Mostrando postagens com marcador artesanato. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador artesanato. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Mário Teles: "Simplicidade é uma coisa que eu tenho e que meu pai também tinha"



Este fim de semana estivemos em Divinópolis para uma visita ao Museu do GTO. O convite veio de uma das fundadoras do Instituto GTO, Celma Bosque, com objetivo de cooperar na criação de um projeto estruturante para esta associação. Para quem não conhece a obra do escultor, vamos a uma brevíssimo histórico, que nos foi narrado por seu filho e sucessor Mário Teles.

Geraldo Teles de Oliveira
nasceu em Itapecerica, na região Oeste de Minas Gerais, em 1913. Mudou-se para Divinópolis ainda jovem, quando tornou-se funcionário do Hospital São João de Deus, onde trabalhou como vigia noturno. Estabeleceu-se com sua família no bairro Niterói e, com um jeito simples de encarar a vida, seguiu religiosamente no trabalho e só depois dos 50 anos começou a esculpir.

Mário contou que, em 1965, seu pai recebeu aviso prévio do hospital. Ficou desolado com a possibilidade de ficar desempregado e sem saber o que faria da vida. A esposa, solidária à situação de Geraldo, disse que rezaria para Bom Jesus para que ele lhe desse uma nova profissão.

A partir daí, iniciou-se a obra do escultor. GTO, como ficou conhecido, montou uma oficina caseira e começou a esculpir em cedro. Criou uma identidade artística própria, reveladora de uma imensa criativade, traçando dezenas de figuras humanas no que chamou de Roda da Vida. Outras formas foram desenvolvidas, como a Pirâmide da Vida.

Quando estava com 54 anos, ganhou projeção ao expor na galeria Guignard, em Belo Horizonte. Ela fora convidado pelo arquiteto e ex-prefeito Aristides Salgado. Após a ida à capital mineira, GTO ficou conhecido nacionalmente e teve obras expostas e vendidas em galerias brasileiras e europeias. Vendo as encomendas crescerem, o escultor foi aos poucos encaminhando parte do serviço ao filho Mário, que foi se apropriando da arte e da genialidade do artista popular.


Atualmente, no porão da antiga casa onde GTO morou, funciona a oficina em que Mário esculpe suas obras. Ali também há obras do pai, Geraldo, e do sobrinho, Geraldo Fernando de Oliveira, o GFO, que também segue a arte do mestre (foto acima). Os trabalhos de Mário Teles mostram que ele não apenas se apropriou da linguagem de GTO, como também a recriou.


Nós percebemos que GTO não é apenas um artista, mas inaugurou um movimento artístico de intensa expressão popular. A música divinopolitana de raiz, por exemplo, é retratada nas diversas rodas da vida expostas no museu. As esculturas parecem ter movimento e lembram, em cada detalhe, as guardas de reinado da região. Na peça chamada "Festa do Bom Jesus", Mário retrata a Procissão de Ramos e outros temas católicos. Os índios, a capoeira e a Folia de Reis também são retratadas em suas obras.


Mário Teles criou, também, a Engrenagem da Vida (acima), em uma impressionante releitura da obra do pai. Ela nos contou que a inspiração veio das rodas gigantes dos parques que frequentava quando era criança. À medida em que vai contando os detalhes das outras esculturas, Mário nos embarca numa viagem pela memória da cidade do Divino, tangenciando a poesia de Adélia Prado e as telas de Celeste Brandão, e nos prestigiando com a sensação de participarmos de um museu vivo.


Para mostrar um pouco do ofício, Mário nos levou à sua bancada de trabalho. A primeira coisa que ele aprendeu com o pai foi a riscar e vazar a madeira. Essa parte do ofício é, às vezes, exercido pelo seu filho. Mário contou ainda que, com ferramentas simples (formão, serrote e macete), vai dando forma às esculturas.

As madeiras que o artista mais usa são o cedro-rosa e o cedro-vermelho. Depois que faz todo o entalhe, vem o acabamento de mãos e olhos das figuras humanas. Para dar o acabamento, ou "imunizar a peça", como diz Mário, é passada uma camada de óleo diesel.

O artesão revelou ainda parte de sua simplicidade contando que dá palestras em escolas da cidade.

- Eu não sou professor, porque eu não estudei para dar aula. Tudo o que eu faço é da minha cabeça, é a minha arte.

Hoje, Mário conta que já esculpiu mais de 3.500 peças, "sem repetir uma!"


