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terça-feira, 5 de agosto de 2008

Expedição do Patrimônio Vivo – 10º Dia – Luminárias (MG) – Circuito Vale Verde e Quedas D’Água


Último dia de Expedição. Em parte cansados pelos 10 dias incessantes de pesquisa e, por outro lado, satisfeitos pelo bom resultado do projeto, saímos em busca de mais patrimônio vivo. O trabalho agora é em Luminárias, cidade de 5.350 habitantes, cujo nome é atribuído a pontos luminosos avistados na serra que circunda a cidade. A padroeira é Nossa Senhora do Carmo e o município é integrante do Programa Estrada Real. Quem nos contou esses detalhes foi o chefe do Departamento de Turismo e Cultura da cidade, Lincoln Daniel de Souza, um dos principais entusiastas do ecoturismo na região.
Quem nos indicou algumas pessoas para conversarmos foi a filha do nosso fotógrafo oficial, Maria Bogarim, que é enfermeira na cidade. Ela lembrou de seu vizinho, que até hoje faz fumo de rolo no quintal de casa. Fomos até lá conferir.
Primeira parada – 10h – Casa de seu Nico

Antônio Ferreira Mafra Filho, o seu Nico, é natural de Luminárias. Nasceu em 8 de fevereiro de 1932 numa fazenda chamada Lagoa. Assim que adentramos no quintal da casa dele, pudemos ver a quantidade enorme de folhas de fumo amontoadas sobre um pedaço de lona e três rolos enormes maturando sob o sol, o que indicava que a produção ali corria a todo vapor. Pedimos, então, pra que ele explicasse como funcionava o processo de fabricação artesanal, e ele foi logo adiantando: “pra dar um fumo bão, tem que plantar em terreno novo. Lugar de terra velha (muito plantada), não dá um fumo bão”.

Por aí, a conversa já demonstrava que estávamos diante de um produtor com o controle de qualidade aguçado. Com as mãos manchadas pelo manuseio, Seu Nico nos contou que, para a colheita das folhas, é necessário plantar os pés com a distância de meio metro entre cada um. Quatro meses é o tempo mínimo para retirar as folhas. A partir daí, o produtor tem que cortar o pé inteiro (a segunda colheita não é tão boa), colher as folhas, pendurá-las numa espécie de varal de bambu e deixar secar durante cerca de uma semana.


Então, é preciso tirar a tala central da folha. O que sobra vai para a roda de cochar fumo. “É até um servicinho maneiro de fazer. Vai rodando, rodando, e faz as cordas. Das cordas, a gente faz o novelo no burro (espécie de vara de madeira sustentada por um suporte e uma manivela para enrolar o fumo) e deixa no sol pra maturar”, explicou seu Nico. Cada novelo fica em torno de três meses tomando sol, e o mel do fumo é o responsável por dar a coloração escura. A partir daí, o produto já pode ser fumado, mas seu Nico prefere guardá-los em sacos plásticos por mais tempo (às vezes, chega a dez meses), para dar um melhor sabor.


Seu Nico nos contou que existem mais de 10 qualidades de fumo de rolo: gamelão, araçá, fumo de cheiro, língua de vaca e almeirão são alguns exemplos. Antigamente, havia vários produtores locais. Hoje, segundo seu Nico, quase não há mais quem se dedique ao serviço. Os clientes são todos da cidade, que pagam 30 reais pelo quilo do fumo curado. Há até alguns anos, compradores de cidades vizinhas apareciam para levar todo o estoque e revender, mas o cigarro de papel (industrial) vem acabando com a tradição dos produtores artesanais de fumo.

Esta época do ano, por causa do tempo seco, é ideal para a produção. Quando chove muito na estação, o fumo nasce mais fraco, o que não é do agrado de Seu Nico. Terminada esta parte da explicação, o produtor nos mostrou como enrola um cigarro de palha. “Tem que escolher uma palha clarinha, não pode ser de fora do milho, tem que ser uma palha do meio”, disse. Seu Nico tirou um pedaço de rolo que estava guardado há dois anos e picou alguns pedaços com um canivete afiado para enrolar. Ele nos ofereceu para experimentar e demos algumas pitadas para conferir o resultado. Nos despedimos satisfeitos com a dedicação do produtor e saímos para a próxima conversa.
Segunda parada – 11h08 – Casa de seu Delfino Diniz

O que nos trouxe à simpática casa desse senhor foi a curiosidade por mais uma tradição que os tempos fizeram sumir: a caça, atualmente proibida por lei. Seu Delfino Diniz nasceu em 15 de agosto de 1945 na fazenda do Mirante, em Luminárias, e é filho de Odilece Junqueira Diniz e Lana Lopes Diniz. Desde a infância, acordava às cinco horas da manhã para ajudar na tarefa de tirar leite.
Ele conta que o esporte da caça é uma tradição que começou com o avô, que passou para o pai, com quem ele aprendeu a gostar. Nos tempos em que a atividade ainda persistia, os colegas se reuniam a cavalo e saíam com cerca de 30 cachorros ao todo. Seu Delfino demonstrou preocupação em deixar claro que eles não matavam os animais que encontravam, normalmente pacas e veados. “A gente não levava nem um canivete. Se a gente matasse os bichos, ia acabar a nossa diversão do dia seguinte”, comentou. Iam de seis a oito caçadores, que levavam café e algumas quitandas para comer. A satisfação era ver a arruaça dos cachorros, e quando avistavam algum veado, afastavam os cães e liberavam a caça.

Seu Delfino reconhece que o número de animais silvestres caiu vertiginosamente na região, porém sustenta que isso é resultado da ação de agrotóxicos usados por fazendeiros nas plantações. Ele lembra que não é mais possível caçar devido à ação da polícia florestal, que, caso perceba o caçador acompanhado dos cachorros, já tem motivos para aplicar uma bela multa.
Perguntamos sobre causos engraçados dos tempos de caçador e ele nos brindou com uma lenda do folclore local. Um certo padre era adepto da caça e, num belo dia, resolveu sair com os colegas para uma boa diversão. Para surpresa geral, um capiau resolveu interpelar o pároco enquanto o grupo atravessava um pasto, querendo aproveitar a situação para se confessar ali mesmo. Sem ter como negar, o padre o levou para um cupim, onde iniciou os procedimentos eclesiásticos. Enquanto o matuto listava seus pecados, o padre observava de rabo de olho a movimentação dos cães. Estes, por sua vez, começam a ficar agitados, denunciando que uma presa estava por perto. De repente, os chifres de um veado surgem por detrás de uma moita e o pároco, na inocência, fala: “se adianta aí que o chifrudo está vindo!”. O capiau, com medo, foge como uma espoleta, pensando que se tratava da aparição da besta.
Depois de mais algumas risadas, nos despedimos de seu Delfino e seguimos para um agradável almoço na pousada Serra da Luz.
Terceira parada – 14h37 – Antiga casa de Messias Furtado Sobrinho (Sinhô)

