntegra do abaixo-assinado. A poetisa Adélia Prado, que palestrou para os participantes da Conferência, foi uma das primeiras a assinar o projeto. "Divinópolis corre o risco de se tornar apenas um entreposto comercial. É isso que nós queremos para nossa cidade?", questionou Adélia para a platéia de artistas e agentes culturais do Teatro Gravatá. Os simpatizantes com a causa podem imprimi-lo e distribuí-lo nas ruas. O presidente do Conselho do Patrimônio Histórico, Arquitetônico e Paisagístico, Rui Campos Tavares, é o responsável pela coleta das assinaturas e entrega à câmara.

Contatos: Rui Campos Tavares, 9922-4145.



Divinópolis, 27 de maio de 2009

Excentíssimos senhores vereadores,

Os cidadãos divinopolitanos abaixo-assinados manifestam apoio ao veto emitido pelo prefeito Vladimir Azevedo à Proposição de Lei Complementar CM 007/2009, que dispõe sobre a descaracterização e novo zoneamento do lote de terreno situado na Rua Minas Gerais com Avenida Sete de Setembro, popularmente conhecido como Terreno dos Franciscanos. Dessa forma, exigimos que os vereadores, enquanto representantes diretos do povo e eleitos democraticamente, mantenham integralmente o veto. Consideramos que a implantação de um centro cultural no local em questão vem atender a um forte anseio da comunidade divinopolitana, uma vez que suprirá uma carência latente no setor cultural, gerando impactos extremamente positivos para a geração de emprego e renda em nosso município. Destacamos, ainda, que tal proposta de implantação do referido centro cultural terá infinitamente mais relevância para o desenvolvimento e o progresso da nossa cidade do que qualquer outra proposta de instalação de um centro comercial comum. Por fim, reforçamos nosso repúdio às ações de cunho contrário ao interesse público.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Encontro com representantes do Reinado, em Divinópolis

Nesta última sexta-feira (16), estivemos reunidos com representantes do Reinado de Divinópolis, cidade do Centro-Oeste de Minas, para elaborarmos um projeto que aborde a memória desta importante manifestação cultural. As conversas foram agendadas pela funcionária da Secretaria Municipal de Cultura (SEMC) Lenir Castro, uma das principais entusiastas da cultura popular.

Originado da interação entre a cultura dos escravos africanos e a religião católica, o Reinado foi proibido durante anos pela Igreja. A despeito da proibição, que perdurou até a década de 1970, em Divinópolis, a manifestação se manteve viva. Atualmente, são 17 irmandades ativas na comunidade, algumas delas na zona rural. Uma vez por ano, é celebrada a Missa Conga, em homenagem aos reinadeiros, basicamente devotos de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Cada irmandade realiza ainda a sua festa, em louvor aos santos do Reinado. Gilberto Gil e Milton Nascimento são alguns exemplos de pessoas que foram coroados reis congos pelas irmandades locais.

Primeiro encontro - Capela da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, no bairro Espírito Santo.



Lenir nos acompanhou ao nosso primeiro encontro, agendado para a Capela da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, no bairro Espírito Santo. Quem nos aguardava era Maria de Lourdes Teixeira, a "Lourdinha do Reinado", uma das mais fervorosas guardiãs da tradição. Vestida a caráter para a conversa, Lourdinha começou nos contando a origem da fé de seu pai, Vicente Teixeira, em Nossa Senhora do Rosário.

Seu Vicente foi picado por uma cobra urutu, enquanto trabalhava no meio do mato. Veio para a cidade certo de que teria que amputar a perna, tamanha era gravidade do ferimento. Porém, um raizeiro conhecido como Seu Nato tratou de seu Vicente com plantas, e o paciente prometeu a Nossa Senhora do Rosário que, se ficasse curado, dedicaria a vida em prol do Reinado.



Não deu outra. Seu Vicente ficou curado e, a partir daí, surgiu uma impressionante história de devoção. Com o tempo, começou a participar da Festa de Reinado de Carmo do Cajuru. Nessa época, ele já levava Lourdinha para assistir às festividades, pois até então não se permitia a participação das mulheres. Aos nove anos, Lourdinha foi "fantasiada" de menino pelo pai para poder acompanhar o cortejo.

