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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Pequenas Memórias #1


Seu Otacílio - bananeiro

“Meu nome é Otacílio Correia da Silva. Trabalho desde os 12 anos, eu toco enxada, graças a Deus. Fui criado na roça, tenho o maior sentimento de ter perdido meu pai e minha mãe muito novo.
Tô com 77 anos, tenho 7 filhos, tudo criado. Minha cabeça não dá pra ficar em casa desde que minha mulher morreu. A vida é dura.
Aquele outro senhor que vendia banana foi embora, acho que não volta mais, tava muito doente, foi embora pra São Paulo de ambulância, o coitado.
Eu vendo bananas, eu capino uma horta, eu bato enxada. Faço de um tudo, eu só não mato e roubo, conforme as leis de Deus. Eu gosto de andar no meu direito.”

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Colônia São Francisco de Assis, em Bambuí, se prepara para registro da memória oral

Há exatamente uma semana, estivemos em Bambuí, no Oeste de Minas Gerais, para apresentação de uma oficina de registro de Memória Oral. O local foi a Casa de Saúde São Francisco de Assis, que também abrigou uma colônia para portadores de hanseníase, a exemplo da Colônia Santa Fé, em Três Corações. O objetivo foi instruir funcionários da casa para organizarem um mutirão de registro de memória dos moradores, a exemplo do que aconteceu no Sul de Minas em 2008.



Na terça-feira, chegamos e pudemos conhecer um pouco do espaço. Tem várias semelhanças com a Casa de Saúde de Três Corações: o local tem clima agradável, é silencioso, cercado de muita vegetação e fica na zona rural do município. Há a rua onde moravam os hansenianos (acima), que, apesar de terem arquitetura absolutamente modular (todas as casas têm o mesmo desenho), chama a atenção pela conservação das fachadas, pintadas cada uma de uma cor.



Os pavilhões (acima) estão no mesmo estilo de Três Corações: em sua maioria, abandonados, com os telhados caídos, vidros quebrados e espaços amplos vazios. Dos mais de 15 pavilhões no local, apenas quatro ou cinco foram restaurados pela Fundação Hospitalar e ainda funcionam como enfermaria ou moradia. O mais bem restaurado é onde se instalou uma escola de ensino fundamental. Ali netos de ex-hansenianos que ainda moram no local estudam (abaixo), assim como outras crianças e adolescentes da zona rural. Foi uma boa alternativa para revitalização do espaço.




A grande diferença entre São Francisco de Assis e Santa Fé está numa outra parte da ex-colônia, conhecida pelos funcionários como Vila Nova. Ali moram descendentes dos antigos moradores da colônia, que fundaram um bairro aparentemente mais bem-estrurado do que muitos lugares que conhecemos em cidades do interior. Pode-se dizer que ali se fundou um distrito da cidade, com  campo de futebol, quadra de esportes, lan-houses, igrejas católica e evangélica, centro espírita, pontos de ônibus, antenas parabólicas nas casas, meninos jogando bola na rua e até passeando de mini-buggy (acima).


Até onde pude me informar, o local passa por uma questão controversa que envolve inclusive muita especulação política. É que as casas estão instaladas em áreas do governo e não pagam impostos nem mesmo contas de luz e água. Existe uma discussão em torno de ceder as escrituras das casas aos moradores, até mesmo como um direito de cidadania em virtude do que as famílias de hansenianos sofreram no passado.

Porém, o processo de repasse das casas para os moradores esbarra numa questão impopular: se transferidos os imóveis, seus donos passarão a arcar com as despesas. Embora seja um direito das pessoas, este processo terá um preço para elas. Para os políticos, fica o preço eleitoral da medida. Esta é apenas uma das questões políticas que envolvem as ex-colônias. Outras são o tombamento histórico dos prédios, que, por questões óbvias, deveria vir agregado a um projeto de revitalização. Porém, pouco se fala ou se propõem ações concretas para ressignificar os lugares. Fica parecendo que, para o poder público (incluindo prefeituras, Estado e União), é melhor deixar a coisa ruir por completo do que reconstruí-los como espaços de cidadania.

Da parte da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG), há a preocupação em encontrar parcerias com a sociedade civil para dar novos usos às ex-colônias, como foco no meio ambiente e na memória. Os espaços das ex-colônias tem todas as características para funcionarem como centros de formação e conscientização nestas duas áreas. A sociedade civil poderia atuar entrando nestes locais e oferecendo aquilo que, pelo peso do Estado e seus conhecidos entraves burocráticos, fica difícil acreditar que sairá do papel sem que a comunidade se mobilize.

É aí que a Viraminas e o Museu da Oralidade entram na história. O projeto do Mutirão de Histórias de Vida, em que registramos a memória oral de 17 moradores de Santa Fé, vai ser o modelo adotado pela FHEMIG para incentivar a releitura da memória das Casas de Saúde. A partir de funcionários e voluntários, levanta-se a memória dos ex-hansenianos, reconhece-se valores e anseios da comunidade e pensam-se alternativas para a ressignificação local.



A oficina, realizada na quarta-feira, veio para mobilizar os funcionários. E o resultado foi positivo. Bastante interessados na proposta e com vontade de sair a campo, vários deles estiveram na apresentação. O foco foi a metodologia de história oral: conceitos de oralidade, como elaborar um projeto de memória, implicações sociais do registro, mobilização e ação comunitária.

Em junho, a segunda ex-colônia a ser visitada pelo Museu da Oralidade será a Padre Damião, em Ubá, na Zona da Mata mineira.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Escola de Saúde Pública recebe Mutirão de Histórias de Vida


Descobrindo palavras que formam pessoas: histórias de vida”. Esse é o tema da exposição que está aberta para visitação, até o próximo dia 17, na Escola de Saúde Saúde Pública do Estado de Minas Gerais (ESP-MG). O enfoque da exposição é a história de vida dos moradores da Casa de Saúde Santa Fé, em Três Corações, sul de Minas. O evento foi aberto no final da tarde de ontem (10), com a palestra “Revitalização das Casas de Saúde”, proferida pelo coordenador nacional do Movimento de Reintegração do Hansenianos (Morhan), Arthur Custódio.

Revitalizar a ex-colônia de hansenianos e voltar o olhar não para a doença e sim para saúde foi o objetivo da palestra, explicou Custódio. “Para falar de qualquer doença, deve-se discutir o contexto social, cultural e político. Vim aqui para falar da hanseníase enfocando as pessoas e não a doença que essas pessoas possuem”.

O encontro contou com a presença da diretora-geral da ESP-MG, Tammy Claret Monteiro; do assessor do Complexo de Reabilitação Física e Cuidado ao Idoso, Thiago Possas, que representou a direção da Fundação Hospitalar de Minas Gerais (Fhemig-MG) ; do coordenador nacional do Movimento de Reintegração do Hansenianos (Morhan), Arthur Custódio; do membro da diretoria da Viraminas, Paulo de Morais; e do curador da exposição, Sidney do Campo.

Ao falar da exposição, a diretora-geral da ESP-MG, Tammy Claret Monteiro, relembrou a sua relação com a Casa de Saúde Santa Fé. “Eu vi a vida daquelas pessoas se misturarem a minha quando fui convida, há alguns anos, para realizar a restruturação administrativa da Casa”, contou.

A iniciativa é resultado de um projeto da Diretoria de Ensino e Desenvolvimento de Pessoas da Fhemig, cujo objetivo é revitalizar e resignificar as ex-colônias de hanseníase de Minas.

Contar histórias particulares por um olhar que não seja somente o da doença foi uma das motivações para a realização da iniciativa, é o que explica o curador da exposição, Sidney do Carmo. “A exposição convida o público para descobrir um pouco da história desses personagens, que por muitos anos vivem na Casa de Saúde Santa Fé, uma das ex-colônias de hanseníase da Fhemig”.