Para encerrar com chave de ouro, fomos até uma das poucas casas antigas que ainda resiste ao tempo no centro histórico de Luminárias. Lá encontramos Terezinha Aparecida Furtado, de 64 anos, uma fervorosa devota de Santo Antônio e apaixonada pelas histórias locais. Tetê, como é conhecida, é filha de Messias Furtado Sobrinho e Maria do Carmo Silva. O pai foi seleiro, e trabalhava com encomendas de fazendeiros da região. Durante muitos anos, ele ainda foi regente da mais tradicional da cidade, a Banda Carmelitana, fundada em 1896. A mãe, dona de casa, teve nove filhos, todos nascidos na casa onde estávamos, pelas mãos de parteiras.
Emocionada, Tetê nos contou sobre a Tradicional Festa de Santo Antônio, comemorada ininterruptamente desde a década de 50, todo dia 13 de junho. “Toda a vida mamãe teve muita fé. A minha avó Marica já contava para ela desde pequena histórias sobre Santo Antônio e ela contava para a gente. Ao invés de contar historinhas de princesas, mamãe contava a vida de Santo Antônio. Então desde pequenininha eu também tenho muita fé, e passo isso para os meus netos.”
Segundo Tetê, as primeiras festas aconteceram na porta de sua casa. O fiéis rezavam o terço e as crianças ganhavam canjica e brincavam ao redor da fogueira. “Depois que o padre Waldyr chegou, ele sempre incentivou minha mãe a fazer a festa, que continua até hoje. Quando mamãe morreu eu comecei a tomar conta. E a festa está cada dia mais bonita.”
A tradição de rezar o terço em homenagem a Santo Antônio ganhou força e hoje acontece, religiosamente, toda terça feira. No início, sem telefone para avisar os vizinhos, Dona Maria do Sinhô saía na rua batendo panela. Esse era o sinal de que estava na hora do terço. Apesar de devota, a mãe de Terezinha era cautelosa na hora de apelar para o santo. “Quando sumia alguma coisa aqui em casa a gente já ia acendendo uma vela para Santo Antônio, mamãe falava: não incomoda o santo com coisa pequena!”, lembra, saudosa.

Outra tradição mantida por Tetê são as coroações de Nossa Senhora do Carmo, anualmente realizada com crianças da comunidade. O ritual teve origem com a primeira professora da comunidade, Judith Amália Fábregas, que depois passou a responsabilidade de ensaiar as crianças para Dona Maria do Sinhô. Esta por sua vez entregou os ensinamentos para sua filha, Tetê, que já os transferiu para uma professora do município, Amália Amaral.
Encerramos a conversa com um breve comentário sobre os dias de hoje. “Eu tenho dificuldade de reunir as meninas, porque a maioria diz que não tem tempo para isso. Mas eu vou na praça e vejo elas de beijo e abraço com os namoradinhos. Deste jeito, não tem com ter tempo mesmo, né?”, disse, rindo.
Com essas palavras, terminava a Expedição do Patrimônio Vivo. Ficamos por aqui na certeza do dever cumprido e na expectativa de que os relatos tenham servido para provocar em todos que nos acompanharam alguma reflexão sobre as mudanças acontecidas nas últimas décadas. Nos despedimos honrados por termos encontrado pessoas tão iluminadas que, por força de vontade, conseguem manter vivo o nosso patrimônio cultural nos tempos modernos.

sábado, 2 de agosto de 2008

Expedição do Patrimônio Vivo – 9º Dia – Ribeirão Vermelho e Lavras – Circuito Vale Verde e Quedas D’Água


O penúltimo dia da Expedição começou em Lavras, mas tínhamos a missão de conhecer histórias da vizinha Ribeirão Vermelho. Tínhamos o período da manhã para registrar o município. Depois de tantos dias percorrendo exclusivamente estradas de terra, nosso percurso agora é asfaltado. Por uma estrada cheia de curvas, chegamos em minutos à ponte que dá entrada à cidade. Trata-se de uma ponte de ferro que atende simultaneamente aos carros e ao trem da rede ferroviária. O nome do município vem do tempo dos bandeirantes, devido a um confronto entre a bandeira de Fernão Dias com os índios Cataguases, que tingiu o rio de sangue.


Logo que atravessamos a ponte, nos deparamos com um imponente patrimônio material já desgastado pelo tempo e pela inatividade: quatro galpões abandonados e uma rotunda, que, segundo moradores locais, é a maior da América Latina.

O edifício da estação nos chamou a atenção por estar bem conservado, destacando-se do restante dos prédios. Lá funciona uma escola de confecção de roupas, um bar e um telecentro da prefeitura. Em frente à estação fica a Maria Fumaça, onde nos reunimos com alguns moradores locais. Perguntamos sobre quem poderíamos entrevistar para colher memórias dos tempos em que o trem de ferro rodava a pleno vapor. Quem nos atendeu foi Arakém Frágoas, que de prontidão garantiu que quase todo mundo na cidade é ex-funcionário da rede ferroviária. Ele disse que a cidade tem planos para revitalizar a rotunda e que estão sendo feitos projetos para tal. Muito solicitamente, ele nos conduziu à casa de seu Vicente Ferreira Filho, aposentado da Rede.
Primeira parada – 10h – Complexo Ferroviário de Ribeirão Vermelho (MG)

Buscamos seu Vicente Ferreira Filho, de 87 anos, numa pracinha local, onde conversava com amigos. Sugerimos fazer a entrevista em frente à Maria Fumaça, por causa do cenário para as fotos. Ele começou a conversa contando que nasceu num distrito de Perdões chamado de Santos Dias, onde havia uma estação de trens de passageiros e carga, distante nove quilômetros de Ribeirão Vermelho. Uma peculiaridade nos chamou a atenção: ele nos contou que só descobriu o verdadeiro nome do pai aos 17 anos, quando foi ao cartório se registrar para poder ingressar no exército. “Todo mundo chamava meu pai de Vicente Nazário, porque meu avô chamava Nazário. Só no cartório descobri que meu pai chamava Vicente Ferreira”, lembrou.
Filho de pai lavrador, seu Vicente trabalhou muitos anos na roça. Chegou a estudar na escola do local onde nasceu e, aos 17 anos, mudou-se para São João Del-Rey, onde morou um ano para servir ao exército. Depois, voltou para Santos Dias, onde continuou ajudando o pai na lavoura. Convivendo com o ir e vir de trens, seu Vicente resolveu pedir emprego na rede ferroviária. Em 1942, foi contratado para trabalhar na turma de manutenção da rede permanente, formada por quatro trabalhadores e um feitor (chefe). Trocavam dormentes, consertavam trilhos, acertavam parafusos.

Vencido o contrato de um ano, ele ficou oito meses ajudando nas tarefas da roça. Voltou para a rede como guarda-chaves, responsável pela chave que altera o trilho que define a direção por onde o trem vai seguir. Esse ofício já não existe mais, pois a operação é toda automatizada. Trabalhou ainda na tração, como foguista – responsável por jogar lenha na fogueira das locomotivas a vapor – no trecho entre Barra Mansa (RJ) e Minduri (MG). Seu Vicente conta que ficou apenas seis meses na função, pois achou o serviço muito pesado. Foi, então, transferido para Ribeirão Vermelho em 1945, onde começou ocupando a função de ferreiro da oficina. Aposentou-se em 1971, na função de supervisor da seção de oficina.
“Aqui na estação era muito bonito, muito animado e movimentado. Pra virar a locomotiva, tinha que colocar na rotunda. Punha ela em cima do girador, ele tinha na ponta umas alças, e o trilho girava. Era pesado, uma pessoa girava com dificuldade, e duas dava pra fazer”, contou seu Vicente, lembrando que uma locomotiva pesa em torno de 80 toneladas. Ele nos relatou ainda de quando havia enchentes no local, que fica às margens do Rio Grande. “Nós víamos que ia dar enchente e tiramos todo o material da estação. Uma vez, só o teto da estação ficou de fora da água”, recordou.
Seu Vicente encerrou a conversa lembrando dos antigos prédios que faziam parte do entorno da estação. “Tinha o prédio de iluminação, com os dínamos, o restaurante, o consultório médico, o dormitório dos funcionários, a carpintaria. Já derrubaram outros dois galpões, um da ferraria e outro da oficina de reparo de vagões”, comentou. Por fim, disse que ficaria muito feliz se os edifícios fossem restaurados, pois tem muita saudade de como era o local. “Eu era feliz e não sabia”, finalizou.
Segunda parada – 13h20 – Museu Bi Moreira – Lavras (MG)