Tempos depois, Vicente se mudou para Divinópolis, onde comprou o terreno para a construção da igreja da Irmandade. "Antes de começar a fazer o alicerce, ele sonhou que construiria uma igreja de sete cantos. Ele começou a construir a igreja que ele sonhou. Quando estava lá em cima da laje, ele sofreu um infarto e morreu. Isso foi há 28 anos", recorda Lourdinha, emocionada. "Meu pai foi uma pessoa muito importante para mim. Ele cumpriu a promessa e morreu trabalhando para Nossa Senhora do Rosário", acrescentou a reinadeira.

Lourdinha emendou lembrando do terço que seu pai ganhou do padre Libério, o frei milagroso nascido na cidade vizinha de Leandro Ferreira. Seu Vicente passou anos rezando para os outros, atendendo pedidos de vizinhos, amigos, parentes e até desconhecidos que ficavam sabendo da sua fé. Em Divinópolis, fundou a guarda do Moçambique Velho, que, na tradição, é responsável por proteger o Reinado.

A reinadeira explica a origem do toque das caixas da guarda de Moçambique. "Os escravos tocavam a caixa para esconder o choro das crianças que nasciam na senzala, por que, se os patrões ouvissem, jogavam as crianças para os porcos comerem", relatou. Daí nasceu a cadência das batidas de Moçambique, a principal guarda do Reinado, segundo Lourdinha.

A guarda de Moçambique é responsável por todo o ritual de fé que envolve as festas de Nossa Senhora do Rosário. Além dela, formam as irmandades os ternos, que são responsáveis por compor e enfeitar. "São a composição do reino", explica Lourdinha. São exemplos o Terno do Vilão, dos Marinheiros, do Catopé, do Penacho. O canto da guarda de Moçambique é mais lento, pois reflete o sofrimento dos negros. Os demais são mais alegres, festivos, pois significam uma homenagem a Nossa Senhora do Rosário.

Para encerrar, Lourdinha brincou dizendo que, às vezes, é mal vista por ser extremamente exigente na hora de respeitar a tradição. "Tem gente erguendo mastro até em cano de PVC. Esta não é a nossa tradição. Reinado é chão, madeira e bandeira. É uma criação de Deus com a fé do homem. Meu sonho é que o Reinado tenha permanência e que a tradição de fé tenha significado para os mais novos", finalizou.

Segundo Encontro - Réplica da Capela de Nossa Senhora do Rosário, ao lado do Mercado Municipal


Nosso segundo encontro com representantes do Reinado aconteceu em frente à réplica da capela original erguida no século XIX em homenagem a Nossa Senhora do Rosário. A edificação original foi destruída por volta de 1950 para dar espaço ao Mercado Municipal (foto). A réplica ficou espremida entre o mercado e a delegacia de Polícia Civil.



Nos encontramos com dois representantes da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do bairro Vila Romana: Vicente Ferreira Andrade e Antônio Sebastião de Souza. Os dois são cunhados e herdaram a tradição dos pais, que nasceram na cidade vizinha de Perdigão. "Meu pai toda vida foi reinadeiro", disse seu Antônio. "O meu também, ele foi capitão da guarda de Moçambique", completou seu Vicente.

Seu Vicente comenta que, de certa forma, muitas irmandades estão permitindo que a tradição se perca, pois costumam misturar as funções da Guarda de Moçambique com as dos ternos. Porém, ele lembra que, nas últimas décadas, aconteceram mudanças na visão da sociedade em relação aos reinadeiros. "Antigamente, era só o povo mais velho que saía no Reinado. Hoje, tem muita criança. Lá em casa tem criança de quatro anos que gosta do Reinado", disse.

Eles lembraram que, antigamente, o Reinado era totalmente rejeitado pela igreja católica, que não reconhecia a tradição como parte da religião. Atualmente, a realização das missas congas representam a abertura que os católicos deram aos reinadeiros. "Hoje a gente considera o Frei Leonardo como um rei congo", disse seu Antônio, em referência ao frei que comanda a já tradicional celebração. "Antes, todo mundo misturava reinado com macumba, achava que era a mesma coisa", recordou.



"A minha vontade é que os mais novos continuem com a tradição", comentou seu Vicente. Ao final da conversa, apareceu Guilherme, um jovem capitão da guarda de Moçambique. Muito religioso, ele comentou que desde os sete anos dança o reinado, como forma de mostrar sua fé em Nossa Senhora do Rosário.

O conhecimento registrado neste dia de descobertas servirá de base para a elaboração de um projeto que, como percebe-se, dará muito pano pra manga. É esperar para ver.

Texto: Andressa Gonçalves e Paulo Morais. Fotos: Paulo Morais.