Algo que nos impressionou foi a semelhança simbólica entre a Roda da Vida de GTO e a Roda da Vida e das Idades do Grãos de Luz e Griô, projeto do interior da Bahia que, para dizer de forma bem rápida, trabalha a reapropriação e recriação da tradição oral por meio da visita de mestres e aprendizes em escolas. Tradição oral, inclusive, que foi fundamental na formação da obra de GTO.

No fim da visita, Mário comentou o motivo pelo qual expõe religiosamente, suas peças na feira dominical de artesanato:

- O pai gostava de participar e mostrar a arte na feira. A Feira do Artesanato do Santuário é uma fortuna pra nós.

Participaram Andressa Gonçalves e Mônica Furtado. Fotos Paulo Morais.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Expedição do Patrimônio Vivo – 7º dia – Ijaci (MG) – Circuito Vale Verde e Quedas D’Água

Andressa Iza Gonçalves e Paulo de Morais. Fotos – Sansão Bogarim.
Texto concluído às 23h.


Começamos o dia com a intenção de conhecer a pedra de Santo Antônio, cuja história tínhamos ouvido no dia anterior, na comunidade do Rosário. Saímos então de Itumirim às 7h30 em direção ao distrito e perguntamos sobre o caminho que leva ao local. A estrada de terra atravessa uma serra com belas paisagens. Do alto, pudemos avistar o Lago do Funil, represa que existe há apenas quatro anos, quando a cidade de Ijaci passou a sediar uma nova usina hidroelétrica. O lago chega até o município de Itumirim e cobriu, quando foi enchido, parte da gruta de Santo Antônio. Foi construída uma passarela para que os devotos possam chegar ao interior da gruta. Passeamos pelo local aproveitando a bela vista que o lago proporciona.

Depois da rápida passagem pela gruta, tivemos que nos despedir da expedicionária Sandra Coelho, que teve de voltar à cidade do Serro, onde desenvolve os trabalhos que contribuíram para o registro do Queijo Minas como patrimônio imaterial brasileiro. Passamos por dentro de Ijaci para deixá-la em Lavras, de onde embarcou para Belo Horizonte. Ali encontramos com a também turismóloga Liliane das Mercês Santos, gestora do Circuito Turístico Vale Verde e Quedas D’água, que passou a acompanhar a Expedição. Voltamos a Ijaci para começar o sétimo dia de trabalho.
Primeira parada – 13h01 – Prefeitura Municipal de Ijaci
Encontramos Reginaldo Alves Vilas Bôas, funcionário da Secretaria de Educação e Cultura da cidade. Explicamos os objetivos da expedição e ele logo se mostrou bastante interessado. Ele nos contou a respeito da história da cidade, que foi emancipada de Lavras em 1963. O nome vem do tupi, “Rio da Lua”, e o município tem cerca de 6 mil habitantes. Com uma energia contagiante, decidimos sair logo a campo e encontrar as pessoas que iríamos conversar naquela tarde.
Segunda parada – 13h35 – Casa do senhor Antônio dos Santos – Ijaci

Para começar a visita, não podíamos deixar de conversar com uma pessoa que soubesse a história da cidade. Por isso, encontramos seu Antônio, um ijaciense de 77 anos, que fez de tudo na vida. Ele já foi boiadeiro, carreiro, comerciante, dono de bar e padaria. Aprendemos que Ijaci começou quando o fazendeiro Vigilato Vilas Bôas doou parte de suas terras para a Igreja. Foi construída, então, uma capela ao redor da qual surgiu o arraial que pertencia a Lavras.
Órfão aos sete anos e criados pelos avós lavradores, José Messias Vilas Bôas e Liduína de Bastos Vilas Bôas, Seu Antônio lembrou dos tempos em que existiam poucas casas e as ruas eram de grama ou de terra. De lá para cá, a igreja,erguida em homenagem a Nossa Senhora da Conceição, foi reconstruída duas vezes. O motivo, segundo ele, vem do fato de a cidade ter sido construída sobre um lençol freático, o que provoca rachaduras nas construções e já chegou até a causar tremores de terra na cidade vizinha, Bom Sucesso. Perguntamos detalhes sobre a cultura local, ele se lembrou com saudade das festas de antigamente. As principais eram a Festa da Padroeira e o Carnaval. Os tempos eram de muita religiosidade e respeito, portanto, não havia registros de violência. Seu Antônio terminou a conversa nos indicando dona Geraldina para conversarmos, e seguimos até a casa dela.
Terceira parada – 14h25 – Casa de Dona Geraldina – Ijaci