Depois da breve passagem por Ribeirão Vermelho, voltamos a Lavras para conhecer alguém que pudesse nos contar da história do município. Fomos até o Museu Bi Moreira, localizado no campus da Universidade Federal de Lavras (UFLA). Conhecemos o administrador do local, Ângelo Alberto de Moura Delphim. Conforme ele nos contou, o povoado de Lavras teve início entre 1720 e 1729 por bandeirantes, quando ganhou o nome de Campos de Santana das Lavras do Funil, dado por Fernão Dias. Seu Ângelo disse que todo povoado fundado por bandeirantes tem Santa Ana como padroeira. O nome Lavras do Funil faz referência ao rio, que tem um estreitamento lembrando um funil, e às lavras de ouro do local.
Seu Ângelo se mostrou um preciso conhecedor da história local. Por ele, ficamos sabendo que no local havia duas igrejas: uma, em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, e outra, em homenagem a Santa Ana. A primeira foi demolida para obras de urbanização, sendo que a outra passou a ser dedicada a Nossa Senhora do Rosário, apesar de ainda resguardar pinturas de Santa Ana.
A respeito da tradição da cidade em educação (Lavras é conhecida como terras das escolas), seu Ângelo conta que um grupo de americanos trouxe para a cidade o Instituto Gammon, que havia fundado em Campinas (SP), de onde fugiram por causa da febre amarela. O mesmo grupo fundou, em Lavras, a Escola Agrícola, em 1908, que deu origem à atual Universidade Federal, com a iniciativa de federalização tomada pelo então primeiro-ministro Tancredo Neves, na década de 60. Depois, foi implantado o Colégio de Lourdes pela igreja católica, receosa com o crescimento do protestantismo no município, uma vez que o Gammon é ligado à igreja presbiteriana.
Formado em Letras, seu Ângelo sempre foi interessado na história de Lavras e, na juventude, ficou conhecendo Bi Moreira, secretário do diretor da UFLA, Benjamin Hunnicutt. Bi Moreira “sempre tinha mania de juntar coisas”. “Todo mundo dava peças e objetos para ele. Quando ele acordou, tinha um acervo muito grande. Ele tinha resolvido vender as peças, mas a ESAL (Escola Superior de Agronomia de Lavras) resolveu encampar o acervo e a inauguração oficial do museu aconteceu há 25 anos”, contou seu Ângelo, que desde o início, vem ajudando nas atividades da instituição.
Quando perguntamos sobre os tempos de antigamente, ele comentou sobre as procissões de Corpus Christi. “Antigamente, as coisas eram mais pitorescas. As procissões tinham muita pompa. O padre era segurado pelas pessoas mais importantes. O povo rezava para chover na hora em que o santo estivesse passando na porta de sua casa, porque era uma honra para o morador se o santo entrasse na casa”, comentou. Ele ainda nos contou que as alas da procissão eram muito bonitas: ala das virgens, formada por crianças vestidas de anjo, com cartuchos cheios de doce e enfeitadas; a ala do Sagrado Coração de Jesus; a do Sagrado Coração de Maria; a do Apostolado da Oração; a dos Congregados Marianos; a das Filhas de Maria.
Nesta época, Lavras tinha dois bondes no centro da cidade, um chamado Lupa e o outro Cupa. “O povo brincava que enquanto o Lupa sobe, o Cupa desce”, brincou. Para finalizar, perguntamos sobre ofícios antigos. Seu Ângelo comentou sobre Seu Brasilino, cuja função na comunidade era exclusivamente matar gambás. Encerramos a conversa com um passeio pelo museu Bi Moreira e ficamos conhecendo o impressionante acervo do local.
Terceira parada – 15h31 – Casa do senhor Luiz Teixeira da Silva – Lavras

O que nos levou à casa deste simpático senhor de 86 anos foi um desenho em nanquim que tínhamos visto na sala de seu Ângelo, na parada anterior. Decidimos ir até a casa de seu Luiz, e, até então, pensávamos que era apenas um retratista de paisagens antigas da cidade. A conversa, entretanto, nos revelou muito mais a respeito desta intrigante personalidade local.
Seu Luiz começou a conversa lembrando a casa simples onde nasceu, na época, uma das poucas da rua. A primeira lembrança da infância é de quando a mãe o levou para assistir a um filme mudo projetado no muro de uma casa. Ele disse ter ficado impressionado com as cenas da primeira guerra mundial, que mostravam soldados marchando, parecendo prisioneiros.
O pai, Joaquim Teixeira da Silva, era seleiro, trabalhava sob encomenda para fazendeiros da região, além do tocar na Banda Municipal de Lavras. Fazia arreios novos e consertava. Seu Luiz conta que começou a aprender o ofício com o pai, mas a vida lhe reservava outros caminhos. A selaria do pai começou a ver o movimento diminuir quando surgiu na região a primeira fábrica de arreios. Enquanto o pai demorava uma semana para produzir uma sela, a fábrica produzia doze vezes mais. Devido ao estilo mais conservador, seu Joaquim não cedeu às novidades e continuou produzindo sob encomenda, trabalhando para clientes que gostavam da qualidade do serviço artesanal.
Quando era jovem, seu Luiz arrumou emprego no comércio, e em alguns anos virou sócio de uma loja de móveis, ao lado de um imigrante judeu-polonês, o ex-mascate Perec Pinkus Przytyk, conhecido na cidade como Paulo Perek. Antes mesmo de entrar para o comércio, já desenhava. “Tinha dom para o desenho”, lembrou. O primeiro trabalho que ganhou destaque foi a série de histórias em quadrinhos em 17 capítulos Gregório vae a lua (sic), publicada em 1939 pela Revista Mirim, do Rio de Janeiro. Na época, a Mirim era uma das poucas publicações que dedicava espaço aos quadrinhos, uma vez que os intelectuais da época eram contra este tipo de arte.

A conversa nos revelou que estávamos diante de um dos primeiros quadrinistas do Brasil, o que jamais imaginávamos. Ele nos contou que tinha muita dificuldade em publicar suas histórias porque batizava seus personagens com nomes populares, tais como Celso, Oscar e Vicente, inspirados nos amigos de Lavras. Os editores de revistas da época, entretanto, insistiam que heróis deveriam ter nomes americanizados, como Bill e Dick. Outro detalhe que nos chamou atenção foi o fundo moral que as histórias tinham. Na série O sonho de Gregório, por exemplo,o personagem principal, após roubar o cofre da loja onde trabalhava, sonha que morre e, depois de ser julgado por um anjo vestido de soldado, volta à Terra na forma de um micróbio. Então, Gregório é atropelado por um carro, acorda e, constrangido, resolve devolver o dinheiro ao patrão. “Minhas histórias eram cheias de moral, acho que é porque, na época, a educação dos pais era muito presente”, comentou.
Seu Luiz deixou as histórias em quadrinhos de lado e, tempos depois, passou a desenhar pessoas e retratos falados de casarões demolidos. Hoje ele tem pinturas e desenhos espalhados por toda Lavras e dois filhos que compartilham do mesmo dom. Autodidata, seu Luiz já deu aulas de esperanto e se comunica nessa língua com pessoas do Brasil e do mundo. Colecionador de selos, foi dono de uma filatélica (loja de selos antigos). Atualmente se dedica à produção de artesanato, fazendo caixas para presentes e caleidoscópios.
No ano 2000, resolveu deixar para os filhos o legado de sua criatividade, lançando dez exemplares da coletânea “Minhas Coisas”. Oito anos depois já pensa em lançar “Minhas Coisas 2”. A conversa esticou noite adentro. As histórias nos fizeram perde a noção do tempo. Poderíamos ficar ali a noite toda, se não tivéssemos ainda outra visita para fazer. Nos despedimos satisfeitos por termos encontrado um legítimo patrimônio vivo.
Quarta parada – 18h10 – Casa da benzedeira Albertina Oliveira Venâncio