Segundo a funcionária da Superintendência de Educação da ESP-MG Maria de Fátima Malveia Carneiro, a palestra mexeu com sua sensibilidade. “Entrei no auditório curiosa por não saber muito sobre a hanseníase, mas quando saí, saí emocionada e com vontade de aderir ao movimento, e vou fazer isso”, disse entusiasmada.

Hanseníase no Brasil

Segundo dados do Ministério da Saúde (MS), o número de novos casos de hanseníase no Brasil caiu 23% entre 2003 e 2008 e a atenção básica é apontada como um dos principais motivos para a queda de incidência da doença. Em 2003, o total de notificações foi de 51.941. Já em 2008, o total caiu para 39.992. O recuo foi ainda mais significativo na população com menos de 15 anos, com índice de queda de 28,6%, que contava 4.181, em 2003, contra 2.910, em 2008. O MS aponta, ainda, que a situação epidemiológica da doença indica que os novos casos estão concentrados em 1.173 municípios brasileiros, principalmente nas regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste, que registraram 53,5% dos novos casos detectados entre 2005 e 2007.
A hanseníase é uma doença infecciosa que tem cura e o tratamento é gratuito pela rede pública de saúde. Ela acomete a pele e os nervos dos braços, mãos, pernas, pés, rosto, orelhas, olhos e nariz. O tempo entre o contágio e o aparecimento dos sintomas é longo. Pode variar de 2 a até mais de 10 anos. A doença causa deformidades físicas, que podem ser evitadas com o diagnóstico no início da doença e o tratamento imediato.

Autora: Daniela Venâncio (ESP-MG)Link


terça-feira, 14 de julho de 2009

Viraminas é Ponto de Cultura


A Viraminas foi aprovada no edital Pontos de Cultura, da Secretaria de Estado de Cultura e do Ministério da Cultura. O resultado, divulgado na última semana, contemplou 100 iniciativas de todo o Estado, com destaque para a região Norte e os vales do Jequitinhonha e Mucuri. No Sul de Minas, foram contempladas cinco iniciativas.

O projeto da Viraminas foi batizado de Museu da Oralidade. É uma iniciativa de ampliação dos trabalhos que a entidade já vinha realizando desde fevereiro de 2007, quando começou o registro da Memória Oral de Luminárias. Naquela época, eu e Andressa começamos, com apoio do então secretário de cultura da cidade, Lincoln, a gravar os causos dos idosos no meio da rua. Ainda com um gravador de fita cassete (não conhecíamos os pen-drives do Shopping Oi!), saímos catando os velhinhos e ouvindo eles contarem do trabalho na roça, do saci, das broas de fubá, das cantigas de roda, do professor Fábregas, e de mais um monte de coisas que vocês podem conhecer baixando o livro ali do lado. Com o tempo chegou ao projeto o fotógrafo Sansão Bogarim, que, com seu olhar clínico, deu outra cara ao projeto. Eu nem vou citar por quê, prefiro que baixem o PDF e acompanhem.

O Memórias Iluminadas ainda não terminou. O projeto prevê ainda a edição de uma coleção de cartilhas, financiadas pelo Fundo Estadual de Cultura, do Governo de Minas. Depois de Luminárias, começamos outros projetos, desta vez já mais amadurecidos. Veio o Memória da Educação, com registro de 11 professores idosos da rede pública de Três Corações, o Mutirão de Histórias de Vida, em que gravamos memórias dos moradores de Santa Fé, e a Expedição do Patrimônio Vivo.

Todos esses pequenos projetos começaram a formar um acervo que, pela estrutura atual da nossa entidade, está ficando difícil de manter. Agora, nossa expectativa é de que o Ponto de Cultura facilite um pouco as coisas. Vamos formar uma rede social colaborativa, onde não só a Viraminas, mas qualquer pessoa poderá colaborar registrando a memória de sua rua, seu bairro ou sua cidade.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Atlântico Negro - Na rota dos Orixás, dirigido por Renato Barbieri

Na última oportunidade em que fomos a Belo Horizonte, aproveitamos para rever minha cunhada Ana Maria Gonçalves, escritora do romance Um Defeito de Cor, que narra em primeira pessoa a memória daquela que pode ter sido a mãe do poeta mulato Luís Gama. Para quem não conhece, pode se informar aqui, aqui, aqui e aqui. Durante a conversa, com algumas cervejas começando a subir à cabeça, falamos um pouco sobre os projetos que pipocam na nossa cabeça.

Comentamos sobre o Museu da Oralidade, que, a propósito, foi aprovado na semana passada pelo edital de Pontos de Cultura. Até então ainda não tínhamos a certeza da aprovação, apenas a expectativa. Começamos a explicar o que pretendemos com a proposta de criar uma rede social onde cada usuário cadastrado poderá registrar a memória da comunidade onde está inserido. A conversa foi fluindo e comentamos sobre a ideia de que o registro da oralidade é algo muito além da simples escrita de histórias de vida individuais e desconexas que se fundem num arquivo aberto.

A proposta é tentarmos identificar, por meio de registros semelhantes ao que fizemos em Luminárias, informações que nos levem a uma percepção de coletividade, ao sentimento de pertencimento a uma coisa mais abrangente, dentro das diversas formas de expressão cultural que conhecemos ou que ainda desconhecemos. Nesse ponto, a oralidade não se reduz às histórias de vida, mas à significação à qual o registro da memória das pessoas nos conduz dentro da nossa realidade.

Num país formado expressivamente pela tradição oral, esse tipo de registro é mais que fundamental. Tentar compreender as expressões culturais que se mantêm pela oralidade é tentar compreender a história de um país que foi inventada em cartas enviadas pelos colonizadores para Portugal. Uma guarda de Moçambique de uma irmandade de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito que resiste há duzentos anos não tem manual de instruções. A significação daquela expressão cultural é repassada de geração em geração, numa forma de transmissão dinâmica em que cada um põe um pouco da sua criatividade em prol da causa maior.
As formas de registro que a modernidade nos traz podem (e devem) ser usadas para manter vivos esses signos. Não que, para isso, precisamos manter as tradições intactas. A cultura é dinâmica, o patrimônio imaterial se modifica a cada geração que dele se apropria. A melhor forma de preservá-lo é, então, permitir a sua recriação das mais variadas formas. O meio digital é um deles. E, por meio dele, outras formas de recriação podem ser estabelecidas. Eis o copyleft, o Creative Commons, a diversidade cultural em ação.


Toda essa reflexão que compartilho vem causando uma certa turbulência, extremamente positiva, na forma como encaro os projetos que tento realizar. Tanto que começo a escrever uma coisa e quando vejo, aquilo que pensava no começo já foi parar em outro canto. Então, voltemos ao que nos trouxe aqui. O que eu gostaria de comentar neste texto é o documentário Atlântico Negro - Na Rota dos Orixás, dirigido por Renato Barbieri. O documentário nos mostra a relação entre a cultura de comunidades da Bahia, do Maranhão e do atual Benin.

Esta relação se construiu em meio à loucura que foi a colonização do Brasil. O tráfico de escravos, como muito bem relatou Ana Maria em Um Defeito de Cor, trouxe de algumas comunidades africanas uma leva de conhecimentos, práticas, formas de agir, saberes e fazeres. No solo brasileiro, essas tradições se confundiram com costumes portugueses e indígenas. E temos que deixar bem claro que não havia uma cultura indígena única. Eram vários povos que habitavam o solo brasileiro, que os portugueses fundiram numa coisa só, sob alcunhas como tupis, tupinambás ou guaranis, mas que, na essência, traziam uma complexidade gigantesca de formas de expressão.

