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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Pequenas Memórias #1


Seu Otacílio - bananeiro

“Meu nome é Otacílio Correia da Silva. Trabalho desde os 12 anos, eu toco enxada, graças a Deus. Fui criado na roça, tenho o maior sentimento de ter perdido meu pai e minha mãe muito novo.
Tô com 77 anos, tenho 7 filhos, tudo criado. Minha cabeça não dá pra ficar em casa desde que minha mulher morreu. A vida é dura.
Aquele outro senhor que vendia banana foi embora, acho que não volta mais, tava muito doente, foi embora pra São Paulo de ambulância, o coitado.
Eu vendo bananas, eu capino uma horta, eu bato enxada. Faço de um tudo, eu só não mato e roubo, conforme as leis de Deus. Eu gosto de andar no meu direito.”

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Lançamento do Museu da Oralidade: O Reinado de Bené


O Reinado de Bené é o mais novo lançamento do Museu da Oralidade, o Ponto de Cultura da Viraminas. É o produto resultante do projeto Reinado para as Novas Gerações, que pesquisou a memória oral dos reinadeiros de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito de Divinópolis, cidade do Oeste do Estado. O projeto foi realizado com patrocínio da Etiquetadora Amaral (Etiam), via Lei Municipal de Incentivo à Cultura.

O lançamento oficial acontece no dia 12 de agosto, quinta-feira, na Biblioteca Pública Ataliba Lago, às 19h30; e no dia 14, sábado, na Boutique do Livro, a partir das 10h. Leia abaixo o prefácio da escritora Ana Maria Gonçalves e clique na imagem acima para baixar a versão em PDF.


Onde hoje é o Benin, havia o Daomé, um dos mais ricos e poderosos reinos africanos, de onde embarcaram centenas de milhares de escravos para o Brasil. Do caminho desde a cidade de Uidá, sua capital, até o porto, as caravanas de triste destino passavam por um local batizado de Árvore do Esquecimento. Lá havia mesmo uma árvore, em torno da qual os homens tinham que dar nove voltas e as mulheres, sete. Acreditava-se que, dessa maneira, os futuros escravos esqueceriam a vida que tinham levado até aquele momento, suas crenças, suas tradições, suas origens, seu povo. Pensando no pouco que nós brasileiros conhecemos da rica herança africana, às vezes sou tentada a acreditar que isso de fato aconteceu, que foi possível calar ou apagar parte significativa de uma história tão rica e importante na formação da nossa identidade. Mas aí...

Eu quase vejo Bené, vivendo na fronteira entre a infância e a juventude, a realidade e o mundo dos sonhos, a cidade e a roça, a modernidade e a tradição. E Bené se sai muito bem, sabendo que, o que às vezes parece contraditório, quase sempre pode ser complementar. Eu também cresci assim, e ele poderia ter sido qualquer um dos vários amigos com quem compartilhei brincadeiras, aventuras, trabalhos escolares, viagens e emoções.

Aqui, Bené nos pega pela mão e nos guia através do Reinado, uma das muitas tradições de seus antepassados africanos, e nos ensina que o conhecimento que está nos livros não é o único digno de registro e respeito. Ele nos mostra que há também outro tipo de sabedoria, singular, significativa, passada de geração em geração, com simplicidade, fé e respeito. Não há como não querer tê-lo por perto, como amigo. Ouve só...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Em Betim, Santa Izabel está mais para bairro do que ex-colônia

Betim fechou, na semana passada, a última da série de visitas do projeto Museu da Oralidade às antigas colônias de hanseníase de Minas Gerais. Diferentemente de Padre Damião (Ubá), São Francisco de Assis (Bambuí) e Santa Fé (Três Corações), Santa Izabel pode ser considerada realmente uma ex-colônia, pelo menos no que diz respeito ao isolamento. Talvez por estar na região metropolitana de Belo Horizonte, onde a população cresceu bastante nas últimas décadas, a Casa de Saúde não se encontra mais na zona rural. Em acordo entre o governo de Minas, a prefeitura da cidade e os moradores, o local foi urbanizado, as cancelas foram banidas e o que se encontra ali está mais para um bairro.