Quando entramos na casa de Dona Geraldina Umbelina de Castro, encontramos um fogão de lenha ainda quente. Da cozinha, dava para sentir o cheiro de doce. Ela tinha feito doce de leite mole pela manhã. Nascida em Ijaci, filha de Joaquim Porfírio dos Santos e Idalina Umbelina dos Santos, Geraldina tem 85 anos, nove filhos, 15 netos e 13 bisnetos. É a única remanescente de uma família de cinco irmãos. Nasceu numa casa bastante simples, de adobe, onde começou a trabalhar na roça com 10 anos de idade.
Aprendeu a fazer doces com a mãe, que aprendera com a avó. Qualquer doce de fruta ela tira de letra, garante. A receita do de leite estava na ponta da língua: “quinze litros de leite, cinco quilos de açúcar, um pouquinho de pó Royal, deixa ferver e joga um pouquinho de maizena; depois deixa duas horas no fogo”. Dona Geraldina contou que o marido, João de Deus de Castro Filho, era serrador. Serrava madeira para a construção de casas, currais, paióis. No entanto, a profissão foi caindo em desuso e, sem alternativa de renda, seu João resolveu começar a produzir doces caseiros.
No início, a produção era vendida de porta em porta, tanto em Ijaci quanto em Lavras. Com o tempo, os doces de dona Geraldina ganharam fama, e ela começou a receber os compradores em casa. Atualmente, os filhos ajudam na produção e até netos e bisnetos começam a aprender as primeiras receitas. Diante de tantas opções, a doceira tem o seu preferido: a cocada morena. “Rala o côco, coloca o açúcar na panela até queimar, põe o fogo e mexe até dar o ponto”, explica dona Geraldina.

A conversa terminou com dona Geraldina lembrando que, apesar do serviço pesado nas lavouras, ela tem saudades dos tempos antigos. “A gente trabalhava muito, mas era todo mundo alegre”, recordou. Experimentamos doces de laranja, côco e goiaba e nos despedimos daquela simpática família.
Quarta parada – 16h12 – Atelier de Adevágner Antônio Rodrigues

Saímos da casa de dona Geraldina em direção à casa de um artesão que trabalha com cipós. No caminho, encontramos um embaixador de reis da cidade sentado em uma esquina sob a sombra de uma árvore. José Paulo da Silva, de 53 anos, mais conhecido como seu Pachola, conheceu a Folia de Reis com o pai, José Francisco da Silva, lavrador e tocador de cavaquinho que também era folieiro. Ele comentou sobre as dificuldades de os grupos de reis se manterem hoje em dia, pois os mais novos estão ficando mais desinteressados na tradição.
Duas esquinas adiante, chegamos à casa de Adevágner Antônio Rodrigues, apelidade pelo avô José Sebastião de Lico. Hoje com 37 anos, Lico nos contou que seu pai era de Feira de Santana, na Bahia, e se mudou para Minas Gerais em busca de emprego. Acabou se estabelecendo em Ijaci como ferroviário, onde conheceu a mãe do artesão. Ele nos relatou também que o talento para o artesanato vem da família, pois os avós paternos trabalhavam com palha de coco, sisal e barro, no interior da Bahia.

Usando apenas alicate, faca e canivete, Lico faz desde luminárias de teto até objetos decorativos. Ele lembrou que iniciou o trabalho artesanal com bambu, mas percebeu que era uma técnica já muito difundida e, buscando algo original, encontrou cipós no meio do mato e começou a manuseá-los. “E Deus abençoou meu dom”, explicou. Atualmente, o artesão vende muito para compradores de São Paulo e Rio de Janeiro. Devido ao grande número de pedidos, não consegue mais atender às encomendas em pouco tempo.
Lico descreveu os tipos de cipó que usa: cipó São João, cipó chiador e cipó-cravo. Ele explicou que a espécie é uma espécie de praga, que se multiplica largamente pela região e pode até matar algumas árvores. Em alguns casos, fazendeiros pedem que sejam retirados cipós, pois eles podem até enforcar bois no pasto. Para manuseá-los, é preciso deixar um dia submersos em água. Assim como o bambu, o cipó deve ser cortado na lua minguante, para evitar caruncho.
Evangélico e pai de três filhos, Lico tem uma banda de música gospel. O artesão não tem dúvida de que dom da música vem do sangue baiano. Encerramos a conversa ouvindo de Lico que ele aprendeu sua técnica de artesanato toda sozinho. “Foi tudo dom de Deus”, finalizou.

