quarta-feira, 30 de junho de 2010

O fim da novela dos Pontos de Cultura em Minas Gerais



Depois de muita articulação na rede de Pontos de Cultura de Minas Gerais, que resultou numa inédita mobilização, o Governo de Minas ofereceu uma alternativa para a assinatura dos convênios com as entidades aprovadas no edital 01/2008. Anunciada na sexta-feira retrasada em audiência pública da Comissão de Participação Popular da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, a proposta da Secretaria de Estado da Cultura (SEC) foi de que cada projeto aprovado aceitasse uma cláusula de contrapartida de 20% do valor do projeto. Desta forma, o repasse do recurso de R$ 60 mil por ano não se enquadraria na vedação da legislação eleitoral. Segundo a interpretação do estado, a ausência de contrapartida colocaria o repasse na condição de "doação gratuita", o que é proibido pelas regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) neste ano de eleições.

A criação da contrapartida de R$ 12 mil por ano não é um bicho de sete cabeças para os Pontos de Cultura. Como o projeto não se propõe a manter o funcionamento das entidades propriamente dito, cada proponente já previa nos planos de trabalho serviços voluntários para executar as atividades, além de cessão de espaços e contas de luz, água etc. Ou seja, cada entidade, agora, terá apenas que mensurar economicamente o valor destes custos e prestar contas como sendo contrapartida. Um exemplo citado pela SEC para contrapartida é a cessão de trabalho voluntário por um supervisor geral, ao custo de R$ 1 mil por mês.

A interpretação da lei continua sendo discutível. O Ministério da Cultura (MinC) adotou uma postura menos conservadora em relação à resolução do TSE sobre o calendário eleitoral. Para o governo federal, o repasse previsto no edital não se configura como doação gratuita, uma vez que cada projeto tem metas e atividades a serem executadas. Porém, o Estado manteve-se impassível e arranjou um jeitinho brasileiro para driblar as restrições da interpretação.

Como resultado, 86 das 100 entidades aprovadas no edital aderiram à cláusula de contrapartida e assinaram, nas últimas quarta e quinta-feira, o convênio com o Governo do Estado, o que mostra que a ampla maioria concorda com a decisão. Os números se referem à publicação no Minas Gerais, o diário oficial do governo de Minas. Os 14 projetos que não assinaram encontram-se, provavelmente, em três situações. Ou estavam com problemas contábeis (sem as certidões negativas de débito em dia), ou não concordaram com a criação da contrapartida ou - o menos provável - não ficaram sabendo da proposta da SEC.

A última alternativa é pouco provável. Em virtude da movimentação dos Pontos de Cultura nos últimos três meses, o surgimento de lideranças pró-convênio manteve a rede muito articulada e a par dos acontecimentos. O grande destaque do movimento é Nil César, do projeto Casa do Beco, de Belo Horizonte. Voluntariamente, ele esteve presente na sede da Secretaria, na Praça da Liberdade, durante toda a semana passada contatando os representantes das entidades aprovadas. O maior exemplo da capacidade de articulação envolveu o Ponto de Cultura da etnia indígena Xacriabá, do município de São José das Missões, do Norte do Estado. Encontrar o pessoal da tribo foi extremamente complicado e só foi possível quando, depois de várias tentativas, o pessoal da UFMG, parceira da tribo, conseguiu avisar os indígenas.

As atenções agora se voltam para o início das atividades dos Pontos. O dinheiro será depositado nas contas até o fim desta semana, segundo promessa da SEC. Antes de botar o bloco na rua, no entanto, os aprovados terão de passar por um processo de capacitação comandado por uma empresa contratada para este fim. O governo de Minas ainda não marcou data para o curso e não há mais detalhes.

Bastante tumultuado, o processo de conveniamento deixou algumas lições tanto para o governo quanto para a sociedade civil envolvida no caso. A principal delas é a necessidade de diálogo mais próximo e pacífico. Diálogo, inclusive, que deve ser aprimorado nas entranhas do governo. Se alguma coisa ficou clara durante o desenrolar da novela é que os órgãos das administrações federais e estaduais pouco conversam. Um exemplo foi a promessa, feita em fevereiro por ofício às entidades e referendada presencialmente em março no Fórum Nacional dos Pontos de Cultura, de que os convênios seriam assinados em abril.