Mercearias, bares, lojas de roupas, escolas, praças, tudo ali tem mais cara de cidade do que nas outras ex-colônias. Nem por isso, deixa de fazer parte da paisagem local as ruínas dos antigos pavilhões (acima), que no contexto mais urbanizado ficam até bonitas de se ver. Outro espaço interessante é antigo cinema (abaixo), com fachada restaurada. Todas as ex-colônias tinham cinemas, cujos prédios atualmente abrigam espaços para seminários e palestras comandados pela Fundação Hospitalar (Fhemig).


Dentre outras diferenças em relação às ex-colônias, Santa Izabel tem um belo memorial, montado pelos moradores locais. Essa mobilização em prol da memória pode ser atribuída à grande politização dos ex-hansenianos e descendentes, que se deve à presença marcante do Movimento de Reinserção das Pessoas Antingidas pela Hanseníase (Morhan). Peças de tratamento médico, fotografias de jogos de futebol dos pacientes, instrumentos musicais, peças de vestuário e muitas fichas de internação fazem parte do belo memorial (abaixo).

Mas nada em Santa Izabel é tão impressionante como a obra do artista Luiz Carlos de Souza, mais conhecido como Veganin. Nascido em 1950, ele se mudou para Santa Izabel aos vinte anos. Para a igreja local, criou a via sacra em óleo sobre tela. Mas não se trata de uma via sacra comum, no estilo padronizado do catolicismo. Veganin fez uma releitura da paixão de Cristo, misturando simbologias contemporâneas com personagens de histórias em quadrinhos e filmes de hollywood. Turma da Mônica, Darth Vader, gladiadores romanos e ditadores soviéticos aparecem nas telas. A riqueza de detalhes é impressionante. É possível analisar cada quadro por horas, observando as minúcias e interpretando a criatividade do pintor.


Em se tratando da oficina de registro da oralidade propriamente dita, a diferença entre Santa Izabel e as demais colônias se dá na grande participação dos moradores dentro da comissão de memória local. Reflexo também da presença do movimento social dos hansenianos, a presença de moradores na oficina acabou despertando uma outra reação diante da proposta de se fazer um mutirão de histórias de vida na colônia. Enquanto em Ubá e Bambuí a conversa se fixou nos meandros da metodologia do Museu da Oralidade, em Betim, se houvesse ali um gravador, talvez o projeto já estivesse pronto.

É que, por muitas vezes, as lembranças dos moradores afloraram enquanto contávamos sobre a experiência piloto em Três Corações. Uma das histórias que marcou foi a lembrança de quando o Estado ofereceu para os hansenianos a possibilidade de acabar com a divisão entre cidade e colônia, derrubando as cancelas de segurança. Os moradores aceitaram a ideia, que trouxe conquistas e outros desafios. O primeiro deles: o que fazer com a liberdade? Os colonos foram acostumados a viver sob a repressão e a tutela do Estado e tiveram que aprender a dialogar ao invés de apenas dizer "sim, senhor".



Comenta-se muito que, embora à primeira vista Santa Izabel seja um caso de sucesso na reintegração das colônias, ainda há problemas graves em toda a trajetória de urbanização. A violência é o maior deles, segundo se comenta. No entanto, isso não é exclusividade, se levado em conta o que se fala nas outras ex-colônias. O que aconteceu em Betim nas últimas décadas deve ser levado positivamente em consideração. É a colônia que melhor soube se integrar à cidade. Enquanto isso, nas colônias de fora da região metropolitana, parece que o problema da ocupação desordenada continuará sendo empurrado com a barriga, até que os últimos ex-hansenianos não estejam mais por aí.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Colônia São Francisco de Assis, em Bambuí, se prepara para registro da memória oral

Há exatamente uma semana, estivemos em Bambuí, no Oeste de Minas Gerais, para apresentação de uma oficina de registro de Memória Oral. O local foi a Casa de Saúde São Francisco de Assis, que também abrigou uma colônia para portadores de hanseníase, a exemplo da Colônia Santa Fé, em Três Corações. O objetivo foi instruir funcionários da casa para organizarem um mutirão de registro de memória dos moradores, a exemplo do que aconteceu no Sul de Minas em 2008.