Acontece que, aos olhos dos europeus, tudo aquilo se resumia a costumes selvagens, passíveis de domesticação. Visão que inclusive prevaleceu após a simulação de independência que tivemos por aqui, como fica visível, por exemplo, na obra de Couto de Magalhães. Da mesma forma, os costumes africanos se fundiram aos olhos dos europeus em uma coisa só. Nossos colonizadores não admitiam a diversidade das expressões culturais dos pretos selvagens.

Até hoje essa visão ainda persiste, pois enquanto citamos portugueses, ingleses, franceses, japoneses, americanos, russos, chineses, etc, continuamos nos referindo a termos genéricos, como África ou índios. Quando fazemos isso, reduzimos a dimensão das várias áfricas ou os vários povos indígenas que existem, em sua diversidade de línguas (que insistimos em considerar dialetos), etnias ou nações, sob um olhar ainda colonialista.

Pois bem. O que o documentário de Barbieri retrata é um pouco dessa fusão que aconteceu no solo brasileiro. Dos diversos grupos africanos que chegaram ao Brasil pelos navios negreiros, muitos que constituíram outras formas de pensar, de agir, de ver o mundo acabaram voltando às terras de origem. Assim, levaram para lá diversos costumes, que vão desde o sincretismo católico-candomblé, o bumba-meu-boi e cantigas de roda. Alguns outros grupos permaneceram em solo nacional. No Maranhão, por exemplo, há terreiros de candomblé que ainda são um pedaço da cultura viva do Daomé.

Barbieri e sua equipe fizeram a conexão entre esses dois mundos, separados pelo oceano atlântico, mas ainda unidos pelos orixás. Levaram o depoimento dos maranhenses para o Benin, e trouxeram de lá relatos dos descendentes de escravos brasileiros que expressaram em solo africano um pouco do caldeirão cultural que é o Brasil. Eis o copyleft, o Creative Commons, a diversidade cultural em ação.

'Celeste Brandão, o traço da memória', de Adriano Luiz Reis


No final de maio deste ano aconteceu, em Divinópolis, a Conferência Municipal de Cultura. O propósito do encontro foi debater e tomar decisões a respeito do futuro da política pública de Cultura da cidade onde eu nasci. Principalmente para mim, que estou afastado do convívio com minha terra natal há mais de três anos, foi uma experiência ímpar. Mais do que discutir o tema que é meu ganha-pão (a gestão cultural), a Conferência foi um espaço de socialização de idéias, pensamentos, atitudes e pessoas. Algumas dessas pessoas, inclusive, se apresentaram com aquela vontade de produzir cultura que só quem vive da arte sabe como é.

A conferência era divida em grupos de trabalho (GT's). No primeiro dia, participamos do GT de memória e patrimônio. Estávamos reunidos com a professora Batistina Corgozinho, da Fundação Educacional de Divinópolis (Funedi/Uemg), o presidente do Conselho do Patrimônio Histórico, Ruy Pacheco, representantes do museu histórico da cidade e dois artistas locais. Os assuntos convergiram para a necessidade de um plano museológico no município, que defina o papel do museu da Praça da Catedral e que determine a implantação de outros centros de memória (ferroviária e artística, por exemplo).


Foi neste contexto que ficamos conhecendo o produtor Adriano Luiz Reis. Nós participamos da roda de conversa do GT explicando sobre o movimento de valorização da tradição oral, do qual fazemos parte junto com outras instituições como o Museu da Pessoa e o Grãos de Luz e Griô. Nesse meio tempo, Adriano comenta sobre a dificuldade que encontra em exibir o vídeo que produziu sobre a artista plástica divinopolitana Celeste Brandão. Ele falou sobre os donos das salas de cinema locais, que aderiram à moda multiplex dos shopping centers e não procuram interagir com a produção local.


No penúltimo dia da conferência, Adriano nos entregou o DVD com o documentário, batizado de 'Celeste Brandão - O traço da memória'. O vídeo intercala imagens das telas de Celeste com depoimentos da memória da artista, fotografias e vídeos históricos de Divinópolis e comentários do convidado Osvaldo André de Melo. Todas as sequências nos levam a observar a intrínseca relação entre o traço da pintora e a memória da cidade. As guardas de reinado, o footing, a igreja da Catedral, a estação ferroviária, as quermesses no Santuário, as brincadeiras de rua, o cinema... todas essas lembranças de uma cidade que a modernidade ressignificou estão retratadas na obra de Celeste.



A urbanização da cidade é um tema que o documentário nos faz refletir. Eu me lembro muito bem de quando eu ainda morava onde nasci, no comecinho da Rua Pernambuco, perto do Esplanada e do Porto Velho, quando a igreja Universal ainda era Cine Arte Ideal e todos os pais de alunos do São José eram funcionários da Rede, que já não existe mais. O vídeo de Adriano Reis vai fundo nesta questão. Mostra o que a cidade deixou para trás com a modernidade que provocou, dentre outras coisas, a verticalização do Centro da cidade.


Não que a modernização seja ruim. É evidente que ela tem vários aspectos positivos. O que o vídeo, como toda obra de retratação da memória, provoca é o senso crítico sobre o que aconteceu e acontece. Fica, então, o convite a esta reflexão.

Fotos: Divinópolis antiga e quadro de Celeste Brandão: acervo Lomiranda. Divinópolis atual: daqui.





quinta-feira, 14 de maio de 2009

José Batista da Cunha - Comunidade da Flora - Três Corações (MG)

Eu morava no município de Campanha, mas diz a minha mãe e meu pai que eu vim pra Três Corações com três ou quatro meses. Eu nasci em 17 de julho de 1932, vou fazer 77 anos agora em julho. Meu pai chamava João Batista Cunha, nós era 15 irmãos, agora só tem sete. Morreram seis muito pequenininho. Eu fui o segundo de todos, minha mãe chamava Maria Cândida Correia.

Quando eu nasci, logo meu pai mudou aqui pra Fazenda Santa Emília. Lembro da casinha, era de pau-a-pique, de chão. Varria com vassoura de alecrim, assa-peixe. Colchão pra você dormir era de palha de milho. Mas as coisa era melhor do que hoje.

Meu pai trabalhava em fazenda, era trabalhador de roça. Lá era lavoura de café, plantava um pouco de milho, arroz, feijão. Hoje o pobre não planta mais, só quer saber de café e leite. As coisa antigamente tinha mais vitamina, hoje usa muito adubo. Óleo de fazer comida não existia, era gordura de porco. Eu uso gordura de porco até hoje. Eu como carne de porco, toicinho inclusive, até hoje. Eu não gosto de comida com óleo.

Comecei a trabalhar na roça quando eu tinha oito anos. Oito anos eu já punha a enxadinha no ombro e ia ajudar meu pai a plantar feijão, milho. Batia arroz, carregava água como daqui lá na estação, não tinha água dentro de casa. Carregava feixe de lenha nas costas, mas tinha carro de boi. Às vezes puxava lenha no carro de boi. Catava lenha seca no mato, não cortava verde, catava seca. Agora, hoje não pode cortar um pau mais, diz que tava acabando com as águas. Não pode cortar lenha no mato, principalmente beira d'água. Hoje não pode construir uma casa com menos de 50 metros da beira do rio.

Trabalhei no retiro 34 anos, retiro de leite. Não é igual hoje, hoje vocês pode ir vestido do jeito que ‘cês tá aí que não suja a roupa. Ah, nós levantava cedo, era quatro e meia, cinco horas, já tava de pé. Depois eu passei a mexer com carro de boi, essas coisas. Sete horas, nós ‘tava lá naquela igreja na Cotia, conhece a aquela igreja? É de São Sebastião. A gente tocava o carro de boi aqui, ia por fora, ia no São Bentinho, passava na Abadia, dobrava no Santo Afonso, carregava o carro lá onde é aquela Igreja no Cristo e levava a lenha. Dava cinco viagens por semana, chegava de tarde lá, carregava o carro e pousava na fazenda que nós trabalhava.