Tínhamos visitado a casa de dona Albertina ainda pela manhã, antes do almoço. Entretanto, o movimento era enorme e, sabendo que não teríamos tempo de esperar, resolvemos voltar no fim da tarde. Encontramos a benzedeira muito cansada, pois o dia tinha sido de muitos atendimentos. Ela chega a atender até cem pessoas por dia, em sua sala montada nos fundos de casa. Hoje com 76 anos, ela nos contou que herdou o ofício do pai, Éverton Zacarias de Oliveira, que benzia vizinhos e amigos e receitava plantas medicinais.
Ela contou que o dom se manifestou aos 33 anos, quando rezava o terço com um filho. Disse que os dois ficaram mudos de repente, e que neste momento avistou um pássaro cheio de luz, o que a deixou com medo. Desde então, assumiu a responsabilidade de benzer as pessoas. Não alongamos a conversa, pois vimos que dona Albertina estava exausta. Ficamos na promessa de voltar um dia para recebermos a bênção e batermos um papo.
Seguimos, então, para Luminárias, para onde fomos concluir a Expedição do Patrimônio Vivo. Acompanhe o último dia do projeto nesta terça-feira.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Expedição do Patrimônio Vivo – 8º dia – Bom Sucesso (MG) – Circuito Vale Verde e Quedas D’Água

Andressa Iza Gonçalves e Paulo de Morais. Fotos – Sansão Bogarim.
Texto concluído às 23h.


A quinta-feira começou quando saímos de Lavras, por volta das 8h30, com destino a Bom Sucesso. Preferimos um caminho alternativo, evitando a estrada asfaltada que passa por Ijaci e Macaia. Ouvimos falar de uma balsa que atravessa o lago do Funil, em Ijaci, e que dali poderíamos seguir por estrada de terra até Bom Sucesso. Fomos pedindo informação às pessoas que íamos encontrando em Ijaci e passamos novamente pela ponte de ferro que tínhamos atravessado ontem. Algumas pessoas que encontramos no caminho informaram que a balsa estava emperrada, mas fomos teimosos e resolvemos tentar a sorte. Chegamos no local da travessia e a informação era mesmo verdade. Ficamos uns 20 minutos esperando e não houve qualquer movimentação do outro lado do lago.




Então, voltamos no sentido de Ijaci e um morador local nos informou sobre uma balsa particular que poderia nos ajudar a atravessar o lago. Chegamos ao local indicado, um condomínio fechado com várias casas de veraneio em construção. Avistamos a balsa do outro lado do lago. Após buzinarmos e gritarmos, o senhor Amado Domingos da Silva, de 32 anos, que trabalha na Fazenda da Barra, nos deu uma agradável carona de balsa. Durante a travessia, puxamos papo com seu Domingos, como é chamado. Ele nos contou sobre como era o local antes do enchimento do lago. Disse que algumas casas foram transferidas do antigo distrito de Pedra Negra, que ficava em Bom Sucesso, para Ijaci. Depois da travessia, pegamos a estrada de terra que vai até a cidade de Ibituruna, de onde seguimos por asfalto até Bom Sucesso.

Primeira parada – 11h44 – Prefeitura Municipal de Bom Sucesso
Chegamos ao prédio da prefeitura e encontramos o senhor José Estadeu dos Santos, que, muito solicitamente, nos contou a história do prédio histórico de dois andares que hoje abriga a administração municipal. Ali funcionou, durante muitos anos, uma cadeia. Por isso, as paredes do local têm 80 centímetros de largura, o que nos impressionou. Ele nos levou até o auditório, uma ampla sala muito bem equipada, e, mostrando a galeria de ex-prefeitos, foi logo dizendo. “Aqui estão as fotos de todos os ex-prefeitos. Hoje, só tem dois vivos. O povo fala que depois das seis eles chegam pra trabalhar. É só colocar a foto na parede, que morre mesmo”, completou, sorrindo. Seu José Estadeu nos contou que Bom Sucesso já teve o nome de “Campanha de Trás da Serra de Ibituruna do Rio Grande Pequeno”.

Após uma saída para o almoço, voltamos à prefeitura, onde encontramos o senhor Rômulo Almeida (foto), funcionário da secretaria de Educação e Cultura, e David Carneiro, secretário de turismo. Juntos, os dois nos contaram sobre a história do município. A cidade teve início quando, em 1736, o então governador de Goiás, Antônio Luís de Távora, passava pelo local para resolver uma rixa entre mineradores. Sua esposa, grávida, começou a sentir as dores do parto. Eles se arrancharam em uma choupana de folha de pita às margens do Rio Pirapetinga, e o governador prometeu que, caso o parto fosse bem sucedido e a criança nascesse sadia, ele construiria uma capela em homenagem a Nossa Senhora do Bom Sucesso, com uma imagem que traria de Portugal. Ali começou a surgir o arraial, que durante muito foi subordinado ao município de São João Del-Rey.
Começamos a conversar sobre a cultura popular do município, que tem aproximadamente 17 mil habitantes. Eles comentaram que existe na cidade uma tradição muito forte de festas e bailes. Como exemplo, citaram o carnaval, que tem como ápice o desfile do bumba-meu-boi. Neste momento, David não conseguiu segurar a emoção ao se lembrar dos carnavais de antigamente. Comentou-se, ainda, a respeito da religiosidade e da forte presença das manifestações folclóricas da cultura afro-brasileira. Perguntamos a respeito de ofícios antigos e eles nos disseram a respeito de um antigo alfaiate ainda em atividade. Saímos da sala animados para ir a campo atrás de histórias.
Segunda parada – 14h39 – Casa de dona Elza Alves Machado