Na terça-feira, chegamos e pudemos conhecer um pouco do espaço. Tem várias semelhanças com a Casa de Saúde de Três Corações: o local tem clima agradável, é silencioso, cercado de muita vegetação e fica na zona rural do município. Há a rua onde moravam os hansenianos (acima), que, apesar de terem arquitetura absolutamente modular (todas as casas têm o mesmo desenho), chama a atenção pela conservação das fachadas, pintadas cada uma de uma cor.



Os pavilhões (acima) estão no mesmo estilo de Três Corações: em sua maioria, abandonados, com os telhados caídos, vidros quebrados e espaços amplos vazios. Dos mais de 15 pavilhões no local, apenas quatro ou cinco foram restaurados pela Fundação Hospitalar e ainda funcionam como enfermaria ou moradia. O mais bem restaurado é onde se instalou uma escola de ensino fundamental. Ali netos de ex-hansenianos que ainda moram no local estudam (abaixo), assim como outras crianças e adolescentes da zona rural. Foi uma boa alternativa para revitalização do espaço.




A grande diferença entre São Francisco de Assis e Santa Fé está numa outra parte da ex-colônia, conhecida pelos funcionários como Vila Nova. Ali moram descendentes dos antigos moradores da colônia, que fundaram um bairro aparentemente mais bem-estrurado do que muitos lugares que conhecemos em cidades do interior. Pode-se dizer que ali se fundou um distrito da cidade, com  campo de futebol, quadra de esportes, lan-houses, igrejas católica e evangélica, centro espírita, pontos de ônibus, antenas parabólicas nas casas, meninos jogando bola na rua e até passeando de mini-buggy (acima).


Até onde pude me informar, o local passa por uma questão controversa que envolve inclusive muita especulação política. É que as casas estão instaladas em áreas do governo e não pagam impostos nem mesmo contas de luz e água. Existe uma discussão em torno de ceder as escrituras das casas aos moradores, até mesmo como um direito de cidadania em virtude do que as famílias de hansenianos sofreram no passado.

Porém, o processo de repasse das casas para os moradores esbarra numa questão impopular: se transferidos os imóveis, seus donos passarão a arcar com as despesas. Embora seja um direito das pessoas, este processo terá um preço para elas. Para os políticos, fica o preço eleitoral da medida. Esta é apenas uma das questões políticas que envolvem as ex-colônias. Outras são o tombamento histórico dos prédios, que, por questões óbvias, deveria vir agregado a um projeto de revitalização. Porém, pouco se fala ou se propõem ações concretas para ressignificar os lugares. Fica parecendo que, para o poder público (incluindo prefeituras, Estado e União), é melhor deixar a coisa ruir por completo do que reconstruí-los como espaços de cidadania.

Da parte da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG), há a preocupação em encontrar parcerias com a sociedade civil para dar novos usos às ex-colônias, como foco no meio ambiente e na memória. Os espaços das ex-colônias tem todas as características para funcionarem como centros de formação e conscientização nestas duas áreas. A sociedade civil poderia atuar entrando nestes locais e oferecendo aquilo que, pelo peso do Estado e seus conhecidos entraves burocráticos, fica difícil acreditar que sairá do papel sem que a comunidade se mobilize.

É aí que a Viraminas e o Museu da Oralidade entram na história. O projeto do Mutirão de Histórias de Vida, em que registramos a memória oral de 17 moradores de Santa Fé, vai ser o modelo adotado pela FHEMIG para incentivar a releitura da memória das Casas de Saúde. A partir de funcionários e voluntários, levanta-se a memória dos ex-hansenianos, reconhece-se valores e anseios da comunidade e pensam-se alternativas para a ressignificação local.



A oficina, realizada na quarta-feira, veio para mobilizar os funcionários. E o resultado foi positivo. Bastante interessados na proposta e com vontade de sair a campo, vários deles estiveram na apresentação. O foco foi a metodologia de história oral: conceitos de oralidade, como elaborar um projeto de memória, implicações sociais do registro, mobilização e ação comunitária.

Em junho, a segunda ex-colônia a ser visitada pelo Museu da Oralidade será a Padre Damião, em Ubá, na Zona da Mata mineira.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Teia Regional mobiliza os Pontos mineiros; Sensação geral é de dever cumprido

Terminou agora há pouco o 3º Fórum Regional dos Pontos de Cultura, a Teia-MG, que reuniu 72 Pontos do estado para, dentre outras coisas, discutir propostas a serem levados no fórum nacional, que acontece no fim de março, em Fortaleza (CE). A sensação final de todos os participantes foi de superação de alguns problemas que envolvem o programa Cultura Viva, do MinC.