* * *

Tem muito barco meu aí na beira do rio. Aprendi a fazer sozinho e Deus. Ninguém nunca me ensinou! O primeiro barco que eu fiz foi aqui na Flora, eu tinha uns 50 anos. Já fiz muita casa, carro de boi, canga, forro de casa de bambu, tudo isso eu fiz. Desde pequeno eu já era inclinado a fazer essas coisas, meu pai nunca me ensinou a pegar numa enxada, aprendi sozinho e Deus. Aparador pra ‘panhar café, não sei se você já viu. Amansar boi de carro, fiz isso muito tempo.

Fazia os barco com tábua de canoa, o bom é maçaranduba ou cedro. Levava três dia pra fazer uma canoa. Já fiz umas quarenta canoa. Já fiz canoa que foi pro rio Grande, fiz canoa que foi pra Varginha, pra Santa Rita do Sapucaí. Tem muita ferramenta que eu uso: formão, serrote, serra elétrica, martelo, enxó. Você conhece Três Corações? Conhece ali no Bonésio? Já comprei muita ferramenta ali: machado, foice, formão, serrote.

Comecei a mexer com coisa de bambu quando eu tinha uns 19, 20 anos. Ninguém me ensinou. Eu tinha dois tio que aprenderam a tocar violino debaixo de um bambuzal. Quando eu comecei a fazer balaio, fazia aquele balainho pra galinha botar ovo. Chegava em casa, pegava aquelas taquarinha e fazia. Aprendi só vendo. Aí comecei a fazer balaio pra mexer com milho. Meu pai fazia aparador e eu também tinha um tio meu que fazia. Eu aprendi só de ver como é que faz. Meu pai falava:

- Hoje você vai com a gente pra fazer balaio.

- Não vou, porque não sei fazer.

- Ninguém nasce sabendo, você vai sim!

Aí foi eu e meu pai pro meio do mato de taquara. Eu não sabia, quando chegou três horas da tarde eu já tinha feito dois sozinho. Eu não pedia explicação, basta querer fazer uma coisa que você faz. Pra isso precisa de facão e foice para cortar a taquara e martelo pra pregar.

Eu morava na Fazenda Santa Marta quando eu casei. Eu tava com 24 anos, a Elvira tava quase que com a mesma idade que eu. Filho nosso é cinco, ela não teve nenhum filho no hospital, era com parteira. Os filho dela nunca chupou mamadeira, nem nada, foi criado no leite dela mesmo. Parteira, tinha uma tal de Bilizara, tinha uma tal de Maria Isadora, tinha essa Hortência. Eu andava dez quilômetro pra buscar a parteira. Tinha que fazer 40 dias de resguardo, a Elvira comia muito era frango, todo dia, 40 dias seguidos.

Faz 52 anos que eu casei. Depois de lá eu vim pra cá, comprei um ranchinho. Faz 34 anos que eu vim pra cá. Aqui eu trabalhei também pros fazendeiros, fazendo serviço. Meu pai já trabalhava como carpinteiro, assentando porta pros outros, fazendo forro de casa pros outros. Eu até hoje, só tive dois patrão na minha vida, o terceiro ‘tá sendo o Lula. Eu trabalhei 18 anos numa fazenda e 21 na outra, na Fazenda Santa Marta e na Fazenda Santa Emília.

Uma coisa que eu fazia e hoje eu não faço mais é amansar cavalo. Nunca caí, graças a Deus. Ih! Já amansei muito cavalo e égua. Dá muito trabalho porque o bicho é bravo. O bicho tem boca é pra comer, pra conseguir colocar um freio na boca do bicho, se você quiser parar ele, você não para. Vai uns três ou quatro meses para entregar o bicho manso. Eu pegava o trem e colocava lá no pasto, laçava o bicho sozinho. É muito difícil amansar um bicho que nunca viu um arreio na vida, nunca viu gente, pra bem dizer.

* * *

Eu trabalhei naquela balsa dez anos. Nem nascido eu era e já tinha essa balsa. Agora quem tá na balsa é meu filho. Primeiramente a balsa era de madeira, tábua. Ela era tocada no bambu, eu cheguei a tocar ela com bambu. Passava até caminhão cheio de lata de leite. O cabo de aço é o mesmo até hoje. O rio não é muito fundo, a parte da lá é mais funda um pouquinho, deve ter uns três metro. No meio do rio é raso.

Já pesquei muitas vezes. Já peguei muito piaba, mandi... dourado eu nunca peguei não. Ah! Antigamente tinha muito mais, ih! Hoje o povo põe armadilha e não pega. Eu não pesco de armadilha, armadilha minha é anzol. A rede acabou com os peixe.

O rio mudou muito, esse negócio de tirar areia estragou bem o rio. Derrubou muito mato na beirada, tirava a areia por baixo. Toda a vida o rio chamou Rio Verde, de agora pra frente a água fica verdinha, acaba as chuvas e a água fica limpa.

A Festa de São Pedro é muito animada, é festa junina. Antigamente, na Festa de São Pedro, a procissão descia de canoa lá de cima soltando foguete. Era umas dez canoa que descia, tudo iluminada, enfeitada. Era no dia de São Pedro, dia 29. Era 3 pessoas em cada canoa. Os barco descia lá de cima, na curva do rio, e vinha até aqui na balsa. O padre pegava o santo aqui. Demorava meia hora até aqui. Agora, aqui pra baixo tem uma cachoeira, tem correnteza, já não dá pra descer de canoa, tem muita pedra, ali é perigoso da canoa virar e pra subir ali não é qualquer um.

As draga tirava o areia da beira do rio, ia cavucando por baixo, era quando as árvores da beira caía. Hoje a florestal não deixa mais ‘cê cortar um pau na beira do rio. Se o cara da florestal encontrar qualquer um de nós no caminho com uma enxada na carcunda, um facão e um cachorrinho, vai preso. De primeiro não, o caboco caçava, carregava enxadão, era aquela cachorrada. Já faz muito tempo que eu não nado no rio, já nadei muito, pra quem sabe nadar não é perigoso não. A água é pra quem sabe. Quem não sabe, tá arriscando a vida.

Assombração tem nada disso não, a assombração acabou morrendo de medo. Bicho tem: cobra, tamanduá, lobo... tem uma fazenda aqui que num dia mataram 16 cascavel.

Quando eu morava lá embaixo, antes de eu vir pra cá, nós viu um nego d'água. Era pequenininho assim, nós vimo ele. Também foi uma vez só, depois nunca mais vi. Parece uma criancinha pequena, novinha, mas pretinha. Ele apontou assim, viu por cima da água e afundou. Ele mora dentro d'água. Se pegar uma pessoa ele afunda com ela, leva pro fundo do rio, ele mata a pessoa afogada. Isso era de dia, tinha um homem que morava numa casinha, chamado seu Afonso, nós tava na porta da cozinha da casa dele. A casa dele é um ranchinho, ele morava sozinho, na beiradinha do rio. Aí nós tava sentado lá e quando vê a gente ouve um gritinho lá no meio do rio, quando nós viu ele tava em pezinho lá, aquela coisa pretinha, deu aquele gritinho e tchum! E não vi mais. Mas que tem, tem!

* * *

Já trabalhei aqui no laticínio. Antigamente eu fazia queijo minas, mussarela, queijo prato. A gente já talhava o queijo com o coalho. Minha avó fazia queijo com o bucho do tatu. Matava o tatu, tirava o buchinho dele e enchia de sal, pegava um pedacinho e colocava no leite para talhar e fazia o queijo. Os queijos de primeira era mais gostoso do que hoje. O leite era melhor, não era de gado que vivia na cocheira, o gado vivia no pasto. Hoje não, as vacas não dão leite de pasto, as vaca tudo ‘tão dando leite no curral, porque são criada na cocheira. O leite era um creme, você punha o leite numa garrafa, dava duas horas, você virava a garrafa e o leite não saia. Hoje, o leite é fraco. Minha avó punha o leite na cabaça com goiabada. Aquele leite era um creme!