Apesar da dívida duplamente assumida pela SEC de que os convênios sairiam naquela época, houve uma brusca mudança de rumos quando, na segunda metade de abril, a Advocacia Geral do Estado entrou no meio advertindo a SEC de que os repasses não poderiam ser feitos por conta do calendário eleitoral, que havia sido divulgado pelo TSE em julho de 2009, ou seja, quase um ano antes. Diante disso tudo, fica a pergunta: os setores do governo não conversam entre si? Como é possível passar nove meses para que a Secretaria de Cultura fique sabendo de uma legislação eleitoral sendo que tem cem convênios por assinar?

Com relação à postura do atual secretário de Cultura, Washington Mello, a percepção é de que, quando assumiu a SEC em março deste ano, não tinha o conhecimento do pepino que tinha pela frente. Visivelmente, ele ainda não se familiarizou com toda a estrutura da pasta que ocupa, cometendo algumas gafes nas aparições em público. Um exemplo aconteceu na audiência pública da reforma da Lei Rouanet, em abril, quando surpreendeu a todos por dizer que a Lei Estadual de Incentivo iria abrir mão dos 20% de contrapartida das empresas patrocinadoras, o que iria na contramão da reforma da lei federal. Depois de muito questionamento, ele foi advertido por pessoas da plateia de que a mudança não era bem essa e teve de se explicar depois.

Na prática, Mello caiu de pára-quedas numa função cuja maior tarefa é apagar os incêndios deixados pelo antecessor Paulo Brant, este sim, o principal responsável pela desordem na casa. Aos poucos, as coisas vão se acertando. Mas, no apagar das luzes, o Governo de Minas demonstrou que a interiorização da cultura, carro-chefe da SEC nos oito anos da gestão Aécio-Anestesia Anastasia, tomou um curto-circuito de gestão que deixará, ainda, muito pepino para o próximo mandatário do Palácio da Liberdade.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Em Betim, Santa Izabel está mais para bairro do que ex-colônia

Betim fechou, na semana passada, a última da série de visitas do projeto Museu da Oralidade às antigas colônias de hanseníase de Minas Gerais. Diferentemente de Padre Damião (Ubá), São Francisco de Assis (Bambuí) e Santa Fé (Três Corações), Santa Izabel pode ser considerada realmente uma ex-colônia, pelo menos no que diz respeito ao isolamento. Talvez por estar na região metropolitana de Belo Horizonte, onde a população cresceu bastante nas últimas décadas, a Casa de Saúde não se encontra mais na zona rural. Em acordo entre o governo de Minas, a prefeitura da cidade e os moradores, o local foi urbanizado, as cancelas foram banidas e o que se encontra ali está mais para um bairro.


Mercearias, bares, lojas de roupas, escolas, praças, tudo ali tem mais cara de cidade do que nas outras ex-colônias. Nem por isso, deixa de fazer parte da paisagem local as ruínas dos antigos pavilhões (acima), que no contexto mais urbanizado ficam até bonitas de se ver. Outro espaço interessante é antigo cinema (abaixo), com fachada restaurada. Todas as ex-colônias tinham cinemas, cujos prédios atualmente abrigam espaços para seminários e palestras comandados pela Fundação Hospitalar (Fhemig).


Dentre outras diferenças em relação às ex-colônias, Santa Izabel tem um belo memorial, montado pelos moradores locais. Essa mobilização em prol da memória pode ser atribuída à grande politização dos ex-hansenianos e descendentes, que se deve à presença marcante do Movimento de Reinserção das Pessoas Antingidas pela Hanseníase (Morhan). Peças de tratamento médico, fotografias de jogos de futebol dos pacientes, instrumentos musicais, peças de vestuário e muitas fichas de internação fazem parte do belo memorial (abaixo).