Primeiramente, uma questão que vinha incomodando bastante a Viraminas: o atraso no processo de conveniamento dos Pontos recém-aprovados no edital 2009. Ontem, este tema foi recorrente nas mesas de discussão que se formaram. Pela manhã, os pontos participantes do evento foram agrupados pelas regiões do Estado. O Sul de Minas estavam com apenas três cidades representadas: Três Corações, Cristina e Liberdade. A discussão acabou um pouco esvaziada, mas foi uma boa oportunidade para conhecer melhor o que acontece por aqui.

O Ponto de Cultura Artes para Todos, de Cristina, trabalha com artesanato e geração de renda para a comunidade. Dentre as atividades do grupo, estão oficinas de capacitação para radiodifusão. O detalhe é que o Ponto comprou equipamentos mas, pela falta de concessão, não pode transmitir uma programação. Ou seja, ensina-se para depois não praticar. Culpa da legislação das comunicações no Brasil, que emperram os trabalhos comunitários em prol dos poderosos.

O Ponto de Cultura e Sustentabilidade, de Liberdade, envolve trabalhos na zona rural da cidade. O projeto nasceu de um grupo de amigos que fundou uma eco-vila e vai trabalhar ações voltadas para a economia solidária. Está no grupo dos pontos que aguardam a assinatura do convênio. Estes dois projetos se juntaram ao Museu da Oralidade, o nosso ponto, para debater os assuntos do Fórum.

À tarde, os grupos foram divididos por proposta temática. O Museu da Oralidade se uniu ao pessoal dos pontos de cultura de matriz africana, de patrimônio imaterial e culturas tradicionais. Como havia uma presença maciça de pontos recém-aprovados, o tema do atraso no conveniamento acabou sufocando a discussão sobre a temática do grupo de trabalho. Por um lado, isso esvaziou o debate, mas, por outro, resultou numa resolução importante: a redação de uma moção pela agilização das assinaturas dos convênios.

Hoje, foi formada a Comissão Estadual dos Pontos de Cultura, com o objetivo de organizar o próximo encontro anual e de articular a relação entre os pontos. Essa questão foi amplamente salientada pelos pontos dos editais mais antigos, que ressaltaram a importância de fazer a rede funcionar, o que não vem acontecendo. Uma conquista para a rede foi a seleção regionalizada dos participantes. Assim, foram definidas 8 regiões e cada escolheu seu representante e um suplente. O Museu da Oralidade ficou com a vaga do Sul de Minas.

Ficou registrado o desafio de fazer a comissão funcionar, o que não é tarefa fácil. O calor das discussões fez muita gente acreditar no potencial da rede. A questão é como conseguir manter a pró-atividade depois que os representantes voltarem para suas comunidades.

A avaliação final dos presentes fechou a plenária. Houve muitos agradecimentos e muitas felicitações pelo sucesso do encontro. A sensação de dever cumprido tomou conta do pessoal. A delegação segue para a Teia Nacional visivelmente mobilizada e mais madura para o debate político em torno do programa Cultura Viva. Ficou como dever de casa para todos a leitura do projeto de lei do Cultura Viva, que, se levado ao Congresso, poderá transformar o programa de governo em uma política de Estado.

Nós, da Viraminas, voltamos para casa com a sensação de que, agora, o prazo dado pela Secretaria de Estado da Cultura para encerrar o moroso processo de conveniamento (abril de 2010) será cumprido. Vários outros pontos de editais anteriores lembraram que o processo sempre foi em ritmo de tartaruga. Mesmo assim, saímos achando que "agora, vai"! Será desastroso e profundamente desanimador caso o Governo de Minas nos enrole mais uma vez.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O porque de um Museu da Oralidade

Alguém já teve a sensação de que a história que a gente aprende na escola nem parece uma história propriamente dita? Não tem um enredo melodioso, não tem encantamento, tampouco uma fantasia, uma vibração. Fosse por ela, nosso mundo seria apenas o resultado de uma série de alternâncias de poder, decididas a portas fechadas em salões imperiais e gabinetes de presidentes. Do clero para a nobreza e depois para a burguesia, dos feudos para os estados nacionais, das metrópoles para as colônias e destas para o Novo Mundo, com suas guerras mundiais, frias ou não, sempre pela conquista de territórios e mercados consumidores.