Hoje ainda passa trem, mas só trem de carga. Faz dias que eu não vejo passar um trem aqui. Eu já fui a Aparecida umas sete, oito vezes de trem. A estação acabou tudo, ‘tá só uns pilar. Aqui era parada de trem de passageiro. Quando nós ia pra Aparecida de trem, nós embarcava lá em Três Corações, ia até Cruzeiro, de lá fazia baldeação e ia até Aparecida. Aqui passava o Almofadinha, tinha o Expresso, tinha o trem do meio-dia, e tinha um trem que passava às duas da tarde, acho. O das seis horas da manhã era Expresso, que ia cedo pra lá e voltava de noite. O Almofadinha era às sete horas, tinha esse nome por que os banco tinha as almofada. Os outros trens grandes tinha os bancos de madeira. Se você quisesse pagar mais caro ia no carro de primeira, aí os bancos era tudo confortável, tudo forrado, tudo branquinho. Nós ia pra Aparecida no carro de primeira porque a viagem era grande. Nós gastava o dia inteiro, era o dia inteirinho pra chegar em Aparecida. Passava no túnel, era o lugar mais feio que existia na serra, tinha que fechar os vidro tudo, levava uns 40 minutos, passava dentro do chão, lá na serra... uai tá doido! De lá pra cá, demorava mais do que daqui pra lá, daqui pra lá era um pouco de descida.

O padroeiro da igreja daqui é São Sebastião. Toda semana tem missa, reformou a igreja faz pouco tempo. Ah, Nossa Senhora! Na enchente de 2000, a água tapou esse muro. Sobrou sete casa aqui na Flora que não pegou água. Meu filho andou de canoa aqui dentro, derrubou esse muro. Em 86 teve uma enchente, mas nessa a água veio aqui na porta da cozinha, não chegou a entrar pra dentro. Tinha uma escadinha na porta da cozinha, eu acendi uma vela ali era seis horas da tarde. A água tava pegando na beira da escada, eu acendi uma vela e deixei ali. Levantei umas cinco vezes, vinha cá e olhava... Você sabe que a água não passou da vela? Tenho muita fé com Nossa Senhora, graças a Deus todo mundo aqui em casa é devoto. Quando você vê alguma coisa ruim é a primeira santa que você grita. Aqui toda semana nós reza o terço em uma casa, semana passada rezou aqui em casa, toda quarta. Toda casa que vai rezar dá aquele café, pão de queijo, bolo, broa, enche de gente. Mas é mais mulher, homem não é muito não.

Uma coisa eu falo para você, hoje ‘tá danado pra viver. A rapaziada hoje não quer saber de serviço. Não tem mais o respeito que a gente tinha com os nossos pais. Aqui em casa não, que meus filhos tão tudo aí criado. De primeiro se um pai e uma mãe tivesse conversando e o filho falasse alguma coisa, o pai só dava uma olhada assim e acabou. Hoje a maioria dos filhos não respeita pai e nem mãe. De primeiro o filho comia o que o pai e mãe dava, hoje não, ele que mandar na mãe, quer mandar no pai. Eu tenho 77 anos, meu pai nunca me deu um puxão de orelha, ele morreu com 84 anos e nunca me deu um puxão de orelha.


quarta-feira, 29 de abril de 2009

Lázaro Augusto Pereira, o Fio da Flora - Comunidade de Flora, Três Corações (MG)


Meu nome é Lázaro Augusto Pereira, mas todo mundo me chama de Fio da Flora. Tenho 73 anos, nasci aqui e me criei aqui, na Flora. Então você pode gravar que eu quero falar o que tá aqui dentro de mim.

Eu toco violão desde a idade de sete anos, eu aprendi sozinho. Meu pai me deu meu primeiro violão. Ele chamava Antônio Felipe Pereira e minha mãe, Marieta Augusta Pereira. Eu tive seis irmãos. Eu gostava de tocar nos bailes, nos pagodes. A gente tocava a noite inteira.

Eu nunca nadei no rio, nunca aprendi a nadar. A gente brincava de tudo aqui quando criança, de pião, bolinha de gude... Eu tenho saudade da minha infância, tenho muita saudade de meus pais, minha mãe, meus irmãos. A gente sentava aqui, conversava, tocava um violão, uma sanfona. Eu sinto saudade disso, dois seis irmãos mais velhos, só sobrou eu. E eu 'tô aí, tocando violão até hoje.

A casinha que eu nasci ainda existe, é numa fazenda, fazenda São José. Lá plantava de tudo: café, milho, arroz, feijão. Naquela época, aqui na Flora não tinha nada. Aqui não tinha nem venda. Mas passava tropeiro vendendo as coisas. Antigamente a condução era cavalo ou a pé, era o único meio que tinha. Existia aqui umas duas ou três casas, o resto era tudo mato, beira de rio.

Antigamente tinha mais peixe, já pesquei muito nesse rio. Pegava dourado, piaba, piau, curimba, tudo quanto era peixe. Hoje acabou tudo, a poluição acabou com o rio Verde. Esse rio aqui passa por sete cidades, os esgotos caem tudo no rio, inclusive daqui da Flora.

A balsa aqui antigamente era tocada no bambu. Teve uma vez uma balsazinha aí, ela tombou lá do outro lado e jogou muita gente no rio. Depois, foi passando um tempo, a ESA doou uma balsa de fibra, aí era puxada na corda. Existia um barqueiro só, o José Cunha, agora é o filho do José Cunha.


Na época que passava o trenzinho aqui, era muito bom, hoje não tem nem a estação. Hoje passa só cargueiro. O trem parava aqui, tinha trem de passageiro e de cargueiro. Ia pra Varginha, ia lá pra Juréia. Era a única coisa que a gente tinha aqui, naquela época. Passava uns cinco, seis por dia. Desde que eu nasci já tinha.

A gente viajava de trem só pra Aparecida. A gente ia até Cruzeiro, depois fazia baldeação e pegava outro lá. Era uma maravilha! A gente saia daqui 5 horas da manhã e chegava em Cruzeiro duas horas da tarde. Ia vendo as serras, passava no túnel. Quando era maria fumaça e passava no túnel, tinha que fechar as janelas senão morria sufocado por causa da fumaça. Levava cinco minutos para atravessar o túnel. A gente ia pra Aparecida por devoção a Nossa Senhora.

Vi duas enchentes bravas aqui, a de 46 e a de 2001. Isso é fenômeno da natureza, chega na época das chuvas, chove demais, o rio enche e alaga isso tudo aqui. Antigamente, chovia bastante, agora hoje, o tempo mudou, com essa global aí, o aquecimento global, tá chovendo demais. O rio foi diminuindo, esse rio vinha quase até aqui. Essas dragas foram tirando areia, o rio foi afundando mais e diminuiu. O homem que faz isso, nós estamos destruindo a natureza. Quem é que pode segurar o homem? Ninguém pode segurar o homem, e quem tá sofrendo é a população.


Eu sempre desejo que as autoridades municipais olhem mais para a Flora. Eu adoro esse lugarzinho. Adoro minha Florinha querida, sou florense de coração... Agora, que tipo de música vocês gostam? Eu vou tocar uma música para vocês. Eu sou mais o tipo romântico. “Eu preciso te falar, te encontrar de qualquer jeito...

