terça-feira, 16 de março de 2010
Imperialismo travestido de sétima arte
É evidente que, por trás das telas, há um jogo de interesses políticos, militares, imperialistas e colonialistas. Os norte-americanos sabem muito bem que, detendo o monopólio da distribuição de filmes, como fazem atualmente, conseguem controlar praticamente tudo o que se vê em qualquer país do mundo. Assim, constroem contextos, criam modismos, erguem mitos, fortalecem opiniões. Nos fazem enxergar o mundo pelos olhos deles.
O ex-secretário da Identidade e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Sérgio Mamberti, sempre comenta em suas palestras a relutância dos Estados Unidos em aceitar, nas discussões da Unesco, o desejo dos diversos países de aprovar medidas para a proteção e promoção da diversidade cultural. Não é à toa. Enquanto o mundo enxerga a invasão cultural do cinema norte-americano como uma afronta à soberania cultural dos países, os Estados Unidos defendem que filmes são produtos como qualquer outro, e sua comercialização deve ser gerida pelas regras do livre comércio. Pura balela, claro.
A influência política do cinema hollywoodiano é o tema central do documentário CTRL-V :: Video Control, dirigido por Leonardo Brant, do Cultura e Mercado. Com diversas entrevistas envolvendo estudiosos do tema na América Latina e nos Estados Unidos, o vídeo amarra de forma redonda e precisa as táticas dos estúdios e do governo estadunidense para garantir os meios de controlar o mercado mundial de cinema, exercendo assim seu poder imperialista. Além de esmagarem as produções locais, os filmes de Hollywood levam a outros países visões unilaterais que explicam guerras, intolerâncias, consumismos, ideologias.
Este vídeo é para assistir e pensar.
Ctrl-V::VideoControl - PARTE 1 (PT) from Ctrl-V::VideoControl on Vimeo.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Atlântico Negro - Na rota dos Orixás, dirigido por Renato Barbieri
Comentamos sobre o Museu da Oralidade, que, a propósito, foi aprovado na semana passada pelo edital de Pontos de Cultura. Até então ainda não tínhamos a certeza da aprovação, apenas a expectativa. Começamos a explicar o que pretendemos com a proposta de criar uma rede social onde cada usuário cadastrado poderá registrar a memória da comunidade onde está inserido. A conversa foi fluindo e comentamos sobre a ideia de que o registro da oralidade é algo muito além da simples escrita de histórias de vida individuais e desconexas que se fundem num arquivo aberto.
A proposta é tentarmos identificar, por meio de registros semelhantes ao que fizemos em Luminárias, informações que nos levem a uma percepção de coletividade, ao sentimento de pertencimento a uma coisa mais abrangente, dentro das diversas formas de expressão cultural que conhecemos ou que ainda desconhecemos. Nesse ponto, a oralidade não se reduz às histórias de vida, mas à significação à qual o registro da memória das pessoas nos conduz dentro da nossa realidade.
Num país formado expressivamente pela tradição oral, esse tipo de registro é mais que fundamental. Tentar compreender as expressões culturais que se mantêm pela oralidade é tentar compreender a história de um país que foi inventada em cartas enviadas pelos colonizadores para Portugal. Uma guarda de Moçambique de uma irmandade de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito que resiste há duzentos anos não tem manual de instruções. A significação daquela expressão cultural é repassada de geração em geração, numa forma de transmissão dinâmica em que cada um põe um pouco da sua criatividade em prol da causa maior.
As formas de registro que a modernidade nos traz podem (e devem) ser usadas para manter vivos esses signos. Não que, para isso, precisamos manter as tradições intactas. A cultura é dinâmica, o patrimônio imaterial se modifica a cada geração que dele se apropria. A melhor forma de preservá-lo é, então, permitir a sua recriação das mais variadas formas. O meio digital é um deles. E, por meio dele, outras formas de recriação podem ser estabelecidas. Eis o copyleft, o Creative Commons, a diversidade cultural em ação.
Toda essa reflexão que compartilho vem causando uma certa turbulência, extremamente positiva, na forma como encaro os projetos que tento realizar. Tanto que começo a escrever uma coisa e quando vejo, aquilo que pensava no começo já foi parar em outro canto. Então, voltemos ao que nos trouxe aqui. O que eu gostaria de comentar neste texto é o documentário Atlântico Negro - Na Rota dos Orixás, dirigido por Renato Barbieri. O documentário nos mostra a relação entre a cultura de comunidades da Bahia, do Maranhão e do atual Benin.
Esta relação se construiu em meio à loucura que foi a colonização do Brasil. O tráfico de escravos, como muito bem relatou Ana Maria em Um Defeito de Cor, trouxe de algumas comunidades africanas uma leva de conhecimentos, práticas, formas de agir, saberes e fazeres. No solo brasileiro, essas tradições se confundiram com costumes portugueses e indígenas. E temos que deixar bem claro que não havia uma cultura indígena única. Eram vários povos que habitavam o solo brasileiro, que os portugueses fundiram numa coisa só, sob alcunhas como tupis, tupinambás ou guaranis, mas que, na essência, traziam uma complexidade gigantesca de formas de expressão.