Acontece que o mundo que a gente vive é construído também por uma diversidade de anônimos, pessoas comuns, que em seus cotidianos viveram e transformaram a cultura e consolidaram, aos poucos, as mudanças de comportamento, de pensamento, de ideologias. O que se fez do lado de cá das pirâmides sociais, no entanto, não entra nos chamados anais da história. O universo popular é quase que um corpo estranho aos temas dos livros didáticos.

Desde que começamos a nos embrenhar pelo universo da memória oral, nos deparamos com um outro tipo de história. Uma história diferente, que não vem expressa em cartas, atas, registros ou livros. Uma história que não se atém a descobrir quem fundou a igreja, quem escreveu a primeira carta, quem fincou a bandeira ou rezou a primeira missa. Que não quer descobrir a origem de tal lugar para distribuir títulos de pioneiros a fulano ou sicrano.

Essa outra história está nas esquinas, nos bairros, nas roças, na rua, em todo lugar. Pode não estar concretizada em relatos escritos, mas aparece na fala de um artesão, um carapina, uma dona de casa ou um puxador de folia de reis. Cada um deles carrega um conhecimento herdado geração após geração. Cada um recriou, conforme sua individualidade, a bagagem cultural que recebeu dos antepassados. Mas, mesmo assim, mantém hábitos, formas de pensar, agir e falar, que remontam a nossa ancestralidade. São testemunhos vivos de um história próxima, que explica muito do que vivenciamos hoje.

Quando investigamos essa outra história, não ficamos presos somente aos relatos das pessoas. A música de um capitão de guarda de Reinado traz na melodia, letras e instrumentos vários testemunhos de um passado transmitido pelos anseios e paixões de seus antecessores. Assim também é com a quitandeira, com seus ingredientes, temperos e receitas. O mesmo vale para o alfaiate e sua técnica minuciosa, para a benzedeira e sua medicina popular, para o carapina e seus instrumentos e conhecimentos sobre a natureza.

Engana-se quem pensa que a memória oral é apenas a história do tempo presente. Ela também nos leva a um passado de outros séculos. Com a mesma propriedade da história imortalizada nos escritos, nos faz compreender o passado para entender a contemporaneidade e vislumbrar o futuro. Ela é, no entanto, carregada de subjetividades, que, por sua vez, são um elemento a mais para a curiosidade do pesquisador e não merecem ser desprezadas.

O contato com essa forma de observar e analisar criticamente nosso presente pela busca da ancestralidade nos levou a propor o Museu da Oralidade. Uma rede social que se apropria das novas tecnologias acessíveis para pesquisar, difundir e preservar o que a tradição oral nos revela em toda sua complexidade. O museu não tem um local em si para acontecer. Está em todos aqueles lugares já citados: na rua, nas esquinas, nas roças. E qual a razão disso tudo?

Desde que o capitalismo nos levou à padronização e à massificação, sobretudo pelo advento do pensamento fordiano, a cultura entrou para o rol das atividades econômicas industrializadas. Grandes conglomerados produtores passaram a monopolizar a produção cultural em escala global. Transformaram a música, uma das nossas expressões populares mais antigas, num produto que tem dono. Assim também foi com o teatro, o cinema, a televisão. Mediatizou-se as formas de cultura e criou-se um grande sistema de distribuição vinculado ao monopólio industrial. A cultura a que temos acesso no dia-a-dia tem que passar pelo filtro destes conglomerados e é forjada em grandes centros, isolados do nosso cotidiano, que nos dizem o que pensar, como agir, o que vestir. Fez-se um novo tipo de imperialismo, desta vez não militar, mas ideológico.

É claro que esta forma de se produzir cultura, vinculada à produção em série e ao lucro, nos distancia da nossa realidade presente e nos faz enxergar o mundo pelos olhos dos outros. Nosso comportamento fica sugestionado por aquilo que querem que pensemos.