Chegamos na casa de Dona Elza meio que por acaso. Queríamos conversar com seu Belmiro Machado, filho dela, que mora na casa ao lado e é um dos responsáveis pelo bloco do bumba-meu-boi. Não o encontramos e sua esposa nos indicou dona Elza para contar a história desta bela manifestação folclórica. Quem nos recebeu foi sua filha, Nayara Elza Machado Costa, que manifestou grande entusiasmo com a chegada da equipe. Foi logo dizendo que seria ótimo conversarmos com sua mãe, que estava precisando de uma boa conversa.
Nascida em 16 de setembro de 1923, dona Elza é filha dos fazendeiros Zeferino Viana e Elvina Alves Ribeiro. Com uma memória impressionante, nos contou como era Bom Sucesso nos tempos em que um passeio de bonde até a estação ferroviária custava 400 réis. O que havíamos ouvido na prefeitura a respeito da tradição dos bailes que confirmou na narrativa de dona Elza. “Os bailes no Clube 70 eram muito chiques. Ele tem esse nome porque foi fundado por 70 sócios. Quando tinha baile as moças usavam vestidos longos maravilhosos. Tinha uma orquestra grande, que tocava marchinhas, samba, valsa...”
Logo entramos no assunto do bumba-meu-boi. Segundo Dona Elza, quem deu início à tradição foi seu Emídio, que resolveu fazer uma mulinha de jornal para brincar o carnaval. A brincadeira ganhou fama na cidade e vários seguidores deram continuidade nos anos seguintes. “Nunca mais acabou a mulinha. Só que hoje não faz como antigamente, é com armação de ferro e espuma”, lembrou. Dona Elza contou que as fantasias de boi também são antigas e que também fazem parte do carnaval local. São os filhos e netos dela que organizam o bloco do bumba-meu-boi. Alguns se fantasiam de toureiro, “igualzinho na Espanha. Faz cada roupa bonita. Minha família toda participa do boi e sai os quatro dias de carnaval”, disse.
A conversa seguiu animada e perguntamos a respeito dos tremores de terra que acontecem na cidade. Brincando, dona Elza insinuou que era tudo mentira e, em seguida, contou sobre o tremor mais forte que ela sentiu. “Eu estava estudando em casa, era na parte da tarde. Deu um tremor tão forte, que a mesa da sala deu um pulo e a melancia que estava em cima dela voou e espatifou no chão. Dá uma sensação muito ruim, primeiro um tremor forte, depois vai sumindo. O finalzinho parece esses carros que passam com o som alto e balançam as paredes de casa”, lembrou, sorrindo.
No final, dona Elza lembrou-se de algumas músicas de carnaval. “Esse boi é laranja; ê boi; esse boi é fulano; ê boi!”, cantou. A música da primeira mulinha também veio à mente: “Eu fiz uma mulinha pra brincar o carnaval; o rabo era de mola; e a orelha de jornal”. Depois de boas risadas, encerramos o bate-papo com um agradável cafezinho. Queríamos continuar a prosa por muitas horas, mas ainda tínhamos outras pessoas para visitar. Enquanto ficamos ali, perdemos a noção do tempo. Nos despedimos depois de conhecer a fantasia do bumba-meu-boi que estava no porão e seguimos pelas ruas da cidade.

Terceira parada – 16h16 – Alfaitaria do senhor Deusdete de Castro

Desde o início da expedição, estávamos curiosos por encontrar um alfaiate para conversar. Finalmente, a oportunidade chegou. Encontramos seu Deusdete em pleno serviço. Alfaiate desde os 13 anos, seu Deusdete, atualmente com 70, lembra que iniciou-se no ofício em sua terra natal, a vizinha São Tiago. O pai, José Maria de Castro, era lavrador e não queria que os filhos seguissem a mesma profissão, por considerá-la muito sacrificada. “Ele me pôs numa alfaiataria, do seu Miguel Bernardes de Assis, para aprender o ofício. Comecei como ajudante, fazendo chuleio, para a beirada não desfiar. O ponto do chuleio chama ponto de espinho. Hoje, isso faz com máquina overloque”, contou. Ele nos mostrou o dedal que usa (é furado na ponta, ao contrário do dedal de costureira, que é inteiriço) e disse que, no início, ficou dois meses com o dedo médio amarrado à mão para se acostumar com a posição de trabalho.
Depois de aprender o chuleio, começou a fazer casas para botões. Até hoje, ele faz este trabalho manualmente, e leva cerca de 20 minutos por casa. Quando já estava craque nesta parte, começou a trabalhar com a máquina de costura. Montou calças, casacos, paletós.
Seu Deusdete se lembra com saudades da época em que as encomendas na alfaitaria não paravam de chegar. Nos meses anteriores à festa da padroeira, os pedidos se acumulavam no balcão. Para dar conta do serviço, os alfaiates contavam com vários discípulos, formando praticamente uma linha de produção. Nos dias de hoje, entretanto, os mais jovens não tem paciência para aprender o ofício. “Hoje, o povo não quer saber de trabalhar como alfaiate. No dia em que eu morrer, não vai ficar nenhum em Bom Sucesso. Aqui, tinha mais de cinco alfaiates e hoje, só restou eu”, lamentou.
O alfaiate diz que torce para que a profissão não se acabe, pois ainda existem pessoas que gostam de fazer roupa sob medida. A roupa fabricada industrialmente, segundo seu Deusdete, exige que a pessoa se adapte ao molde da fábrica. Já no caso da roupa feita na alfaiataria, é o molde que se adapta à pessoa.
Ao fim da conversa, seu Deusdete mostrou-se muito agradecido por termos perguntado sobre a profissão que exerce há 57 anos. Ele lembrou que foi a primeira vez em que alguém quis saber detalhes do ofício de alfaiate. “Eu acho que no futuro a profissão de alfaiate vai acabar. Ninguém quer sentar com um alfaiate para aprender. Muitas pessoas não dão valor ao nosso serviço”, comentou. Saímos dali muito felizes por termos proporcionado um momento de alegria a este artista. “A gente tem uma profissão muito cansativa, porque é tudo artesanal. Mas ela foi a minha vida, foi com ela que eu tirei o sustento da minha família”, finalizou.
Quarta parada – 17h08 – Casa de Janot Ribeiro da Cruz

“Nasci aqui na cidade mesmo, meu umbigo está enterrado ali, debaixo de uma mangueira”. Assim começou a conversa com seu Janot Ribeiro da Cruz, de 55 anos, capitão regente do grupo de congado local e presidente da Associação Cultural Afro-Brasileira de Bom Sucesso. Seu Janot, com muita paciência para explicar e sem deixar de pitar um cachimbo, transformou o bate-papo em uma verdadeira aula sobre o congado. Ele nos contou que a festa local começou há mais de 150 anos, quando havia na cidade a Irmandade dos Homens Pretos, que deu início à tradição. Havia uma igreja desta irmandade, cujo zelador era o avô de seu Janot, José Domingos Ribeiro. “Meu avô morreu em 1965 e destruíram em 1967. Se ele estivesse vivo, com certeza a igreja estaria aí até hoje”, lembrou.
A tradição da festa do congado vem da família de seu Janot. O pai, João da Cruz Pereira, era mais adepto da folia de reis. A mãe, Izabel Ribeiro Pereira, hoje com 91 anos, é rainha conga de São Benedito há mais de 40. O reinado é passado de pai para filho, ou de mãe para filha, com a condição de que a pessoa mantenha a tradição. “Hoje está bem difícil manter, porque os mais novos estão perdendo o interesse”, revelou seu Janot, repetindo esta que tem sido uma constante na maioria das conversas da Expedição.
Seu Janot entrou nos detalhes da Festa de Congado, que começa com a alvorada, onde os ternos, ou guardas, saem pela manhã. Eles se encontram onde os mastros são levantados. São três guardas que fazem parte do congado de seu Janot: a de Moçambique, a do Catopé e a do Vilão. A primeira toca caixa, o patangome, campanha (espécie de um chocalho usado nas pernas) e guiso, usado exclusivamente pelo capitão. A guarda do Catopé usa duas caixas, reco-reco feito de bambu, sanfona e pandeiro. O capitão toca tamborim. Já o terno do Vilão é formado por um grupo de 16 pessoas, que se organizam em duas fileiras, e dançam ao som de caixa, tarol e sanfona.
O bastão representa a segurança do capitão. É ele quem determina onde será erguido o mastro. Após a visita aos mastros, os congadeiros visitam o rei e a rainha conga, que oferecem um café.