Esta entrevista foi gravada durante o projeto Caravana da Cidadania. Participaram Andressa Gonçalves, Júlio Matuck, Mônica Furtado e Paulo Morais.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Exposição Maria, Maria - pelas mãos dessas mulheres

Está aberta, no ambiente virtual, a exposição Maria Maria, que compôs as atividades da semana Mais Mulher, promovida pela Associação Industrial e Comercial de Três Corações (ACITC). Clique nas imagens para ver os banners e assine o livro de visitas deixando comentários no link ao final das imagens.











sábado, 31 de janeiro de 2009

Memória Oral no FSM 2009


No segundo dia de atividades auto-gestionadas do Fórum Social Mundial da Amazônia, a Viraminas promoveu o debate Memória Oral, a democratização da história, em que relatou a experiência dos projetos de registro da tradição oral nos munípios do Sul de Minas Gerais e discutiu formas de atuação com os participantes. Cerca de 80 pessoas - algumas sentadas no chão - tomaram a sala do Pavilhão Q da UFPA, onde aconteceu o seminário. Estavam presentes estudantes de história, ciências sociais e filosofia, além de mestrandos, mestres e doutorandos em antropologia e ciências afins.

A palestra teve três horas de duração. No início, os participantes se apresentaram e narraram algumas de suas lembranças de infância. A divertida estratégia, que arrancou risadas do público em alguns depoimentos, serviu para mostrar a facilidade que existe para se iniciar um projeto de memória oral.

Em seguida, relatamos a experiência do projeto Memórias Iluminadas, na cidade de Luminárias. Os participantes ouviram atentos à explicação e fizeram diversas perguntas. Os critérios de edição para transformar os depoimentos no texto do livro foi um dos questionamentos mais comum. O projeto Mutirão de Histórias de Vida, realizado na ex-Colônia Santa, foi apresentado em seguida e, logo após, foi a vez da Expedição do Patrimônio Vivo.

Já no fim, houve uma pergunta sobre o nome Viraminas e se estávamos dispostos a montar projetos em outros estados. Explicamos que o objetivo atual da Associação é formar agentes de memória em diversos cantos do País, para que as próprias comunidades possam registrar a história oral. Ao final, ficamos conhecendo a iniciativa do grupo italiano Histórias de um Mundo Possível, que trabalha com autobiografias e tem diversos parceiros espalhados pelo mundo.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Viraminas no Fórum Social Mundial 2009


Os gestores culturais Paulo Morais e Andressa Gonçalves, da Viraminas, estarão presentes na 9ª edição do Fórum Social Mundial, que acontece na próxima semana, em Belém. A Associação vai ministrar o debate Memória Oral: A democratização da História. Na ocasião, serão apresentados os projetos que a entidade vem realizando na região Sul de Minas Gerais, como a Expedição do Patrimônio Vivo, o Mutirão de Histórias de Vida e o Memórias Iluminadas.

Além de apresentarem o seminário, os gestores culturais irão participar de uma série de atividades no Fórum, o maior evento do gênero no mundo. Um dos objetivos da participação é formular a proposta da Viraminas para o edital Pontos de Cultura, do Ministério da Cultura e da Secretaria de Estado da Cultura. A associação trabalha na criação de um museu para registro da tradição oral, para ampliar a atuação da entidade e difundir as metodologias que usa em seus projetos.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Encontro com representantes do Reinado, em Divinópolis

Nesta última sexta-feira (16), estivemos reunidos com representantes do Reinado de Divinópolis, cidade do Centro-Oeste de Minas, para elaborarmos um projeto que aborde a memória desta importante manifestação cultural. As conversas foram agendadas pela funcionária da Secretaria Municipal de Cultura (SEMC) Lenir Castro, uma das principais entusiastas da cultura popular.

Originado da interação entre a cultura dos escravos africanos e a religião católica, o Reinado foi proibido durante anos pela Igreja. A despeito da proibição, que perdurou até a década de 1970, em Divinópolis, a manifestação se manteve viva. Atualmente, são 17 irmandades ativas na comunidade, algumas delas na zona rural. Uma vez por ano, é celebrada a Missa Conga, em homenagem aos reinadeiros, basicamente devotos de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Cada irmandade realiza ainda a sua festa, em louvor aos santos do Reinado. Gilberto Gil e Milton Nascimento são alguns exemplos de pessoas que foram coroados reis congos pelas irmandades locais.

Primeiro encontro - Capela da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, no bairro Espírito Santo.



Lenir nos acompanhou ao nosso primeiro encontro, agendado para a Capela da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, no bairro Espírito Santo. Quem nos aguardava era Maria de Lourdes Teixeira, a "Lourdinha do Reinado", uma das mais fervorosas guardiãs da tradição. Vestida a caráter para a conversa, Lourdinha começou nos contando a origem da fé de seu pai, Vicente Teixeira, em Nossa Senhora do Rosário.

Seu Vicente foi picado por uma cobra urutu, enquanto trabalhava no meio do mato. Veio para a cidade certo de que teria que amputar a perna, tamanha era gravidade do ferimento. Porém, um raizeiro conhecido como Seu Nato tratou de seu Vicente com plantas, e o paciente prometeu a Nossa Senhora do Rosário que, se ficasse curado, dedicaria a vida em prol do Reinado.



Não deu outra. Seu Vicente ficou curado e, a partir daí, surgiu uma impressionante história de devoção. Com o tempo, começou a participar da Festa de Reinado de Carmo do Cajuru. Nessa época, ele já levava Lourdinha para assistir às festividades, pois até então não se permitia a participação das mulheres. Aos nove anos, Lourdinha foi "fantasiada" de menino pelo pai para poder acompanhar o cortejo.

Tempos depois, Vicente se mudou para Divinópolis, onde comprou o terreno para a construção da igreja da Irmandade. "Antes de começar a fazer o alicerce, ele sonhou que construiria uma igreja de sete cantos. Ele começou a construir a igreja que ele sonhou. Quando estava lá em cima da laje, ele sofreu um infarto e morreu. Isso foi há 28 anos", recorda Lourdinha, emocionada. "Meu pai foi uma pessoa muito importante para mim. Ele cumpriu a promessa e morreu trabalhando para Nossa Senhora do Rosário", acrescentou a reinadeira.

Lourdinha emendou lembrando do terço que seu pai ganhou do padre Libério, o frei milagroso nascido na cidade vizinha de Leandro Ferreira. Seu Vicente passou anos rezando para os outros, atendendo pedidos de vizinhos, amigos, parentes e até desconhecidos que ficavam sabendo da sua fé. Em Divinópolis, fundou a guarda do Moçambique Velho, que, na tradição, é responsável por proteger o Reinado.

A reinadeira explica a origem do toque das caixas da guarda de Moçambique. "Os escravos tocavam a caixa para esconder o choro das crianças que nasciam na senzala, por que, se os patrões ouvissem, jogavam as crianças para os porcos comerem", relatou. Daí nasceu a cadência das batidas de Moçambique, a principal guarda do Reinado, segundo Lourdinha.

A guarda de Moçambique é responsável por todo o ritual de fé que envolve as festas de Nossa Senhora do Rosário. Além dela, formam as irmandades os ternos, que são responsáveis por compor e enfeitar. "São a composição do reino", explica Lourdinha. São exemplos o Terno do Vilão, dos Marinheiros, do Catopé, do Penacho. O canto da guarda de Moçambique é mais lento, pois reflete o sofrimento dos negros. Os demais são mais alegres, festivos, pois significam uma homenagem a Nossa Senhora do Rosário.

Para encerrar, Lourdinha brincou dizendo que, às vezes, é mal vista por ser extremamente exigente na hora de respeitar a tradição. "Tem gente erguendo mastro até em cano de PVC. Esta não é a nossa tradição. Reinado é chão, madeira e bandeira. É uma criação de Deus com a fé do homem. Meu sonho é que o Reinado tenha permanência e que a tradição de fé tenha significado para os mais novos", finalizou.