As novas tecnologias de comunicação, que tem convergido todas as formas de produção cultural numa única ferramenta chamada rede, podem - e devem - servir de contraponto a este monopólio. Na internet, ícone maior desta revolução que se propõe, o espírito colaborativista e democratizador floresce como resultado da ação dos milhares de usuários que constróem um imenso manancial de informação. Estabeleceu-se um campo fértil para projetos pessoais e coletivos, que se cruzam formando uma teia de pensamentos e interesses comuns. Permitimo-nos a consolidação de conceitos coletivos a partir do trabalho digital de cada um. Rompe-se com a lógica fordiana de produção em série para se chegar a uma forma de ação muito mais próxima do artesanal. Temos a chance de enxergar o mundo pelos nossos próprios olhos, sem intermediários, e compartilhar nossas visões com pessoas semelhantes, formando comunidades criativas e transformadoras baseadas na solidariedade e na colaboração.

Assim é que se pensa, pois, a razão de ser do Museu da Oralidade. Se a tradição oral é recriada pelas subjetividades e interpertações de cada um, por que não se apropriar das tecnologias convergentes da informação para impulsionar o conhecimento e a recriação dessas tradições? A pergunta pode até soar utópica. Mas se a tecnologia está aí para democratizar a produção cultural e ela ainda não tem dono, é hora de pensá-la em prol das utopias. Desafios existem, e sua popularização da rede talvez seja o maior deles. Porém, os desafios estão aí para serem superados.

Querem dominar a rede. O mesmo monopólio que burocratizou e criou barreiras ao estabelecimento dos produtores culturais independentes quer que as tecnologias se moldem aos modelos de negócios sob os quais se consolidaram formas elitistas e reacionárias de manutenção da ordem social e cultural. A colaboração e a solidariedade podem, neste mesmo ambiente, quebrar barreiras que tentam se impor e provocar uma revolução no nosso modo de agir, tanto culturalmente quanto economicamente e politicamente. Assim propomos conhecer o passado para entender o presente e construir o futuro. A porta está aberta, e nela pode entrar quem quiser.

Fotos Sansão Bogarim e Paulo Morais.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Viraminas é Ponto de Cultura


A Viraminas foi aprovada no edital Pontos de Cultura, da Secretaria de Estado de Cultura e do Ministério da Cultura. O resultado, divulgado na última semana, contemplou 100 iniciativas de todo o Estado, com destaque para a região Norte e os vales do Jequitinhonha e Mucuri. No Sul de Minas, foram contempladas cinco iniciativas.

O projeto da Viraminas foi batizado de Museu da Oralidade. É uma iniciativa de ampliação dos trabalhos que a entidade já vinha realizando desde fevereiro de 2007, quando começou o registro da Memória Oral de Luminárias. Naquela época, eu e Andressa começamos, com apoio do então secretário de cultura da cidade, Lincoln, a gravar os causos dos idosos no meio da rua. Ainda com um gravador de fita cassete (não conhecíamos os pen-drives do Shopping Oi!), saímos catando os velhinhos e ouvindo eles contarem do trabalho na roça, do saci, das broas de fubá, das cantigas de roda, do professor Fábregas, e de mais um monte de coisas que vocês podem conhecer baixando o livro ali do lado. Com o tempo chegou ao projeto o fotógrafo Sansão Bogarim, que, com seu olhar clínico, deu outra cara ao projeto. Eu nem vou citar por quê, prefiro que baixem o PDF e acompanhem.

O Memórias Iluminadas ainda não terminou. O projeto prevê ainda a edição de uma coleção de cartilhas, financiadas pelo Fundo Estadual de Cultura, do Governo de Minas. Depois de Luminárias, começamos outros projetos, desta vez já mais amadurecidos. Veio o Memória da Educação, com registro de 11 professores idosos da rede pública de Três Corações, o Mutirão de Histórias de Vida, em que gravamos memórias dos moradores de Santa Fé, e a Expedição do Patrimônio Vivo.

Todos esses pequenos projetos começaram a formar um acervo que, pela estrutura atual da nossa entidade, está ficando difícil de manter. Agora, nossa expectativa é de que o Ponto de Cultura facilite um pouco as coisas. Vamos formar uma rede social colaborativa, onde não só a Viraminas, mas qualquer pessoa poderá colaborar registrando a memória de sua rua, seu bairro ou sua cidade.