Seu Janot prosseguiu a “aula” falando da hierarquia do congado. Primeiro vêm a rainha e o rei congo, que homenageiam Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Depois vem o capitão-mor, que organiza a festa a mando da rainha e do rei. Em seguida, vem o capitão-regente, que segue ordens do capitão-mor. E depois vêm os capitães-da-guarda, responsáveis por tocar as guardas. Para incentivar os mais jovens, foram criados os “cargos” de príncipe e princesa congos, de caráter figurativo, com o objetivo de envolver os jovens com a tradição, incentivando a participação.
Ao fim, seu Janot lembrou um dos cantos da Festa do Congado, cantado ao fim das festividades:
Se a morte não me matar tamborim
Se a terra não me comer tamborim
Ai ai ai tamborim
Para o ano eu voltarei tamborim

O rosário vai comigo tamborim
A saudade vai ficar tamborim
Ai ai ai tamborim
Para o ano eu voltarei tamborim.
Saímos dali surpreendidos pela agitação cultural de Bom Sucesso. Encerramos a visita felizes por ainda encontrar ofícios e manifestações folclóricas que, apesar da modernidade, continuam sendo patrimônio vivo. A passagem pela cidade nos deu mais fôlego para os dois últimos dias da Expedição.
Acompanhe nesta sexta-feira a visita a Ribeirão Vermelho e Lavras.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Expedição do Patrimônio Vivo – 7º dia – Ijaci (MG) – Circuito Vale Verde e Quedas D’Água

Andressa Iza Gonçalves e Paulo de Morais. Fotos – Sansão Bogarim.
Texto concluído às 23h.


Começamos o dia com a intenção de conhecer a pedra de Santo Antônio, cuja história tínhamos ouvido no dia anterior, na comunidade do Rosário. Saímos então de Itumirim às 7h30 em direção ao distrito e perguntamos sobre o caminho que leva ao local. A estrada de terra atravessa uma serra com belas paisagens. Do alto, pudemos avistar o Lago do Funil, represa que existe há apenas quatro anos, quando a cidade de Ijaci passou a sediar uma nova usina hidroelétrica. O lago chega até o município de Itumirim e cobriu, quando foi enchido, parte da gruta de Santo Antônio. Foi construída uma passarela para que os devotos possam chegar ao interior da gruta. Passeamos pelo local aproveitando a bela vista que o lago proporciona.

Depois da rápida passagem pela gruta, tivemos que nos despedir da expedicionária Sandra Coelho, que teve de voltar à cidade do Serro, onde desenvolve os trabalhos que contribuíram para o registro do Queijo Minas como patrimônio imaterial brasileiro. Passamos por dentro de Ijaci para deixá-la em Lavras, de onde embarcou para Belo Horizonte. Ali encontramos com a também turismóloga Liliane das Mercês Santos, gestora do Circuito Turístico Vale Verde e Quedas D’água, que passou a acompanhar a Expedição. Voltamos a Ijaci para começar o sétimo dia de trabalho.
Primeira parada – 13h01 – Prefeitura Municipal de Ijaci
Encontramos Reginaldo Alves Vilas Bôas, funcionário da Secretaria de Educação e Cultura da cidade. Explicamos os objetivos da expedição e ele logo se mostrou bastante interessado. Ele nos contou a respeito da história da cidade, que foi emancipada de Lavras em 1963. O nome vem do tupi, “Rio da Lua”, e o município tem cerca de 6 mil habitantes. Com uma energia contagiante, decidimos sair logo a campo e encontrar as pessoas que iríamos conversar naquela tarde.
Segunda parada – 13h35 – Casa do senhor Antônio dos Santos – Ijaci

Para começar a visita, não podíamos deixar de conversar com uma pessoa que soubesse a história da cidade. Por isso, encontramos seu Antônio, um ijaciense de 77 anos, que fez de tudo na vida. Ele já foi boiadeiro, carreiro, comerciante, dono de bar e padaria. Aprendemos que Ijaci começou quando o fazendeiro Vigilato Vilas Bôas doou parte de suas terras para a Igreja. Foi construída, então, uma capela ao redor da qual surgiu o arraial que pertencia a Lavras.
Órfão aos sete anos e criados pelos avós lavradores, José Messias Vilas Bôas e Liduína de Bastos Vilas Bôas, Seu Antônio lembrou dos tempos em que existiam poucas casas e as ruas eram de grama ou de terra. De lá para cá, a igreja,erguida em homenagem a Nossa Senhora da Conceição, foi reconstruída duas vezes. O motivo, segundo ele, vem do fato de a cidade ter sido construída sobre um lençol freático, o que provoca rachaduras nas construções e já chegou até a causar tremores de terra na cidade vizinha, Bom Sucesso. Perguntamos detalhes sobre a cultura local, ele se lembrou com saudade das festas de antigamente. As principais eram a Festa da Padroeira e o Carnaval. Os tempos eram de muita religiosidade e respeito, portanto, não havia registros de violência. Seu Antônio terminou a conversa nos indicando dona Geraldina para conversarmos, e seguimos até a casa dela.
Terceira parada – 14h25 – Casa de Dona Geraldina – Ijaci

Quando entramos na casa de Dona Geraldina Umbelina de Castro, encontramos um fogão de lenha ainda quente. Da cozinha, dava para sentir o cheiro de doce. Ela tinha feito doce de leite mole pela manhã. Nascida em Ijaci, filha de Joaquim Porfírio dos Santos e Idalina Umbelina dos Santos, Geraldina tem 85 anos, nove filhos, 15 netos e 13 bisnetos. É a única remanescente de uma família de cinco irmãos. Nasceu numa casa bastante simples, de adobe, onde começou a trabalhar na roça com 10 anos de idade.
Aprendeu a fazer doces com a mãe, que aprendera com a avó. Qualquer doce de fruta ela tira de letra, garante. A receita do de leite estava na ponta da língua: “quinze litros de leite, cinco quilos de açúcar, um pouquinho de pó Royal, deixa ferver e joga um pouquinho de maizena; depois deixa duas horas no fogo”. Dona Geraldina contou que o marido, João de Deus de Castro Filho, era serrador. Serrava madeira para a construção de casas, currais, paióis. No entanto, a profissão foi caindo em desuso e, sem alternativa de renda, seu João resolveu começar a produzir doces caseiros.
No início, a produção era vendida de porta em porta, tanto em Ijaci quanto em Lavras. Com o tempo, os doces de dona Geraldina ganharam fama, e ela começou a receber os compradores em casa. Atualmente, os filhos ajudam na produção e até netos e bisnetos começam a aprender as primeiras receitas. Diante de tantas opções, a doceira tem o seu preferido: a cocada morena. “Rala o côco, coloca o açúcar na panela até queimar, põe o fogo e mexe até dar o ponto”, explica dona Geraldina.

A conversa terminou com dona Geraldina lembrando que, apesar do serviço pesado nas lavouras, ela tem saudades dos tempos antigos. “A gente trabalhava muito, mas era todo mundo alegre”, recordou. Experimentamos doces de laranja, côco e goiaba e nos despedimos daquela simpática família.
Quarta parada – 16h12 – Atelier de Adevágner Antônio Rodrigues

Saímos da casa de dona Geraldina em direção à casa de um artesão que trabalha com cipós. No caminho, encontramos um embaixador de reis da cidade sentado em uma esquina sob a sombra de uma árvore. José Paulo da Silva, de 53 anos, mais conhecido como seu Pachola, conheceu a Folia de Reis com o pai, José Francisco da Silva, lavrador e tocador de cavaquinho que também era folieiro. Ele comentou sobre as dificuldades de os grupos de reis se manterem hoje em dia, pois os mais novos estão ficando mais desinteressados na tradição.
Duas esquinas adiante, chegamos à casa de Adevágner Antônio Rodrigues, apelidade pelo avô José Sebastião de Lico. Hoje com 37 anos, Lico nos contou que seu pai era de Feira de Santana, na Bahia, e se mudou para Minas Gerais em busca de emprego. Acabou se estabelecendo em Ijaci como ferroviário, onde conheceu a mãe do artesão. Ele nos relatou também que o talento para o artesanato vem da família, pois os avós paternos trabalhavam com palha de coco, sisal e barro, no interior da Bahia.