Quinta parada – sítio de Maria Aparecida Vilas Bôas e Miguel Vilas Bôas

Fomos recebidos no sítio Bela Vista pelo casal, dona Maria logo nos contou que tinha nascido ali mesmo e que herdou do avô, José Balbino de Lima, o engenho tocado por animais, hoje substituído pelo elétrico. A modernidade não acarretou grandes mudanças no modo de fazer da rapadura, conforme podemos verificar pela fala de Aparecida. “Meu vô conta que teve uma época no passado que faltou açúcar na região. Ele nunca trabalhou tanto na vida dele, virava dia e noite na beira do tacho”, disse, referindo-se provavelmente no período da segunda guerra mundial, em que o açúcar foi racionado.
Naquele tempo, a vigilância sobre os produtores de rapadura era menos rigorosa. “Meu vô transportava rapadura para vender em Lavras, no carro de boi do mesmo jeito que leva tijolo, sem proteção nem nada. Hoje tem que ser tudo embaladinho, com etiqueta e tudo mais”, compara.
Começamos a conversar sobre o processo de fabricação da rapadura. Ele nos mostrou os três tachos onde ferve a garapa. “Primeiro tem que plantar a cana, ela demora um ano e meio para ficar no ponto. Depois, tem que tirar a cana na seca porque no tempo das águas a cana volta a ficar verde, e perde o teor de açúcar. Na seca, ela fica mais docinha”. Dona Aparecida disse que começa o processo moendo a cana. A garapa vai toda para o tacho grande. Ali vai apurando e sendo transportado para o tacho médio. Em seguida vai para o tacho pequeno até dar o ponto. No final vai para uma gamela e é repartido na forma. A forma comporta 60 rapaduras. Por semana, Dona Aparecida e seu Miguel. Nos despedimos com uma rápida passagem pelo canavial, onde Dona Aparecida fez a gentileza de partir a cana para nós chuparmos.

Terminamos o dia assistindo a um belo pôr do sol, no distrito da Macaia, localizado na beira do lago do Funil, e que fica muito próximo de Ijaci, mas pertence a Bom Sucesso.
Não perca amanhã a cidade de Bom Sucesso na Expedição do Patrimônio Vivo.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Expedição do Patrimônio Vivo – 4º dia – São Thomé das Letras (MG) – Circuito Vale Verde e Quedas D’Água

Por Andressa Iza Gonçalves, Paulo de Morais e Sandra Maura Coelho. Fotos: Sansão Bogarim. Texto concluído às 21h26 de segunda-feira.



Logo no início do dia, nosso fotógrafo nos surpreendeu com uma boa notícia. Como sempre acontece, Sansão foi o primeiro a levantar e, sem que soubéssemos, voltou ao Cristo Redentor de Luminárias, desta vez para fotografar o nascer-do-sol.”O entardecer é bonito, mais belo é amanhecer”, disse ele enquanto começávamos este texto. Partimos para São Thomé das Letras às 9h, animados com o bom resultado do dia anterior. Na estrada, nos chamou a atenção o contraste entre as belas paisagens e as jazidas de pedra.





Primeira parada – 10h – Sobradinho – Distrito de São Thomé das Letras (MG)



A primeira coisa que fizemos em Sobradinho foi tomar um café em frente à Igreja do distrito. Observamos três senhores sentados no banco da praça e resolvemos começar nossa abordagem por ali. Eles ficaram satisfeitos por verem um grupo de jovens interessados em resgatar histórias e conhecimentos do povo antigo. Eles nos indicaram a casa da dona Maria da Conceição Resende, uma senhora de 75 anos, legítima nativa de Sobradinho.

Segundo ela, Sobradinho começou a se formar nas terras do avô, Bento Gonçalves Leite. Ali foi erguida uma capela em homenagem a Nossa Senhora da Guia, ao redor da qual se construiu a comunidade. “A igrejinha era pequena, foi destruída e construíram essa que está aí”, nos revelou dona Conceição. Percebemos que esta é uma tendência constante nos locais por onde passamos. Com o crescimento da população, as comunidades sentiram necessidade de ampliar as igrejas e, por isso, derrubaram as capelas originais.

Mãe de doze filhos, nove deles nascidos pelas mãos da sogra Maria José de Melo, dona Conceição começou a conversa falando das brincadeiras dos tempos de infância, Estudada até a terceira série do primário, ela nos contou que todos os brinquedos eram feitos em casa, porque naquela época a família não tinha dinheiro para comprar. “Minha mãe fazia as bonecas de pano e nós fazia casinha de barro, mas hoje modificou tudo”, comparou.