Acontece que, aos olhos dos europeus, tudo aquilo se resumia a costumes selvagens, passíveis de domesticação. Visão que inclusive prevaleceu após a simulação de independência que tivemos por aqui, como fica visível, por exemplo, na obra de Couto de Magalhães. Da mesma forma, os costumes africanos se fundiram aos olhos dos europeus em uma coisa só. Nossos colonizadores não admitiam a diversidade das expressões culturais dos pretos selvagens.
Até hoje essa visão ainda persiste, pois enquanto citamos portugueses, ingleses, franceses, japoneses, americanos, russos, chineses, etc, continuamos nos referindo a termos genéricos, como África ou índios. Quando fazemos isso, reduzimos a dimensão das várias áfricas ou os vários povos indígenas que existem, em sua diversidade de línguas (que insistimos em considerar dialetos), etnias ou nações, sob um olhar ainda colonialista.
Pois bem. O que o documentário de Barbieri retrata é um pouco dessa fusão que aconteceu no solo brasileiro. Dos diversos grupos africanos que chegaram ao Brasil pelos navios negreiros, muitos que constituíram outras formas de pensar, de agir, de ver o mundo acabaram voltando às terras de origem. Assim, levaram para lá diversos costumes, que vão desde o sincretismo católico-candomblé, o bumba-meu-boi e cantigas de roda. Alguns outros grupos permaneceram em solo nacional. No Maranhão, por exemplo, há terreiros de candomblé que ainda são um pedaço da cultura viva do Daomé.
Barbieri e sua equipe fizeram a conexão entre esses dois mundos, separados pelo oceano atlântico, mas ainda unidos pelos orixás. Levaram o depoimento dos maranhenses para o Benin, e trouxeram de lá relatos dos descendentes de escravos brasileiros que expressaram em solo africano um pouco do caldeirão cultural que é o Brasil. Eis o copyleft, o Creative Commons, a diversidade cultural em ação.
'Celeste Brandão, o traço da memória', de Adriano Luiz Reis
A conferência era divida em grupos de trabalho (GT's). No primeiro dia, participamos do GT de memória e patrimônio. Estávamos reunidos com a professora Batistina Corgozinho, da Fundação Educacional de Divinópolis (Funedi/Uemg), o presidente do Conselho do Patrimônio Histórico, Ruy Pacheco, representantes do museu histórico da cidade e dois artistas locais. Os assuntos convergiram para a necessidade de um plano museológico no município, que defina o papel do museu da Praça da Catedral e que determine a implantação de outros centros de memória (ferroviária e artística, por exemplo).
Foi neste contexto que ficamos conhecendo o produtor Adriano Luiz Reis. Nós participamos da roda de conversa do GT explicando sobre o movimento de valorização da tradição oral, do qual fazemos parte junto com outras instituições como o Museu da Pessoa e o Grãos de Luz e Griô. Nesse meio tempo, Adriano comenta sobre a dificuldade que encontra em exibir o vídeo que produziu sobre a artista plástica divinopolitana Celeste Brandão. Ele falou sobre os donos das salas de cinema locais, que aderiram à moda multiplex dos shopping centers e não procuram interagir com a produção local.
No penúltimo dia da conferência, Adriano nos entregou o DVD com o documentário, batizado de 'Celeste Brandão - O traço da memória'. O vídeo intercala imagens das telas de Celeste com depoimentos da memória da artista, fotografias e vídeos históricos de Divinópolis e comentários do convidado Osvaldo André de Melo. Todas as sequências nos levam a observar a intrínseca relação entre o traço da pintora e a memória da cidade. As guardas de reinado, o footing, a igreja da Catedral, a estação ferroviária, as quermesses no Santuário, as brincadeiras de rua, o cinema... todas essas lembranças de uma cidade que a modernidade ressignificou estão retratadas na obra de Celeste.
A urbanização da cidade é um tema que o documentário nos faz refletir. Eu me lembro muito bem de quando eu ainda morava onde nasci, no comecinho da Rua Pernambuco, perto do Esplanada e do Porto Velho, quando a igreja Universal ainda era Cine Arte Ideal e todos os pais de alunos do São José eram funcionários da Rede, que já não existe mais. O vídeo de Adriano Reis vai fundo nesta questão. Mostra o que a cidade deixou para trás com a modernidade que provocou, dentre outras coisas, a verticalização do Centro da cidade.
Não que a modernização seja ruim. É evidente que ela tem vários aspectos positivos. O que o vídeo, como toda obra de retratação da memória, provoca é o senso crítico sobre o que aconteceu e acontece. Fica, então, o convite a esta reflexão.
Fotos: Divinópolis antiga e quadro de Celeste Brandão: acervo Lomiranda. Divinópolis atual: daqui.