Usando apenas alicate, faca e canivete, Lico faz desde luminárias de teto até objetos decorativos. Ele lembrou que iniciou o trabalho artesanal com bambu, mas percebeu que era uma técnica já muito difundida e, buscando algo original, encontrou cipós no meio do mato e começou a manuseá-los. “E Deus abençoou meu dom”, explicou. Atualmente, o artesão vende muito para compradores de São Paulo e Rio de Janeiro. Devido ao grande número de pedidos, não consegue mais atender às encomendas em pouco tempo.
Lico descreveu os tipos de cipó que usa: cipó São João, cipó chiador e cipó-cravo. Ele explicou que a espécie é uma espécie de praga, que se multiplica largamente pela região e pode até matar algumas árvores. Em alguns casos, fazendeiros pedem que sejam retirados cipós, pois eles podem até enforcar bois no pasto. Para manuseá-los, é preciso deixar um dia submersos em água. Assim como o bambu, o cipó deve ser cortado na lua minguante, para evitar caruncho.
Evangélico e pai de três filhos, Lico tem uma banda de música gospel. O artesão não tem dúvida de que dom da música vem do sangue baiano. Encerramos a conversa ouvindo de Lico que ele aprendeu sua técnica de artesanato toda sozinho. “Foi tudo dom de Deus”, finalizou.

Quinta parada – sítio de Maria Aparecida Vilas Bôas e Miguel Vilas Bôas

Fomos recebidos no sítio Bela Vista pelo casal, dona Maria logo nos contou que tinha nascido ali mesmo e que herdou do avô, José Balbino de Lima, o engenho tocado por animais, hoje substituído pelo elétrico. A modernidade não acarretou grandes mudanças no modo de fazer da rapadura, conforme podemos verificar pela fala de Aparecida. “Meu vô conta que teve uma época no passado que faltou açúcar na região. Ele nunca trabalhou tanto na vida dele, virava dia e noite na beira do tacho”, disse, referindo-se provavelmente no período da segunda guerra mundial, em que o açúcar foi racionado.
Naquele tempo, a vigilância sobre os produtores de rapadura era menos rigorosa. “Meu vô transportava rapadura para vender em Lavras, no carro de boi do mesmo jeito que leva tijolo, sem proteção nem nada. Hoje tem que ser tudo embaladinho, com etiqueta e tudo mais”, compara.
Começamos a conversar sobre o processo de fabricação da rapadura. Ele nos mostrou os três tachos onde ferve a garapa. “Primeiro tem que plantar a cana, ela demora um ano e meio para ficar no ponto. Depois, tem que tirar a cana na seca porque no tempo das águas a cana volta a ficar verde, e perde o teor de açúcar. Na seca, ela fica mais docinha”. Dona Aparecida disse que começa o processo moendo a cana. A garapa vai toda para o tacho grande. Ali vai apurando e sendo transportado para o tacho médio. Em seguida vai para o tacho pequeno até dar o ponto. No final vai para uma gamela e é repartido na forma. A forma comporta 60 rapaduras. Por semana, Dona Aparecida e seu Miguel. Nos despedimos com uma rápida passagem pelo canavial, onde Dona Aparecida fez a gentileza de partir a cana para nós chuparmos.

Terminamos o dia assistindo a um belo pôr do sol, no distrito da Macaia, localizado na beira do lago do Funil, e que fica muito próximo de Ijaci, mas pertence a Bom Sucesso.
Não perca amanhã a cidade de Bom Sucesso na Expedição do Patrimônio Vivo.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Expedição do Patrimônio Vivo – 6º dia – Itumirim (MG) – Circuito Vale Verde e Quedas D’Água


Andressa Iza Gonçalves, Paulo de Morais e Sandra Maura Coelho. Fotos – Sansão Bogarim.
Texto concluído às 23h02.

Mal acordamos e avistamos a Serra do Sofá, que circunda a cidade de Cachoeira Pequena. Não, não estamos nos confundindo. Cachoeira pequena é a tradução da palavra Itumirim do tupi guarani para o português. Mais curioso ainda foi descobrirmos que, nos tempos de arraial, Itumirim era conhecida como Coruja. Com a emancipação, a cidade chegou a se chamar Francisco Salles e depois recebeu a denominação atual. Com 6.500 habitantes, o município conta com dois distritos: Macuco de Minas e Rosário.

Primeira parada – 9h03 – Prefeitura Municipal de Itumirim



Fomos recepcionados de uma forma bastante profissional. Quem nos atendeu foi a futura turismóloga Waldelaine Antônia Domingos, de 21 anos, simpaticíssima itumirense que demonstrou estar aplicando com maestria seus conhecimentos adquiridos no curso que finaliza no fim deste ano. Muito pró-ativa, ela explicou sobre as potencialidades turísticas do município. Falamos do projeto Expedição do Patrimônio Vivo e ela, interessada sugeriu algumas pessoas que poderíamos visitar.

Segunda parada – 10h14 -Casa de Dona Maria Barbosa Barros



Chegamos à casa de Dona Maria Barbosa Barros, 59 anos, atraídos pela curiosidade em conhecer o famoso trabalho com retalhos de algodão. Dona Maria nos recebeu sorridente e já contando: “Eu aprendi tudo com minha mãe, Maria Agostinha da Silva, que costurava e bordava muito bem, desde pequena gostei muito de costurar, costuro desde os 12 anos de idade, aprendi vendo minha mãe fazer e isso foi o que me fez gostar tanto de trabalhos artesanais”.

Ela lembra que, nesta época, morava na cidade de Martinho Campos (MG), onde nasceu, num arraial onde o pai, Raimundo Barbosa da Silva, trabalhava na manutenção da linha férrea. O serviço de ferroviário era bem remunerado, o que garantia uma boa condição para a família, porém não livrava dos trabalhos em casa. A mãe se mudava com o marido e os irmãos todas as vezes em que a Rede Ferroviária transferia seu Raimundo de cidade, entre elas Pompéu, Azurita e Ribeirão Vermelho.

Há 20 anos morando em Itumirim, dona Maria já trabalhou pela comunidade em funções variadas, tais como na catequese, ministra da eucaristia e aula de crochê. Hoje, se esforça para colocar em funcionamento a Associação Ninho da Coruja, com a qual pretende transformar o ofício de costureira em geração de renda para as moradoras da cidade. Segundo dona Maria, o mercado de trabalho local é restrito para as mulheres, e a criação de uma entidade ajudaria a divulgar e vender os produtos fora do município. “É um trabalho muito minucioso, pois uma colcha demora mais ou menos um mês para ficar pronta. São dez pessoas envolvidas no projeto, e isso traz tranqüilidade, levanta a auto-estima dessas mulheres. O trabalho me distrai, e ainda dá pra ganhar um dinheirinho”, comentou.