Ela se lembrou do casamento aos 16 anos, com Geraldo Batista e relembrou os tempos em que ele era tropeiro. “Ele levava três a quatro dias para chegar em Baependi. Toda semana ele ia lá vender milho, queijo, feijão. Dormia nos rancho, tinha as panelas, fazia comida, levava arroz, feijão, toucinho, café e coador”, disse. Perguntamos o que o marido levava para os dias de frio e Dona Conceição nos respondeu que ele usava mantas tecidas por tecedeiras de Sobradinho, o que nos levou a questionar a respeito do ofício de tecer.

Dona Conceição disse que não tecia, mas lembrava do modo de fazer pois observou o trabalho da cunhada a vida inteira. “Tirava o lã do carneiro e tinha que lavar e cardar (desfiar com um pente próprio). Depois, fiava na roda e tingia. Pra amarelo, usava a quaresminha do campo. Azul era pinheiro; rosa, urucum do campo”, lembrou. Para terminar, perguntamos sobre os bailes da roça de antigamente. Com muito saudosismo, Dona Conceição comentou que havia os mutirões de limpar pasto e que, depois, os fazendeiros ofereciam festas com sanfona até o sol raiar.

Resolvemos entrar no assunto da extração de pedras. “Há muito tempo que ranca pedra aqui. Antes vinha com marreta e tirava as pedra no poder dos braço. Hoje, ta mais fácil”, disse. Por fim, Dona Conceição comentou sobre o orgulho do neto, Nivaldo Neves, que, além de ser professor na escola do distrito, é o companheiro de morada. Todos os demais netos tiveram que se mudar, pois não há empregos no local como antigamente, em que a lavoura oferecia trabalho para todos.

Segunda parada – Olaria na estrada entre Sobradinho e São Thomé das Letras – 11h50




Nos despedimos da simpática dona Conceição e seguimos rumo a São Thomé. No caminho, eis que aparece uma olaria de tijolo artesanal. Lá encontramos Renato Arantes Ribeiro trabalhando com o barro. Ele nos contou que aprendeu o ofício com o pai, João Inácio Ribeiro, e, hoje, faz mil tijolos por dia no tempo de seca, pois no tempo das águas a produção fica comprometida. O barro é jogado na forma, “untada” com areia para evitar que o barro grude. As duas ferramentas usadas são a forma e o arco, usado para tirar o excesso.

Terceira parada – 14h35 - Atelier do escultor Anderson Costa


Após sermos recebidos pelo funcionário do Departamento de Turismo e Cultura Edvaldo, seguimos para uma conversa com Anderson Costa, artesão mais conhecido como Brôa, que faz esculturas em madeira de cedro. Nativo de São Thomé das Letras, e, desde os 12 anos, herdou a responsabilidade de cuidar dos seis irmãos, devido ao falecimento do pai e da mãe, Nedir Costa Brasil. É pai de dois filhos e casou-se aos 21 anos. Até esta idade, ele trabalhou com extração de pedra São Thomé. “Eu tirava 2.200 metros de pedra por mês, acordava às cinco da manhã e ficava na pedreira até as sete da noite. O dia que eu ganhava, ficava tudo para a alimentação dos meus irmãos”, lembrou ele, que, devido à responsabilidade que assumiu cedo, não teve a oportunidade de completar os estudos. Nascido a 1º de novembro de 1971, dia de todos os santos, ele saiu da pedreira quando se casou e comprou um trailler para vender lanches a turistas.
Desde o início da conversa, estávamos impressionados com a qualidade das esculturas que nos cercavam. Perguntamos quando aquele talento tinha se despertado, e a exatidão e a rapidez de sua reposta, dos deixou boquiabertos. “ Foi em primeiro de janeiro de 2003 que eu tive meu primeiro sonho, até então nunca tinha esculpido na minha vida. Sonhava que estava andando no meio da floresta, procurando madeiras do meu tamanho.” Durante os 40 dias seguintes, o mesmo sonho voltou a se manifestar. Inspirado, ele tentou desenhar a imagem de São Tomé em um pedaço do tamanho de um palmo, tentativa que levou 10 dias. Ao comparar a imagem que tinha feito com a da igreja, Anderson se decepcionou. “Pedi desculpas a Deus por não conseguir fazer direito, tentei esquecer, mas o sonhos voltaram mais fortes e fui me entregando à madeira e visualizando as imagens que sempre se manifestam em sonho.” Nos contou que foi evoluindo na arte e em espírito. A evolução, inclusive, nos pareceu evidente, à medida em que comparávamos as primeiras peças com as atuais.
Sua definição para o momento que esculpe as peças que vê em sonhos, é a seguinte: “Quando estou esculpindo, navego em águas calmas. Minhas peças são confeccionadas de acordo com a minha emoção, o que toca meu coração naquele momento eu transfiro para a madeira”. Brôa disse não esperar que um dia chegue a perfeição, pois, segundo ele, ela não existe. Sobre as ferramentas que utiliza, o artesão enumerou: formão em v, coiva, enxó, serrote, madeira e talento. As peças maiores demoram até 11 meses para ficar prontas. Há até pouco tempo, Anderson não vendia o que produzia, pois se apegava às esculturas. Entretanto, recebeu de Deus um sinal que o encorajou a comercializar as peças. Apesar disso, até hoje ele vive da churrascaria que funciona no mesmo local que o ateliê. Encerramos o bate-papo certos que estávamos diante de um artista que será reconhecido mundialmente pelo talento diferenciado.
Quarta parada – 16h02 – Ruínas da primeira padaria de São Thomé das Letras