Segundo Encontro - Réplica da Capela de Nossa Senhora do Rosário, ao lado do Mercado Municipal


Nosso segundo encontro com representantes do Reinado aconteceu em frente à réplica da capela original erguida no século XIX em homenagem a Nossa Senhora do Rosário. A edificação original foi destruída por volta de 1950 para dar espaço ao Mercado Municipal (foto). A réplica ficou espremida entre o mercado e a delegacia de Polícia Civil.



Nos encontramos com dois representantes da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário do bairro Vila Romana: Vicente Ferreira Andrade e Antônio Sebastião de Souza. Os dois são cunhados e herdaram a tradição dos pais, que nasceram na cidade vizinha de Perdigão. "Meu pai toda vida foi reinadeiro", disse seu Antônio. "O meu também, ele foi capitão da guarda de Moçambique", completou seu Vicente.

Seu Vicente comenta que, de certa forma, muitas irmandades estão permitindo que a tradição se perca, pois costumam misturar as funções da Guarda de Moçambique com as dos ternos. Porém, ele lembra que, nas últimas décadas, aconteceram mudanças na visão da sociedade em relação aos reinadeiros. "Antigamente, era só o povo mais velho que saía no Reinado. Hoje, tem muita criança. Lá em casa tem criança de quatro anos que gosta do Reinado", disse.

Eles lembraram que, antigamente, o Reinado era totalmente rejeitado pela igreja católica, que não reconhecia a tradição como parte da religião. Atualmente, a realização das missas congas representam a abertura que os católicos deram aos reinadeiros. "Hoje a gente considera o Frei Leonardo como um rei congo", disse seu Antônio, em referência ao frei que comanda a já tradicional celebração. "Antes, todo mundo misturava reinado com macumba, achava que era a mesma coisa", recordou.



"A minha vontade é que os mais novos continuem com a tradição", comentou seu Vicente. Ao final da conversa, apareceu Guilherme, um jovem capitão da guarda de Moçambique. Muito religioso, ele comentou que desde os sete anos dança o reinado, como forma de mostrar sua fé em Nossa Senhora do Rosário.

O conhecimento registrado neste dia de descobertas servirá de base para a elaboração de um projeto que, como percebe-se, dará muito pano pra manga. É esperar para ver.

Texto: Andressa Gonçalves e Paulo Morais. Fotos: Paulo Morais.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Memórias Iluminadas: lançamento do livro dia 30


A cidade de Luminárias, no sul de Minas Gerais, vai ganhar um presente diferenciado neste fim de ano. No próximo dia 30 (terça-feira) será lançado o livro Memórias Iluminadas, que traz a história do município narrada pelos moradores mais antigos, sendo que os mil exemplares produzidos da obra serão distribuidos gratuitamente para a comunidade e para cidades vizinhas. Foram 26 idosos entrevistados pelo projeto, que teve início em fevereiro de 2007. Os quase dois anos de pesquisa foram uma parceria entre a Prefeitura de Luminárias e a ONG Viraminas, com patrocínio do BDMG (Banco de Desenvolvimento de Mians Gerais) e da Secretaria de Estado da Cultura, por meio do Fundo Estadual de Cultura.

No livro, que tem 264 páginas, cada morador entrevistado tem um capítulo, em que narra sua trajetória em Luminárias. Os idosos receberam de três a quatro visitas da equipe de pesquisa do Memórias Iluminadas, formada pela turismóloga Andressa Gonçalves e pelo jornalista Paulo Morais. Alguns deles moram em locais afastados, na zona rural, a cerca de 30 quilômetros da cidade. Foi comum também a abordagem de pessoas que não sabem ler e escrever, não frequentaram escola, mas apresentaram uma experiência de vida e uma visão de mundo de fazer inveja aos mais letrados.

Cada idoso que participou do projeto contou sua história de vida e narrou situações do cotidiano de tipicamente rural de antigamente. Modos de fazer tradicionais, como queijo, cachaça, rapadura, trançado de bambu e couro, por exemplo, foram alguns dos pontos mais abordados nas conversas. As lendas antigas também foram muito citadas, tais como a mula-sem-cabeça, o saci, a mulher de três metros e o cavalo de três patas. O folclore aparece também nos divertidos causos da roça, que dão o ar da graça em diversas páginas do livro.

A obra traz ainda fotografias de Sansão Bogarim, que acompanhou a última rodada de visitas aos idosos. Os exemplares começam a ser distribuídos gratuitamente para a comunidade e também serão doados a bibliotecas públicas do interior de Minas. Ele também será publicado na Internet em versão PDF, podendo ser acessado em qualquer parte do mundo nos sites da prefeitura de Luminárias (www.luminarias.tur.br) e da Viraminas (www.viraminas.org.br).

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Exposição Descobrindo Palavras que Formam Pessoas #3 - Casa de Saúde Santa Fé - Três Corações (MG)

Conheça mais alguns dos banners da exposição Descobrindo Palavras que Formam Pessoas, resultado do projeto Mutirão de Histórias de Vida, que aconteceu na Casa de Saúde Santa Fé, em Três Corações (MG).




sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Reportagem da TV Alterosa sobre o projeto Mutirão de Histórias de Vida

Acompanhe a reportagem da TV Alterosa no lançamento do projeto Mutirão de Histórias de Vida, na Casa de Saúde Santa Fé, em Três Corações (MG).

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Expedição do Patrimônio Vivo – 10º Dia – Luminárias (MG) – Circuito Vale Verde e Quedas D’Água


Último dia de Expedição. Em parte cansados pelos 10 dias incessantes de pesquisa e, por outro lado, satisfeitos pelo bom resultado do projeto, saímos em busca de mais patrimônio vivo. O trabalho agora é em Luminárias, cidade de 5.350 habitantes, cujo nome é atribuído a pontos luminosos avistados na serra que circunda a cidade. A padroeira é Nossa Senhora do Carmo e o município é integrante do Programa Estrada Real. Quem nos contou esses detalhes foi o chefe do Departamento de Turismo e Cultura da cidade, Lincoln Daniel de Souza, um dos principais entusiastas do ecoturismo na região.
Quem nos indicou algumas pessoas para conversarmos foi a filha do nosso fotógrafo oficial, Maria Bogarim, que é enfermeira na cidade. Ela lembrou de seu vizinho, que até hoje faz fumo de rolo no quintal de casa. Fomos até lá conferir.
Primeira parada – 10h – Casa de seu Nico

Antônio Ferreira Mafra Filho, o seu Nico, é natural de Luminárias. Nasceu em 8 de fevereiro de 1932 numa fazenda chamada Lagoa. Assim que adentramos no quintal da casa dele, pudemos ver a quantidade enorme de folhas de fumo amontoadas sobre um pedaço de lona e três rolos enormes maturando sob o sol, o que indicava que a produção ali corria a todo vapor. Pedimos, então, pra que ele explicasse como funcionava o processo de fabricação artesanal, e ele foi logo adiantando: “pra dar um fumo bão, tem que plantar em terreno novo. Lugar de terra velha (muito plantada), não dá um fumo bão”.

Por aí, a conversa já demonstrava que estávamos diante de um produtor com o controle de qualidade aguçado. Com as mãos manchadas pelo manuseio, Seu Nico nos contou que, para a colheita das folhas, é necessário plantar os pés com a distância de meio metro entre cada um. Quatro meses é o tempo mínimo para retirar as folhas. A partir daí, o produtor tem que cortar o pé inteiro (a segunda colheita não é tão boa), colher as folhas, pendurá-las numa espécie de varal de bambu e deixar secar durante cerca de uma semana.