Comentamos sobre a questão da identidade cultural do município no artesanato que elas produzem. Ela explicou que pretende adotar a coruja como um dos elementos da identidade no artesanato local. Algumas peças já estão sendo montadas com base neste conceito. “É um trabalho bonito e rentável, dá satisfação, desenvolve mente e mãos e a gente conversa bastante”, finalizou.

Terceira parada – 13h38 – Posto de saúde do distrito de Macuco de Minas – Itumirim



Após almoço, saímos da sede do município e seguimos pela estrada que liga até São João Del-Rey. Entramos no distrito de Macuco de Minas, nome que faz referência ao pássaro muito avistado no local, mas extinto na região. Fomos recebidos por integrantes da comissão organizadora da tradicional Festa do Carro de Boi, que no fim de semana passado teve a 22ª edição realizada.

Estavam nos esperando Magali Aparecida da Silva e Lúcio César Boueri. Eles nos contaram que a festa dura um fim de semana e que conta com desfile de carros de boi, concurso de rainha e princesa e um grande número de visitantes. Ficamos sabendo que o carreiro mais novo de Macuco se chama Ailton, de 27 anos, um dos poucos representantes das gerações jovens que ainda se interessa por carrear.

Magali tomou a iniciativa de pegar a Kombi do distrito e nos levou até a casa de seu Miguel Alfeu dos Santos. No caminho, ela nos contou, com empolgação, sobre a festa deste ano. Houve cobertura dos principais canais de televisão, o que ajudou a aumentar o número de visitantes. A preocupação atual, segundo ela, é conquistar a atenção dos mais jovens ao carro de boi para evitar que a tradição se perca. Notamos, portanto, que Magali tem a preocupação – justa, por sinal – de valorizar a cultura local. Ela nos mostrou o outdoor da festa, desenhado por um artista do distrito. “Já me falaram contratar alguém de fora para fazer o outdoor. Mas porque, se aqui a gente tem uma pessoa talentosa?”, questionou. Conversando com ela, vimos que a festa está em boas mãos e tivemos a certeza de que, com pessoas como Magali e os outros organizadores, a tradição será mantida.

Quarta parada – 13h50 – Sítio de seu Miguel Alfeu dos Santos – Itumirim



Nativo de Macuco de Minas, seu Miguel, de 64 anos, é carapina e ferreiro – ofícios que aprendeu com o pai, José Alfeu de Jesus. “Meu pai era mais artista do que eu. Era o melhor carapina da região, pois alguns faziam com madeira verde, mas ele caprichava, fazia com madeira boa. Naquele tempo, os filhos ajudavam o pai no trabalho e aprendiam a trabalhar”, lembra. Ele nos contou que sempre se dedicou à oficina de carpintaria e ferraria de sua casa nos meses de seca, pois no tempo das águas o trabalho era na lavoura.

Com a sensação de estarmos em um museu vivo, seu Miguel nos conduziu pelo rancho onde trabalha, descrevendo com detalhes as ferramentas e utensílios que usa para construir um carro de boi: fole, marreta, bigorna, craveira, enxó, plaina, entre outros. Jacarandá, amoreira, pereira, pau grande são exemplos de madeiras que ele utiliza. Essas espécies eram comuns no meio ambiente, mas já não são mais tão fáceis de encontrar. Além disso, ele nos contou que fica com medo de extrair a madeira da natureza, por causa da lei.



O carapina explicou que é ele quem determina a entonação da cantiga do carro de boi, dependendo da forma como o constrói e das madeiras que utiliza. De acordo com seu Miguel, a madeira tem que ser macia para uma bela cantiga e para evitar que o carro pule muito na estrada. “Carro que não canta não presta”, decretou. Ele conta que reconhece os carros que fez pelo canto, uma vez que cada um tem a sua cantiga própria.


Pai de três filhas, seu Miguel aposta nos genros para conseguir passar o ofício do carapina adiante. O neto também é outra esperança. “Isso não pode acabar. Tem que aprumar. Os mais novos não querem aprender”, disse. Outro sinal dos tempos que o carapina enfrenta é a queda no volume de pedidos. Ele lembra que o pai conseguia vender os carros que construía antes mesmo de terminar o serviço. Hoje, entretanto, não consegue comercializar a produção pelo preço que considera justo.

Quinta parada – 14h37 – Casa do senhor Domingo Alfeu dos Santos



Voltamos para a Kombi e seguimos para a casa de um dos idealizadores da festa do carro de boi, seu Domingos Alfeu dos Santos, irmão de seu Miguel, que completará 75 anos amanhã (30 de julho). “Eu sou o começo da festa. O primeiro passo aqui quem deu fui eu. Eu procurei o padre José, pois nossa comunidade foi toda construída no carro de boi. Ele concordou com a idéia e a festa foi crescendo de ano em ano”, recordou. Segundo seu Domingos, que aprendeu a carrear aos quatro anos, mais de 70 carros já desfilaram pelas ruas do distrito. O número caiu devido ao desinteresse dos mais jovens – “hoje em dia, os meninos não gostam mais de carrear.”

O primeiro boi que seu Domingos comprou veio com o dinheiro da colheita e venda de um alqueire de feijão, quando tinha 15 anos. A partir daí, ele começou a amansar bois para interessados, de onde tirava parte do sustento. “Tenho até diploma de amansação de boi”, gaba-se. Nos despedimos com satisfação e voltamos ao centro de Macuco de Minas, de onde seguimos para conhecer o distrito de Rosário.

Sexta parada – 15h54 – Casa de Dona Antônia Rosa de Assis – Distrito do Rosário – Itumirim



Chegamos na comunidade do Rosário intrigados pela história de devoção e fé por Santo Antônio. Por coincidência, a primeira pessoa que encontramos para contar a história do local foi uma simpática senhora, nascida no dia do Santo, dia 13 de junho - fato que motivou a mãe a batizá-la de Antônia. Hoje com 81 anos, orgulha-se dos 9 filhos, 38 netos e 14 bisnetos. Ela considera que, apesar de não ter estudado, teve uma vida boa, pois aprendeu com os pais os conhecimentos que usou no decorrer da sua vida.

Ela começou a conversa contando sobre a Gruta de Santo Antônio, que hoje é só uma pedra sobre as águas de uma represa. Segundo Dona Antônia, a antiga gruta, que tinha sete portas, abrigava uma imagem de Santo Antônio. Esta foi retirada do local pelos moradores e levada para o Rosário. Diz a lenda que a imagem reaparecia misteriosamente na gruta, o que originou a devoção pelos católicos da região. “Sou muito devota de Santo Antônio. O povo de hoje não tá para devoção. A gente vai na igreja e tem pouquinha gente, mas o bar fica cheio, né? Pode até ir pro bar, mas tem que ir à missa”. Sua religiosidade nos marcou no momento que ela finalizou a prosa dizendo: “ fui casa por 53 anos, nunca discuti com meu marido, graças a Deus não vou levar esse pecado para o céu”.



Encerramos a visita ao Rosário com um cafezinho na praça, tivemos numa rápida conversa com Dona Aparecida Sales, uma senhora de 73 anos, que nos convidou para a Festa do Rosário que acontece em agosto. Nascida no Rosário, lembrou com saudosismo dos tempos em que as famílias vinham para a festa de carro de boi. Com entusiasmo, nos relatou que na festa acontecem leilões, missas, procissões e, claro, os bailes animados.

Nos despedimos de Itumirim com a certeza de que há muito patrimônio a ser valorizado e tranqüilos de que pessoas competentes estão a frente dessa grande missão. Acompanhe amanhã a visita da Expedição do Patrimônio Vivo a Ijaci.