Para conversar com o casal Jaci de Oliveira, de 70 anos, e Idalina Cândida das Graças, de 67 anos, escolhemos as ruínas da primeira padaria da cidade como cenário. O que nos levou ao dois foi o fato de eles serem os responsáveis pelo grupo das Pastorinhas. A tradição atualmente conta com dois homens e dez mulheres e sai à rua nos mesmos dias da Folia de Reis. Durante algumas décadas, a tradição ficou adormecida, mas há quatro anos foi reativada, graças a iniciativa de dona Tomelina Nunes, irmã de dona Idalina. O pai de seu Jaci, João Angelino de Oliveira, viveu nos tempos que o município era chamado de Arraial de São Thomé, foi embaixador de reis e contava que a origem das Pastorinhas vem dos quilombos. Atualmente, as participantes se apresentam uniformizadas com a saia branca ou azul e uma camiseta estampada com o rosto de Jesus Cristo – um dos homenageados ao lado de Nossa Senhora.
Casados desde os tempos que a moeda era réis, conheceram-se nos bailes da roça. Dona Idalina contou que engravidou dez vezes, mas apenas quatro filhos vingaram. Essa informação nos fez pensar a respeito da alta mortalidade infantil que atingia as mães daquele tempo. Hoje, o casal tem oito netos e dois bisnetos.


Aos sete anos, seu Jaci fez os primeiro acordes na sanfona e ensaiou os primeiros passos de dança. Ele nos contou sobre o Terço de São Gonçalo. “É um terço dançado, é para frente e para trás, para frente e para trás. Não pode rir e nem chorar, não pode ignorar, tem que haver respeito. O embaixador dança e os outros acompanha”, explicou.
Ouvimos do casal que a Tradicional Festa de Agosto, hoje o principal evento turístico do município, era comemorada de outra maneira. “A gente vinha de carro de boi, trazia quitanda colchão e tudo. Todo mundo que morava na roça passava seis dias aqui na cidade rezando para São Tomé”, recordou.
Seu Jaci finalizou a agradável conversa lembrando a São Thomé de outros tempo. “Aqui era diferente, não tinha luz. Era tudo pedra solta, os sapatos vivia tudo desgastados nas pontas de tanto a gente topar nas pedras”.
Quinta parada – 18h10 – Escritório de seu Tatá


Não podíamos sair de São Thomé sem falarmos sobre o misticismo que paira no ar da cidade. Neste instante fomos instruídos a buscar informações com Oriental Luiz Noronha, mais conhecido como Seu Tatá, um senhor de 70 anos que não aceita ser chamado de ufólogo, mas sabe tudo a respeito de discos voadores.
Nascido em Cruzília, o estudioso veio para São Thomé pesquisar arqueologia e historia há 43 anos. Autodidata com livros publicados, seu Tatá conta a história de que São Thomé foi descoberta por um escravo fugido da Fazenda Campo Alegre chamado João Antão. Este foi se esconder em uma gruta, onde encontrou inscrições e símbolos que pareciam letras e uma imagem de São Thomé. Daí o nome de São Thomé das Letras.
Seu Tatá garante que em São Thomé são vistos constantemente objetos voadores não identificados, inclusive revela que é possível avistá-los tanto durante o dia quanto à noite.
O estudioso finalizou destacando que a economia local não depende das pedreiras, como alguns pensam, mas sim do turismo, que começou na década de 80 com a chegada dos primeiros hippies. Atualmente, segundo seu Tatá, a atividade turística é mais seletiva, ou seja, o município recebe visitantes com maior poder aquisitivo.
A noite de sexta-feira nos reservava alguns percalços na mística São Thomé. Fomos a um barzinho em busca de uma boa música e uma noite agradável. No entanto, fomos surpreendidos com o furto de nossa maquina fotográfica, o que nos desmotivou a fazermos no sábado (como havíamos programado) um encontro com um senhor que trabalhou a vida inteira na extração de pedra.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Expedição do Patrimônio Vivo - Dia 1 - Três Pontas