Mas nada em Santa Izabel é tão impressionante como a obra do artista Luiz Carlos de Souza, mais conhecido como Veganin. Nascido em 1950, ele se mudou para Santa Izabel aos vinte anos. Para a igreja local, criou a via sacra em óleo sobre tela. Mas não se trata de uma via sacra comum, no estilo padronizado do catolicismo. Veganin fez uma releitura da paixão de Cristo, misturando simbologias contemporâneas com personagens de histórias em quadrinhos e filmes de hollywood. Turma da Mônica, Darth Vader, gladiadores romanos e ditadores soviéticos aparecem nas telas. A riqueza de detalhes é impressionante. É possível analisar cada quadro por horas, observando as minúcias e interpretando a criatividade do pintor.


Em se tratando da oficina de registro da oralidade propriamente dita, a diferença entre Santa Izabel e as demais colônias se dá na grande participação dos moradores dentro da comissão de memória local. Reflexo também da presença do movimento social dos hansenianos, a presença de moradores na oficina acabou despertando uma outra reação diante da proposta de se fazer um mutirão de histórias de vida na colônia. Enquanto em Ubá e Bambuí a conversa se fixou nos meandros da metodologia do Museu da Oralidade, em Betim, se houvesse ali um gravador, talvez o projeto já estivesse pronto.

É que, por muitas vezes, as lembranças dos moradores afloraram enquanto contávamos sobre a experiência piloto em Três Corações. Uma das histórias que marcou foi a lembrança de quando o Estado ofereceu para os hansenianos a possibilidade de acabar com a divisão entre cidade e colônia, derrubando as cancelas de segurança. Os moradores aceitaram a ideia, que trouxe conquistas e outros desafios. O primeiro deles: o que fazer com a liberdade? Os colonos foram acostumados a viver sob a repressão e a tutela do Estado e tiveram que aprender a dialogar ao invés de apenas dizer "sim, senhor".



Comenta-se muito que, embora à primeira vista Santa Izabel seja um caso de sucesso na reintegração das colônias, ainda há problemas graves em toda a trajetória de urbanização. A violência é o maior deles, segundo se comenta. No entanto, isso não é exclusividade, se levado em conta o que se fala nas outras ex-colônias. O que aconteceu em Betim nas últimas décadas deve ser levado positivamente em consideração. É a colônia que melhor soube se integrar à cidade. Enquanto isso, nas colônias de fora da região metropolitana, parece que o problema da ocupação desordenada continuará sendo empurrado com a barriga, até que os últimos ex-hansenianos não estejam mais por aí.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Na Colônia Padre Damião, em Ubá, filhos e netos de ex-hansenianos dão função a espaços abandonados pelo Estado

Depois de Bambuí, que teve em maio a visita do Museu da Oralidade, foi a vez de Ubá, cidade da zona da mata mineira, receber a oficina de metodologia em memória oral. Ubá é sede da Casa de Saúde Padre Damião (CSPD), uma das quatro ex-colônias de hanseníase de Minas Gerais. Na prática, a ex-colônia fica mais próxima da cidade de Tocantins do que propriamente de Ubá.


A viagem entre Belo Horizonte e Ubá é tranquila, principalmente enquanto é feita pela BR-040. Alguns quilômetros antes de Barbacena, o carro segue por outra estrada menor, sem acostamentos, com mais de 200 curvas segundo contagem extra-oficial. Seria um trecho de fazer qualquer um se sentir mal não fosse a bela vista do alto da serra, de onde se avistam cachoeiras, montanhas, casarões antigos e muito verde.



A colônia Padre Damião tem semelhanças e peculiaridades em relação às similares Santa Fé (Três Corações) e São Francisco de Assis (Bambuí). A começar pela localização na zona rural, situação típica dos locais onde eram internados os chamados "leprosos". A chegada é pelos prédios dos hospitais, que a exemplo das demais casas de saúde, ainda funcionam com atendimento à população. Eles cercam uma praça bem conservada (foto acima), mantida pela Fundação Hospitalar de Minas Gerais (FHEMIG).