Então, é preciso tirar a tala central da folha. O que sobra vai para a roda de cochar fumo. “É até um servicinho maneiro de fazer. Vai rodando, rodando, e faz as cordas. Das cordas, a gente faz o novelo no burro (espécie de vara de madeira sustentada por um suporte e uma manivela para enrolar o fumo) e deixa no sol pra maturar”, explicou seu Nico. Cada novelo fica em torno de três meses tomando sol, e o mel do fumo é o responsável por dar a coloração escura. A partir daí, o produto já pode ser fumado, mas seu Nico prefere guardá-los em sacos plásticos por mais tempo (às vezes, chega a dez meses), para dar um melhor sabor.


Seu Nico nos contou que existem mais de 10 qualidades de fumo de rolo: gamelão, araçá, fumo de cheiro, língua de vaca e almeirão são alguns exemplos. Antigamente, havia vários produtores locais. Hoje, segundo seu Nico, quase não há mais quem se dedique ao serviço. Os clientes são todos da cidade, que pagam 30 reais pelo quilo do fumo curado. Há até alguns anos, compradores de cidades vizinhas apareciam para levar todo o estoque e revender, mas o cigarro de papel (industrial) vem acabando com a tradição dos produtores artesanais de fumo.

Esta época do ano, por causa do tempo seco, é ideal para a produção. Quando chove muito na estação, o fumo nasce mais fraco, o que não é do agrado de Seu Nico. Terminada esta parte da explicação, o produtor nos mostrou como enrola um cigarro de palha. “Tem que escolher uma palha clarinha, não pode ser de fora do milho, tem que ser uma palha do meio”, disse. Seu Nico tirou um pedaço de rolo que estava guardado há dois anos e picou alguns pedaços com um canivete afiado para enrolar. Ele nos ofereceu para experimentar e demos algumas pitadas para conferir o resultado. Nos despedimos satisfeitos com a dedicação do produtor e saímos para a próxima conversa.
Segunda parada – 11h08 – Casa de seu Delfino Diniz

O que nos trouxe à simpática casa desse senhor foi a curiosidade por mais uma tradição que os tempos fizeram sumir: a caça, atualmente proibida por lei. Seu Delfino Diniz nasceu em 15 de agosto de 1945 na fazenda do Mirante, em Luminárias, e é filho de Odilece Junqueira Diniz e Lana Lopes Diniz. Desde a infância, acordava às cinco horas da manhã para ajudar na tarefa de tirar leite.
Ele conta que o esporte da caça é uma tradição que começou com o avô, que passou para o pai, com quem ele aprendeu a gostar. Nos tempos em que a atividade ainda persistia, os colegas se reuniam a cavalo e saíam com cerca de 30 cachorros ao todo. Seu Delfino demonstrou preocupação em deixar claro que eles não matavam os animais que encontravam, normalmente pacas e veados. “A gente não levava nem um canivete. Se a gente matasse os bichos, ia acabar a nossa diversão do dia seguinte”, comentou. Iam de seis a oito caçadores, que levavam café e algumas quitandas para comer. A satisfação era ver a arruaça dos cachorros, e quando avistavam algum veado, afastavam os cães e liberavam a caça.

Seu Delfino reconhece que o número de animais silvestres caiu vertiginosamente na região, porém sustenta que isso é resultado da ação de agrotóxicos usados por fazendeiros nas plantações. Ele lembra que não é mais possível caçar devido à ação da polícia florestal, que, caso perceba o caçador acompanhado dos cachorros, já tem motivos para aplicar uma bela multa.
Perguntamos sobre causos engraçados dos tempos de caçador e ele nos brindou com uma lenda do folclore local. Um certo padre era adepto da caça e, num belo dia, resolveu sair com os colegas para uma boa diversão. Para surpresa geral, um capiau resolveu interpelar o pároco enquanto o grupo atravessava um pasto, querendo aproveitar a situação para se confessar ali mesmo. Sem ter como negar, o padre o levou para um cupim, onde iniciou os procedimentos eclesiásticos. Enquanto o matuto listava seus pecados, o padre observava de rabo de olho a movimentação dos cães. Estes, por sua vez, começam a ficar agitados, denunciando que uma presa estava por perto. De repente, os chifres de um veado surgem por detrás de uma moita e o pároco, na inocência, fala: “se adianta aí que o chifrudo está vindo!”. O capiau, com medo, foge como uma espoleta, pensando que se tratava da aparição da besta.
Depois de mais algumas risadas, nos despedimos de seu Delfino e seguimos para um agradável almoço na pousada Serra da Luz.
Terceira parada – 14h37 – Antiga casa de Messias Furtado Sobrinho (Sinhô)

Para encerrar com chave de ouro, fomos até uma das poucas casas antigas que ainda resiste ao tempo no centro histórico de Luminárias. Lá encontramos Terezinha Aparecida Furtado, de 64 anos, uma fervorosa devota de Santo Antônio e apaixonada pelas histórias locais. Tetê, como é conhecida, é filha de Messias Furtado Sobrinho e Maria do Carmo Silva. O pai foi seleiro, e trabalhava com encomendas de fazendeiros da região. Durante muitos anos, ele ainda foi regente da mais tradicional da cidade, a Banda Carmelitana, fundada em 1896. A mãe, dona de casa, teve nove filhos, todos nascidos na casa onde estávamos, pelas mãos de parteiras.
Emocionada, Tetê nos contou sobre a Tradicional Festa de Santo Antônio, comemorada ininterruptamente desde a década de 50, todo dia 13 de junho. “Toda a vida mamãe teve muita fé. A minha avó Marica já contava para ela desde pequena histórias sobre Santo Antônio e ela contava para a gente. Ao invés de contar historinhas de princesas, mamãe contava a vida de Santo Antônio. Então desde pequenininha eu também tenho muita fé, e passo isso para os meus netos.”
Segundo Tetê, as primeiras festas aconteceram na porta de sua casa. O fiéis rezavam o terço e as crianças ganhavam canjica e brincavam ao redor da fogueira. “Depois que o padre Waldyr chegou, ele sempre incentivou minha mãe a fazer a festa, que continua até hoje. Quando mamãe morreu eu comecei a tomar conta. E a festa está cada dia mais bonita.”
A tradição de rezar o terço em homenagem a Santo Antônio ganhou força e hoje acontece, religiosamente, toda terça feira. No início, sem telefone para avisar os vizinhos, Dona Maria do Sinhô saía na rua batendo panela. Esse era o sinal de que estava na hora do terço. Apesar de devota, a mãe de Terezinha era cautelosa na hora de apelar para o santo. “Quando sumia alguma coisa aqui em casa a gente já ia acendendo uma vela para Santo Antônio, mamãe falava: não incomoda o santo com coisa pequena!”, lembra, saudosa.

Outra tradição mantida por Tetê são as coroações de Nossa Senhora do Carmo, anualmente realizada com crianças da comunidade. O ritual teve origem com a primeira professora da comunidade, Judith Amália Fábregas, que depois passou a responsabilidade de ensaiar as crianças para Dona Maria do Sinhô. Esta por sua vez entregou os ensinamentos para sua filha, Tetê, que já os transferiu para uma professora do município, Amália Amaral.
Encerramos a conversa com um breve comentário sobre os dias de hoje. “Eu tenho dificuldade de reunir as meninas, porque a maioria diz que não tem tempo para isso. Mas eu vou na praça e vejo elas de beijo e abraço com os namoradinhos. Deste jeito, não tem com ter tempo mesmo, né?”, disse, rindo.
Com essas palavras, terminava a Expedição do Patrimônio Vivo. Ficamos por aqui na certeza do dever cumprido e na expectativa de que os relatos tenham servido para provocar em todos que nos acompanharam alguma reflexão sobre as mudanças acontecidas nas últimas décadas. Nos despedimos honrados por termos encontrado pessoas tão iluminadas que, por força de vontade, conseguem manter vivo o nosso patrimônio cultural nos tempos modernos.