Andressa Iza Gonçalves, Paulo de Morais, Sandra Maura Coelho. Fotos: Sansão Bogarim.
A terça-feira mal começara e já estávamos com o pé na estrada. Saímos de Três Corações por volta das 7h15 . Lá pelas 8h, saímos de Varginha e entramos no trecho que liga a cidade a Três Pontas. A placa já indicava que íamos chegar na cidade do café e as plantações a perder de vista confirmavam a informação. Foi inevitável, e pode até ser psicológico, mas naquele momento dava pra sentir o cheiro do café no ar. Tudo inspirado pelas belas paisagens que a estrada sinuosa, cercada de cafezais, montanhas e casarões históricos de fazendas, nos proporcionava.
Primeira parada – Fazenda Pedra Negra e Museu do café – 8h50



O que era apenas uma primeira impressão, foi se revelando em sua essência a partir do momento em que desambarcamos na Fazenda Pedra Negra. Fomos recebidos pelos proprietários Izaura Maria de Resende e Gustavo Roberto Casas. Izaura é herdeira da fazenda, que foi inaugurada pelo avô Domingos Monteiro Resende em 1890. Ele é argentino de Buenos Aires e largou a profissão de engenheiro eletricista para trabalhar com a fazenda. Os dois se conheceram em Salvador.
Com uma chave de ferro que por si só parecia guardar toda a história a ser desvendada, Gustavo abriu as portas do Museu do Café. Trata-se de um antigo armazém de beneficiamento que ganhou, em seu interior, uma coleção de objetos e utensílios que, juntos, remetem a toda a linha de produção do café, desde o plantio até a mesa de casa. Painéis explicativos esmiuçavam a memória da fruta que no início do século passado era o principal produto de exportação brasileiro e que até hoje é o motor da economia regional. Segundo Gustavo, o museu foi uma iniciativa do casal, que virou realidade graças a doações de amigos. “Hoje, nossa fazenda é um museu vivo. Este tipo de ambiente encanta os visitantes da cidade grande. Eu recebo aqui principalmente paulistas e muitos estrangeiros também. Tem aqueles que vem não como turistas, mas como negociadores de café”, contou o empresário.



Da saída do museu, ouvimos vozes femininas vindas do cafezal. A curiosidade nos guiou até onde elas estavam. Lá conhecemos Claudinéia Carola Girondelli, 36 anos, catadora de café desde os 17, conhecida como Néia. Ela conta que a época da panha é a única do ano em que ela e a família têm emprego. O que eles ganham com a colheita, em torno de 20 reais por dia, é poupado durante todo o restante do ano. Normalmente, o trabalho começa em maio e termina em agosto. “Este ano, as chuvas começaram atrasadas e por isso a safra vai ser menor”, comentou.

Dali partimos para conversar com a companheira dela, Marizete Ferreira Vasco, de 52 anos. “Hoje a gente nem traz mais menino pra cá. Minha mãe também catava café e trazia os filhos todos no balaio aparador pra acompanhar. Aí ela tinha que cantar o tempo todo pra acalmar os meninos”, lembrou. Neste momento, Néia nos convidou para conhecer o pai dela, seu Antônio Pereira Carlota, de 74 anos, que mora ali mesmo na fazenda. Catador de café desde os onze anos e viúvo há três, ele nos contou muitos causos dos tempos idos, enquanto enrolava um cigarro de palha no sofá de casa. “No baile do meu casamento, meu sogro ofereceu pinga pra todo mundo. Naquele tempo, o forró era só com sanfoneiro e durava até o sol raiar. Quando era de manhã, o pessoal começou a ir embora. Eu lá ia com eles quando me lembraram era eu que tinha acabado de casar”, recordou o ex-catador, arrancando risadas de todo mundo.
Segunda parada – Art Café Design – 11h