Atrás dos hospitais, estão os pavilhões onde antigamente os hansenianos moravam (foto acima). Alguns ainda são moradias dos remanescentes do tempo da internação compulsória. Ao contrário de Bambuí e Três Corações, praticamente não há pavilhões abandonados na ex-colônia de Ubá. Mas não que isso fosse vontade do governo de Minas Gerais, responsável pela manutenção dos espaços. Os prédios onde funcionavam habitações de doentes foram ocupados por filhos e netos dos antigos moradores. Como edifícios públicos não podem ser alvos de usucapião, a ocupação é considerada ilegal e tida pela Fhemig como "invasão". Não por acaso o assunto é tratado como altamente delicado por funcionários da instituição.



Além dos pavilhões, terrenos baldios nos arredores foram ocupados por descendentes dos ex-hansenianos. Muita gente contruiu casa por ali. Alguns são mais caprichosos e tiveram condições de rebocar e pintar a fachada. Outros estão com tijolos aparentes. E não são apenas residências: muitos moradores aproveitaram para construir "puxadinhos", onde funcionam bares, restaurantes e mercearias. É o caso, por exemplo, de Marli de Assis, que tem uma venda de ração para gado e animais domésticos (foto acima). Frequentadora da igreja Deus é Amor que funciona no pavilhão ao lado da casa que construiu com o ex-marido, ela contou que é filha de pai e mãe hansenianos, que vieram para Ubá por conta da doença.



 Caminhando pelo local é fácil estimar que devem morar por ali cerca de 2 mil pessoas, que têm água e luz custeados pelo Estado, uma vez que estão em terreno público. A ocupação dos espaços, por si só, não é propriamente negativa. Se as colônias foram construídas com recurso público, é de se esperar que os espaços sirvam para alguma finalidade social, a fim de se evitar desperdício de dinheiro. Em Bambuí e Três Corações, por exemplo, tudo indica que os vários pavilhões abandonados irão para o chão em breve, pois não há solução politicamente viável à vista para dar funcionalidade a tantos prédios.

O que complica a situação, no entanto, é a vulnerabilidade à qual os moradores estão submetidos. Como estão numa espécie de "terreno sem dono", faltam opções de lazer, esporte, cultura e serviços em geral. É comum ouvir de alguns moradores o relato de que os jovens consomem e vendem drogas no local, com destaque para o crack. Como também não possuem escritura dos terrenos ou dos pavilhões, existe a possibilidade de serem removidos com um termo de reintegração de posse.

A memória oral será adotada pela comissão de memória da FHEMIG local para valorizar os saberes que os ex-hansenianos ainda guardam. Ubá será a terceira ex-colônia de Minas a realizar o Mutirão de Histórias de Vida, depois de Bambuí e Três Corações.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Audiência pública vai debater impasse do Governo de Minas com Pontos de Cultura


Na próxima quarta-feira, dia 16, às 9h30, acontece na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) audiência pública para debater o impasse provocado pelo Governo do Estado em relação ao programa Mais Cultura e ao conveniamento dos cem Pontos de Cultura aprovados em 2009. Convocada pelos deputados Carlin Moura (PCdoB) e André Quintão (PT), o evento será uma tentativa de estabelecer diálogo entre as entidades que tiveram projetos aprovados e a Secretaria de Estado da Cultura (SEC), órgão responsável pela gestão dos recursos do programa.

Conforme o blog Viraminas vem noticiando há dois meses, o governo de Minas se envolveu num impasse político em razão do processo de conveniamento. Aprovadas em junho de 2009 no edital publicado em dezembro de 2008, as cem instituições mineiras foram avisadas de que o convênio seria fechado em novembro do ano passado. No entanto, a SEC não deu conta do recado e o processo ficou para 2010. Em fevereiro, no entanto, um parecer jurídico da Advocacia-Geral do Estado (AGE) mandou suspender o trabalho de conveniamento, que sequer havia se iniciado. Apenas no fim do mês de abril, no entanto, os Pontos de Cultura foram avisados do impasse e, desde então, vem aguardando com ansiedade o desfecho desta novela.

A par da discussão, o Ministério da Cultura (MinC) também virou outro personagem da novela em maio, quando reuniu-se com os Pontos aprovados em Belo Horizonte para apresentar o parecer da Assessoria Jurídica do MinC apoiado pela Advocacia-Geral da União (veja íntegra do documento aqui). No entanto, mesmo com o parecer contrário do MinC e o argumento (não aceito pela SEC) de que outros Estados como Bahia e Acre firmaram convênios idênticos com Pontos de Cultura em 2010, o governo de Minas se mostra irredutível.

Devolução 
Na última movimentação da SEC, no início deste mês, um ofício encaminhado ao Ministro Juca Ferreira pegou toda a comunidade cultural de surpresa. Como se não bastasse o imbróglio jurídico e político que envolve o convênio, o secretário Washignton Mello sinalizou com a intenção de devolução do dinheiro do Mais Cultura para o MinC. De acordo com o site da SEC, a medida seria a "solução efetiva para o repasse do recurso aos cem Pontos de Cultura": o governo federal, que afirma não haver impedimentos legais ao repasse, ficaria responsável por celebrar os convênios.

No entanto, a medida irritou ainda mais os Pontos de Cultura, por dois motivos. Primeiro: foi uma decisão tomada sem diálogo. Mesmo sabendo da cobrança e da mobilização das entidades aprovadas e afirmando que quer trabalhar em parceria para solucionar o caso, o governo mineiro não consultou as associações para saber a opinião delas. Segundo: a retomada do processo pelo Ministério da Cultura acarretaria numa reburocratização do processo e, sem dúvida, seria ainda mais demorada do que se os convênios fossem finalizados pela SEC após as eleições.

SERVIÇO
Audiência Pública: O Impasse dos Pontos de Cultura
Local: Assembleia Legislativa de Minas Gerais
Rua Rodrigues Caldas, 30, Santo Agostinho - Belo Horizonte
Data: Quarta-feira, 16 de junho de 2010.
Horário: 9h30.

Crédito da foto aqui.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Memória dos negros brasileiros: na oralidade e nos quadrinhos

Seguindo o costume de publicar neste blog resenhas de todas as publicações às quais temos acessos em fóruns e seminários, tenho o prazer de falar de duas publicações que ficamos conhecendo no encontro de formação da rede Negras Raízes, de Paracatu, no noroeste de Minas Gerais.

A primeira delas é um livro do historiador Marcos Spagnuolo de Souza em parceria com Eleusa Gomes de Oliveira, entitulado Os Negros de Paracatu. É sempre prazeroso falar de publicações que trazem relatos da oralidade, ainda mais quando se trata de Paracatu. Foi de lá que saiu outro livro de Spaguolo, Vidas Vividas em Paracatu, o qual nos inspirou para a série de projetos que culminou na criação do Museu da Oralidade no Sul de Minas.

Os Negros traz um recorte étnico da memória oral da cidade. São 41 depoimentos, registrados tanto no centro da cidade quanto nos bairros e na zona rural. Paracatu tem uma grande comunidade negra, atribuída às lavras de ouro, que até hoje funcionam na cidade. Publicado ano passado, o livro retrata as entrevistas feitas em 2001. Os pesquisadores contam que optaram por não gravar em áudio ou vídeo as entrevistas - apenas registraram em anotações, evitando assim inibir as pessoas ouvidas.

A maioria dos ouvidos é de origem simples, muitos deles são semi-alfabetizados, o que é comum em registros da oralidade. Como foram ouvidos há quase dez anos e alguns tinham, à época, 80 ou 90 anos, acredito que existem aqueles que já tenham falecido, o que revela a importância do registro para a comunidade. Além disso, o retrato da oralidade dos negros é fundamental para compreender melhor a formação histórica e social do município, pois aos populares a história oficial costuma ser excludente e preconceituosa.

Um trecho do relato de José Alves Meireles mostra a profundidade da narrativa histórica do livro:

"O meu pai nunca me contou nada a respeito da escravidão, era só minha avó Camila que me contava alguma coisa. Ela falou comigo que os escravos sofriam muito aqui em Paracatu e que o pessoal tinha uma roda de bater e uma roda de enforcar. Hoje existe um bairro aqui em Paracatu chamado Arraia d'Angola elá existia um curral que vendia escravos que vinham de Angola, assim contava a vovó. Eles prendiam os escravos no curral e ali eles eram vendidos".
Este tipo de relato, passado de geração em geração tendo a oralidade como único suporte, fica imortalizado por projetos como este. Mesmo levando-se em consideração a volatilidade e a subjetividade características da história oral, ela não pode ser descartada como fonte de informação e de entendimento da realidade.