Saímos da fazenda de alma lavada e com a bateria carregada para continuar a Expedição. Começamos com o pé direito. Fomos conhecer a empresa Art Café Design. Quem nos recebeu foram os irmãos Gustavo e Marcelo Vilela Boechat e Carolina Garcia Diniz, que estavam em plena produção de artesanato. A técnica que eles usam tem como matéria-prima a palha do café, que é rejeito da produção, e foi criada pelas mães deles. “Nosso artesanato é sustentável, porque a palha ia ser jogada fora de todo jeito. Além disso, o trabalho ainda gera emprego para umas 20 pessoas no bairro”, conta Marcelo, que vende parte da produção em feiras fora do Estado e já chegou até a exportar algumas peças.
Terceira parada – Casa de Cultura – 13h30



Depois de um almoço revigorante e uma rápida parada no hotel, chegamos na Casa de Cultura da cidade. A turismóloga Keiry Mariano nos apresentou o diretor do Conservatório Municipal de Música Heitor Villa Lobos, Clayton Prosperi de Paula. A entidade completou este anos duas décadas de fundação e conta com cerca de 400 alunos em cursos de flauta doce, flauta transversal, piano, teclado, saxofone, canto, bateria, violino e violão, além de manter uma orquestra experimental com 60 integrantes.
À medida em que Clayton nos contava sobre o panorama musical, pudemos perceber o quanto se trata de uma tradição riquíssima da cidade. E não dá para falar desse assunto em Três Pontas sem falar do filho mais ilustre da terra, Milton Nascimento, que veio para o município ainda criança e encontrou uma forte tradição familiar ligada à música. Clayton apontou as famílias Tiso, Schiavon e Prosperi como exemplo de pessoas que formaram o ambiente musical efervescente. “A família Tiso, por exemplo, sempre homenageia seus familiares mortos fazendo uma serenata, uma vez por ano, em frente ao cemitério”, contou o professor. Sim, este Tiso a que Clayton se refere é mesmo do compositor e arranjador Wagner Tiso, companheiro do Milton Nascimento no saudoso Clube da Esquina.
Keyre nos apresentou também o senhor Paulo Costa Campos, ex-bancário e professor de matemática e contabilidade, que se apaixonou pela história de Três Pontas quando começou a investigar as origens de sua família. Aos 83 anos e com uma memória invejável, tornou-se historiador pela paixão e conta histórias da cidade com uma precisão matemática. “O povo comemora o aniversário da cidade como se fosse em 1857, mas na verdade ela começou quando foi publicada a provisão do bispado de Mariana para a construção da capela de Nossa Senhora D’Ajuda de Três Pontas, em 5 de outubro de 1768”, explicou o professor, que se $revelou uma enciclopédia viva.
Quarta parada – Memorial do Padre Victor - 16h20



“Três Pontas é cidade da música, do café e da fé”, comentou Keyre enquanto nos acompanhava até o Memorial Padre Victor. Quem nos apresentou o local foi a professora de história Maria Rogéria de Mesquita, de 74 anos, que cresceu ouvindo histórias de admiração da família pelo pároco que ficou conhecido como milagroso. “O meu avô foi sacristão na época do Padre Victor e por isso a devoção veio de família”, contou. O memorial, criado e mantido pela associação da qual Maria Rogéria é voluntária, é a principal referência dos romeiros que visitam a cidade especialmente no dia 23 de setembro, data da morte do padre. Ela foi peça fundamental para o processo de beatificação do religioso, ao participar das pesquisas que foram feitas na cidade para registro de graças e milagres, tratados hoje como sigilosos.
Quinta parada – Casa do senhor José Dias dos Reis – 18h30

Seu José tem Reis até no nome. Figura típica do folclore local, Seu Dias, como é conhecido, é embaixador da mais tradicional companhia de Folia de Reis da cidade, a Folia da Família Dias. Ele nos contou que quem fundou a companhia foi seu bisavô Joaquim Dias, que a passou para seu avô, Antônio Dias, que, por sua vez, a passou para seu pai e tios. Seu dias estampa um sorriso de admiração e orgulho a cada frase que conta sobre a tradição. “É muito bonito! É bonito!”, repetia a cada verso que recitava. “Louvado seja meus Deus, menino de Deus nascido, no ventre da virgem pura, nove meses andou escondido. Maria mãe de Deus, moça pura e de fé, vivia entre as montanhas, na vila de Nazaré. Ela é a mãe de Deus, de São José é adotivo, no dia 25 de março, o rei encarnou vivo”.
Depois de muita prosa, nos despedimos às 19h10. Saímos dali com a sensação de dever cumprido e certos de que há muito patrimônio vivo a ser descoberto em Três Pontas. Viemos para o hotel, onde ficamos até 0h47 redigindo esta primeira anotação do diário de bordo. Não perca amanhã neste mesmo blog o relatório da expedição em Carmo da Cachoeira.