Outra publicação que chegou até nós pelo trabalho da Fundação Conscienciarte foi a revista em quadrinhos A Revolta dos Búzios, que retrata o episódio também conhecido como Conjuração Baiana. Publicação do grupo Olodum como embasamento para o tema do desfile de Carnaval de 2007, a história da revolta popular da Bahia é descrita por dois personagens infantis e ilustrada com precisão. O traço é do chargista Maurício Pestana.

O grande barato da narrativa é o destaque dado ao fato de a revolta baiana ter sido pensada por iniciativa popular, envolvendo alfaiates, religiosos de baixo escalão, negros libertos e até escravos. Neste ponto, a inconfidência de Salvador diferencia-se de sua antecessora mineira, que em Ouro Preto havia reunido, dez anos antes, militares e filhos de classe média no levante contra o radicalismo português.

O ideal libertário baiano era, também, mais inclusivo. Pretendia a abolição imediata da escravidão e oportunidade de empregos para os negros libertos. Tudo isso é relatado com bastante precisão. Não há como, no entanto, comparar com outra revista em quadrinhos que conheci no ano passado, chamada O que é Maceió, da editora Catavento. A publicação relata a história da capital alagoana.

A diferença entre as duas publicações é que, na de Alagoas, os personagens históricos tem mais vida, pois são deles as falas que compõem a narrativa. No conto baiano, eles são apenas figurantes. Embora ambas tenham seus méritos, a linguagem da publicação alagoana me pareceu mais agradável. O que é Maceió e A Revolta dos Búzios são duas boas leituras para jovens, professores e curiosos. Num país onde a leitura ainda não foi massificada, narrativas históricas em quadrinhos são excelentes iniciativas para difundir nossas memórias.

terça-feira, 1 de junho de 2010

Pontos de Cultura de Matriz Africana se encontram em Paracatu

Este fim de semana, o Museu da Oralidade participou do encontro de formação da rede Negras Raízes, comandado pelo Ponto de Cultura da Fundação Conscienciarte, de Paracatu, no Noroeste de Minas Gerais. Estiveram presentes vários Pontos vinculados ao programa Cultura Viva e outras instituições para discutir questões que envolvem educação, diversidade cultural e o respeito à religiosidade de matriz africana.

O encontro nos permitiu conhecer boas iniciativas. Uma delas é o Educafro, organização que cria cursinhos pré-vestibulares comunitários para jovens negros e brancos pobres. A representante da iniciativa destacou que este é um dos únicos projetos de educação com recorte racial no Brasil, embora haja vários com recortes sociais, como cursos voltados para sem-terras e comunidades periféricas dos grandes centros urbanos.

Outra iniciativa que podemos destacar é o Monabantu, Movimento Nacional Nação Bantu. O grupo trabalha a conscientização política das comunidades descendentes do povo Bantu, originário de Angola e alguns países vizinhos. Dentre os projetos da iniciativa, está a busca pela reterrorialização das comunidades, hoje espalhadas pelo Brasil afora. A cultura Bantu é presente em várias manifestações culturais de matriz africana, como o Reinado e o Maracatu, e tem mais de dois mil vocábulos de línguas próprias integrados na língua portuguesa falada em território brasileiro.

A Fundação Conscienciarte, que organizou o encontro, apresentou seus projetos. Ao trabalhar com a consciência negra e a inclusão social, a entidade agrega projetos de esporte, capacitação para o trabalho e cultura, dentre outros. Dona de um rol impressionante de projetos, a instituição detém vários prêmios privados e públicos, como o Prêmio Asas e o Prêmio Tuxáua, ambos do Ministério da Cultura.

Fizemos nossa apresentação sobre o projeto Reinado para as Novas Gerações, por meio do qual estamos levantando a memória oral das irmandades de Nossa Senhora do Rosário de Divinópolis para escrita de um livro infantil, que deve ser lançado em agosto. A apresentação foi positiva e engrossou o coro das iniciativas de valorização da cultura de matriz africana ao incorporar a temática da oralidade às discussões.

Foram definidas pelos presentes algumas propostas para valorizar a matriz africana na cultura nacional. O conteúdo das propostas está sendo sistematizado pela Conscienciarte, que deve lançar um documento com o resultado do encontro. Todas as instituições participantes receberam um excelente conjunto de livros e cartilhas sobre matriz africana. Postaremos aqui, em breve, algumas resenhas do material, para compartilhar com nossos seguidores.

Mais informações no blog do projeto Negras Raízes.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Benedita Cineclube de portas abertas em Cambuquira

Este fim de semana, estivemos em Cambuquira para conhecer o Benedita Cineclube, uma excelente iniciativa do pessoal da cidade das águas medicinais. Aprovado no edital Cine Mais Cultura, do Ministério da Cultura, o projeto conta com uma seleção generosa de filmes brasileiros consagrados, percorrendo desde o Cinema Novo de Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos até a atual retomada. As apresentações acontecem todos os sábados às 16h e são uma boa opção inclusive para quem está em Três Corações, já que, do centro da cidade do Rei Pelé à porta do Cineclube, são apenas 18km.

O Cineclube funciona no Espaço Cultural Sinhá Prado, o mesmo local onde acontece a Mostra de Cinema e Audiovisual de Cambuquira (Mosca), que no próximo mês de julho chegará à sexta edição. Ali funcionava o antigo Cine Elite, daqueles cinemas que ficavam lotados nas cidades do interior antes da chegada da televisão. Com a modernidade, as salas de cinema entraram em crise. Nas capitais, só funcionam em shoppings e se revezam entre blockbusters americanos e subprodutos da indústria hollywoodiana, com algum espaço para as produções globais.

No interior, fecharam-se praticamente todas. Três Corações, por exemplo, já teve quatro salas, que deram lugar a igrejas ou lojas de eletrodomésticos. Outro dia, inclusive, chegou a notícia de que o gigantesco letreiro da loja Colombo, na praça da Escola Bueno Brandão, esconde a fachada do antigo Cine Santa Cecília, que era nos moldes do Cine Elite de Cambuquira. Coisas da modernidade, que nos brinda com a terrível poluição visual e suas feiúras publicitárias.


Em Cambuquira, o esforço pela democratização do acesso ao cinema brasileiro de qualidade nos brindou, neste fim de semana, com Macunaíma, do diretor Joaquim Pedro de Andrade. Baseado na obra do modernista Mário de Andrade, o filme traz uma leitura escrachada e bem humorada do herói brasileiro, nascido negro na selva e esbranquiçado miraculosamente quando se muda para a cidade. A sala não estava cheia, coisa comum em projetos culturais que buscam emplacar. Melhor do que oferecer um espetáculo superficial às massas é oferecer um produto de qualidade a quem busca se manter informado.

Chamou a atenção a qualidade da restauração, comandada pelo estúdio Trama. Parece que nem as exibições feitas nas tevês públicas tem tanta limpeza. Já o som não estava em tão boa qualidade e atrapalhava o entendimento em algumas partes. Coisas do cinema da década de 1960. Destaque da obra para as atuações caricaturais de Grande Otelo e Paulo José, interpretando o protagonista. O filme conta, também, com várias sacadas de roteiro e montagem, que deixam a gente à vontade para soltar boas risadas e agregam elementos das chanchadas à linguagem do Cinema Novo brasileiro.

Outro destaque é pela bela restauração do Cine Elite. Um espaço cultural com boa capacidade de público e estrutura para receber eventos. Tanto que Cambuquira foi escolhida pelo pessoal do Ponto de Cultura Filmes de Quintal, de Belo Horizonte, para sediar uma das mostras itinerantes do festival de documentários etnográficos ForumDocMG. Podem marcar na agenda: as apresentações acontecem nos dias 26 e 27 de junho.


Serviço
Benedita Cineclube
Espaço Cultural Sinhá Prado – Av. Virgílio de melo Franco, 481 – Cambuquira-MG
Apresentações aos sábados às 16h.
Confira aqui a programação.